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Interrompido – Espírito de morte (Episódio 16)
O espírito de morte começa a rondar o quarto de Cadu, ao sentir sua tenebrosa e opressora presença, Lourdes a expulsa.
Mishael Mendes access_time 17 min. de leitura
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Lágrimas lavam a alma, expurgando aquilo que palavras não podem exprimir – e Marcos experimentou exatamente isso. Sem chorar a tempo suficiente pra atrofiar os ductos lacrimais, Lourdes o fez confrontar o passado e, após a compreensão obtida, isso se tornou inevitável.

O resultado dessa incursão trouxe percepção a ponto de os fazer enxergar através da própria dor, sentindo a dimensão do sofrimento um do outro.

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O tempo passava feito cavalo selvagem, no qual Lourdes montou sem saber de sua característica indomável, agora se encontrava presa, sendo arrastada pra um destino desconhecido. Por isso se apegou com firmeza aos momentos recebidos como presente a cada amanhecer, mantendo-se firme, durante os pulos do persistente galope, mesmo com os galhos a lhe arranhar corpo e face.

Ela acabara de limpar Cadu e verificava se os sensores estavam devidamente conectados e os aparelhos funcionando normalmente, nisso um espírito de morte rondou o quarto e conforme a presença opressora se aproximou, calafrios se espalharam por seu corpo.

— Repreendo, em nome de Jesus, todo espírito de morte que queira assolar meu filho! – Ela falou com a autoridade concedida pelo Mestre [Marcos 16.17-18].

— TOC! TOC! TOC! – As batidas na porta a pegaram de forma tão inesperada que até os pelos arrepiaram, enquanto se virava, assustada, em direção ao som.

— Olá, dona Lourdes, como o Cadu está? – A desconhecida quis saber após abrir a porta.

— Ainda desacordado, mas acredito que logo ele acorda. – Apesar da mulher demostrar conhecê-los bem, ela tinha certeza de nunca a ter visto antes e acabou respondendo no automático.

— Ah! Desculpe por não me apresentar primeiro. – A mulher se desculpou ao ver Lourdes a lhe encarar com estranheza. – Sou Elis, a mãe do Nandinho.

Tão logo os ouvidos captaram o apelido, o cérebro processou a quem ele se referia e aquilo fez algo revirar dentro de Lourdes.

— Será que podemos conversar? – Elis lhe interrompeu o fluxo de pensamento e ela apenas assentiu, então as duas sentaram nas poltronas.

“Lágrimas lavam a alma, expurgando aquilo que palavras não podem exprimir.”

A convidada contou que, desde pequeno, Nandinho sempre foi inquieto e pra se manter ocupado, ao completar 6 anos, resolveu trabalhar com o pai na roça. Enquanto os coleguinhas curtiam a infância ele preferia labutar – pra ele não havia tempo ruim.

Apesar de achar bonitinho o empenho, não pareceu certo pros pais ele se esforçar tanto, então o puseram numa academia de artes marciais, onde ficaria ocupado e podia gastar as energias – ali ele se empenhou tanto que chegou a ganhar alguns campeonatos.

O cérebro de Nandinho costumava funcionar num ritmo mais acelerado o que, além de deixá-lo elétrico, o tornava meio impaciente isso, até começar o jiu-jitsu, mas daí acabou ficando independente demais e foi se distanciando devido aos treinos e campeonatos. Como os pais também não tinham muito tempo pra si – o desprendimento facilitou a ida pra São Paulo antes mesmo de alcançar a maioridade.

— Apesar do Nandinho estar distante e de sentirmos falta dele, a gente sabia que ele estava bem, pois sempre nos mandava dinheiro. – Emocionada, Elis fez uma pausa. – Ele ia passar um tempo lá em casa, após terminar as provas da faculdade.

Os pais não sabiam como ele se sustentava, menos ainda que largou a facu – ele achou desnecessário chateá-los com uma informação que só ia servir pra os afastar de vez, pois eram meio antigos. Como devia uma visita a bastante tempo, mesmo com a agenda apertada se programou pra isso, mas uma semana antes da viagem aconteceu o acidente e isso foi tão inesperado que Arnaldo, o pai de Nandinho, adoeceu.

— Por isso só vim agora. – Elis precisou respirar fundo. – O pior é que nem ao menos pude me despedir do meu filho, ele foi enterrado por aqui, sem a gente, num caixão lacrado. Às vezes tenho a impressão que ele não morreu, apenas perdeu o voo pra casa e ainda não conseguiu voltar pra gente.

