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Letargo – O dissolver da consciência
Sua existência começava a se desfazer, mas desobedecer à ordem de restrição só lhe trouxe um horror inconcebível
Por Mishael Mendes access_time 11 min. de leitura

Novamente a solidão se estendia pela casa hostil, onde ela vivia dias adormecidos, ali o vazio e a quietude eram tantos que às vezes