— Oh! Sinto muito… – O peso naquelas palavras comoveu Lourdes e ela tentou transmitir forças pondo a mão no ombro da visitante.

— Agradeço a compaixão, mas não foi pra isso que vim. – Elis tomou a mão dela entre suas. – Quero dizer pra doar os órgãos do seu filho.

A proposta teve o efeito de desaturar tudo e, enquanto puxava a mão de volta, com os olhos a captar imagens em escala de cinza lentamente, Lourdes sentiu um frio assustador.

“Um dia acaba chegando o fim de cada coisa e sem que a gente possa fazer algo, se vão sonhos, realizações e entregas, mas algumas vidas são ceifadas antes mesmo do que deveriam devido escolhas ruins.”

— Sei que esse não é um pedido fácil… – Elis chamou sua atenção de volta. – …mas pense nas pessoas que podem ser salvas. Queria ter feito isso com o Nandinho, mas quando soube do acidente já era tarde, mas você pode. Você tem essa opção!

Enquanto falava, Elis notou a ouvinte cabisbaixa, então abaixou a cabeça e mirou nos olhos de Lourdes.

— Um dia acaba chegando o fim de cada coisa e sem que a gente possa fazer algo, se vão sonhos, realizações e entregas, mas algumas vidas são ceifadas antes mesmo do que deveriam devido escolhas ruins. – Sem poder encarar aquele olhar penetrante, Lourdes desviou o rosto. – Doar órgãos é semear oportunidades, seja prolongando o tempo ou proporcionando condições melhores, é se compadecer de quem anseia por vida. – Elis recordou a importância de ajudar o próximo [Mateus 22.39].

As palavras ecoaram tão fundo que Lourdes apertou os olhos tentando reter a alma desejosa por escapar em pequenas gotas de quebrantamento, enquanto a garganta diminuía de tamanho, dificultando a respiração.

Ao abrir os olhos o controle foi por rosto abaixo, embaçando a visão, ela tentou dizer que o marido não tinha o direito de ligar pra Elis e ter tocado nesse assunto, mas viu apenas um borrão onde a convidada estava e, ao limpar as vistas, percebeu-se sozinha.

Rapidamente ela abriu a porta, procurando a visitante pelo corredor, só que não havia ninguém, menos ainda Marcos – ele já devia ter começado a trabalhar.

Ainda surpresa, aproveitou uma enfermeira que vinha passando e perguntou de Elis, recebendo como resposta não ter sido avistada uma mulher com as descrições dadas, aliás, se quer passou qualquer alma viva, àquela hora o corredor costumava ficar deserto. Na recepção, Alice desconheceu o nome, no sistema também não havia entrada alguma, saber isso lhe causou um arrepio – podia ela ter recebido a visita de um anjo [Hebreus 13.2]?

De volta ao quarto 705, Lourdes se deu conta que o incomodo no estômago era causado pela raiva nutrida por Nandinho. O ressentimento começou como lagartixa até virar um faminto dragão-de-komodo e, a não ser que sua misericórdia fosse maior que a revolta sentida, ela ia ser devorada, então preferiu se compadecer e perdoar o garoto, afinal, pelo estado dele devia estar completamente perdido [Matheus 5.42-46].

Entretanto, as palavras de Elis, reverberando em sua mente, a fizeram decidir por não fazer coisa nenhuma de doação, ela lhe havia lembrado ter essa opção, então a usaria pra salvar o filho – disposta a não desistir de Cadu, resolveu aumentar os cuidados, nem que pra isso precisasse mudar pro hospital.

Assim, Lourdes começou a ficar um número maior de horas na UTI, como consequência, acabou por abandonar a própria casa, ou melhor, cuidando dela tanto como do marido, pois passou a viver integralmente em função do filho – acreditando que essa dedicação o faria se recuperar logo.

A despeito de toda entrega, o afastamento do marido, a fuga do sono de seus olhos – os deixando com um destacado contorno de desgaste, conferindo-lhe um aspecto mais sofrido que dos internos da UTI – fez o cansaço pesar.

Ainda assim foi resistindo, até ficar exaurida – infelizmente, nosso corpo não aguenta tanto quanto nosso espírito está disposto a fazer. Embora, possuísse um ardente desejo de continuar, seu frágil corpo dava sinais de decadência [Mateus 26.41] por estar funcionando acima do limite.

Uma solidão, de medidas desproporcionais, preencheu todo o espaço físico disponível no quarto 705 e Lourdes se viu completamente abandonada no universo [Mateus 27.46].

Atirando-se na poltrona, pegou a mão de Cadu e começou a falar sobre a aflição, desgaste e a amargura dos últimos dias.

— A mãe não se arrepende de nada e faria tudo novamente, mas está tão difícil, Cadu. – O rosto pendia enquanto se confessava.

Parte do peso era desgaste físico, a outra se dava pela pressão, advinda de quem dizia não valer a pena insistir numa causa perdida, pra se conformar e parar por estar ultrapassado os limites da sanidade – o amor é um pouco louco, pois não busca sentido na lógica, mas em sua inconsequente entrega [João 3.16].

Nem todos julgamentos eram ditos diretamente, alguns não passavam de sussurros ouvidos pelas ruas ou adentrando pelas brechas do quarto 705 e isso só a tornou mais persistente nos cuidados.

“Infelizmente, nosso corpo não aguenta tanto quanto nosso espírito está disposto a fazer.”

Mesmo carregando um fardo pesado demais pra levar sozinha, preferiu continuar assim, não achava certo dividi-lo com ninguém mais, nem mesmo o esposo, afinal, aquilo era inteiramente responsabilidade sua!

Diante disso ela se cobrava cada vez mais, mesmo sem Marcos jamais ter reclamado pelo abandonado, antes era sempre tão compreensivo. Ela se sentiu falhando, pois, mesmo com toda paciência e confiança depositadas em si, o filho não estava melhor, ainda assim, não o podia abandonar – não quando ele mais precisava – e isso trazia um peso esmagador sobre a alma.

— Como gostaria que isso terminasse, Cadu! – Ela soluçou, só aí se deu conta que chorava. – Mamãe não sabe até quando vai aguentar… – Antes de poder continuar, um desespero tal lhe furtou as palavras.

Ao erguer os olhos marejados, o monitor multiparâmetro registrava fracas batidas cardíacas que foram reduzindo até o gráfico, de linhas ascendentes e descendentes, se converter numa reta contínua.

— Filho!? – Ela levantou assustada.

Rapidamente encostou o ouvido no peito de Cadu, onde tantas vezes auscultou em busca de chiado, antes todo espaço ali era do tamanho de sua mão, mas agora bem maior – com músculos desenvolvidos a ponto de parecer esculpidos – a situação dele era mais crítica e expunha uma fragilidade nunca alcançada na infância. Porém, deu pra notar o movimento de vida soprando ali.

Então, os enfermeiros – tendo recebido o aviso de parada cardíaca – adentraram o quarto e ela precisou sair pra ser realizado o protocolo de ressuscitação.

Acompanhada, ela se dirigiu pra porta, sem noção se aquilo era mesmo real ou estava tendo seu pior pesadelo, ainda assim seguiu obediente, até olhar pra trás, daí voltou, correndo em direção ao filho, mas antes de se agarrar a ele, foi tomada pelos braços e arrastada pra longe dali.

A medida, meio bruta, se mostrou necessária, pois restava pouco tempo pra ser realizado o processo de reanimação.

— Dona Lourdes, a gente precisa fazer isso agora ou podemos perder o Cadu de vez. – Dolores tentou apelar, utilizando um argumento logicamente emocional, mas pelo olhar assustado e toda agitação, soube que ela não agia racionalmente.

Desesperada, Lourdes começou a berrar pra lhe soltar e resistiu tanto que precisou de três enfermeiros pra ser retirada, ainda assim se debatia violentamente, tentando escapar, a custa de ficar com os baços roxos.

— Cadu, não abandona a mamãe, me perdoa! – Com o coração disparado, ela gritou, assim que conseguiu se desvencilhar. Talvez o volume da voz fosse suficiente pra ser ouvido em outra dimensão e o impedisse de partir, mas já era tarde demais, os aparelhos estavam sendo desligados, mas antes de poder fazer algo pra salvá-lo a visão distorceu, o corpo ficou mole e, sem qualquer controle sobre si, foi colocada numa cadeira de rodas.

O ambiente ficou mais escuro e a iluminação artificial adquiriu um tom amarelado de doença, bruxuleante, além de instável, dando várias piscadas, foi aí que ela presenciou um verdadeiro terror.

Feito bezerro recém imolado, Cadu foi levado numa maca com rodinhas, por pessoas usando uma batina completamente fechada, luvas e botas negras – tudo confeccionado com couro de bode – e o rosto coberto por crânio de boi. Quando passaram por Lourdes, a mão do garoto escorregou pra fora da mortalha negra e o sangue começou a escorrer pelo chão.

Sem ter como deter aquilo, pois o corpo pesado não se movia, ela gritou com todas as forças pra pararem o ritual macabro, mas ninguém se importou, e ela foi obrigada a assistir o filho ser levado pra longe, enquanto um rastro vermelho-enegrecido ficava pra trás.

Badaladas frias e cruéis se fizeram soar, enchendo o ar de terror e da certeza de não haver mais volta. Nisso, alguns seres – também trajados no mesmo estilo aterrador, mas de máscara com nariz grande feito um bico, encimada por óculos escuros de lentes arredondadas, encobrindo um olhar frio a ponto de causar arrepios apenas por olharem na direção de alguém, além de chapéu – chegaram, trazendo consigo o fétido vento da morte, cada um com uma bengala negra na mão.

No peito e nas costas deles, cinco letras estranhas ardiam feito chamas, enquanto sangue escorria por baixo dos óculos. Sentindo uma urgência inquietante, Lourdes se esforçou pra entender o significado das letras, mas as conexões neurais não foram capazes de associar aquilo a qualquer lembrança.

“Doar órgãos é semear oportunidades, seja prolongando o tempo ou proporcionando condições melhores, é se compadecer de quem anseia por vida.”

Após uma varredura completa na mente, ela encontrou um vazio congelante que por pouco não a tomou por inteira, fazendo-se esquecer de si mesma. Nesse instante a atenção se voltou pra um dos seres de nariz de bico a se aproximar na direção dela e isso a deixou desesperada.

“Será que vão me eliminar porque vi tudo?” – As palavras ecoavam pela mente, enquanto a testa estava embebida de suor.

O ser se aproximava a saltos, contudo, sem fazer movimento algum, a cada piscada da luz ele aparecia mais próximo, enchendo o ar com uma respiração carregada de sons ofegantes e intenções cruéis. Lourdes já delirava de tanto medo, febril os olhos reviravam, sem querer registar o que estava pra acontecer.

Felizmente, pra inviolabilidade de sua sanidade, quando a coisa estava perto demais, não foi pra cima dela, antes seguiu pra sua esquerda. Após o corpo retornar do estado de choque que quase a leva a loucura, Lourdes conseguiu virar o pescoço e ver Marcos um pouco mais afastado de si, de costas pra ela.

— Não, querido! Se afasta, essa coisa é má! – Lourdes avisou, embora falasse como bêbada. Ela se quer conseguiu apontar o dedo pra condenar a figura nefasta.

Mesmo com os rogos, ao invés de se afastar, Marcos estendeu a mão e cumprimentou a figura que o parabenizou, depois disso os quatro seres se afastaram, carregando, além das bengalas, maletas negras de onde sangue escorria num fluxo interminável.

Urgia a necessidade de saber quem eram os seres e ela precisava fazer isso antes deles se mandarem, daí o branco da memória cresceu novamente e foi sendo preenchido de escuridão e a visão foi apagando, mas antes da escuridão total, Marcos se virou, exibindo um horrível sorriso que ia até à orelha, então tudo sumiu nas trevas.

“O amor é um pouco louco, pois não busca sentido na lógica, mas em sua inconsequente entrega.”

Uma neblina densa escapou pela brecha inferior da porta, espalhando-se rapidamente pelo chão do quarto, paralisada, Lourdes não podia se mexer, mas sentiu precisar sair o quanto antes daquele estado, pois havia algo ruim na composição da névoa.

Fazendo força pra mover os dedos dos pés e mãos, tentou despertar, mas a fumaça já estava em cima da cama, ao lhe tocar a pele, fez surgir um frio mortal que doeu nos ossos, a faz ter certeza de quem eram os seres.

Avançando sobre si – feito lençol barato que é ótimo no verão, mas que no inverno só permite o frio congelar – a neblina a cobriu, roubando o resto de calor existente em seu corpo, então entrou pelos ouvidos, nariz e boca, numa velocidade incrível. Lourdes só conseguiu acordar após o último rastro de fumaça entrou em si, e despertou puxando o máximo de ar que os pulmões conseguiam reter.

— Não, Marcos, lembrei quem são essas coisas! – Ela gritou o máximo que os pulmões aguentavam.


#proximoepisodio

Despertando de um terrível pesadelo, Lourdes tenta se localizar no meio de toda aquela escuridão, mas despertar pra realidade pode ser ainda mais aterrador e revoltante, principalmente diante do que Marcos lhe confessa.

Algo sinistro parece estar acontecendo no hospital e ninguém, além de Lourdes, se atenta a isso, então ela tenta alertar o marido sobre essa trama nefasta.

Ósculos e amplexos,

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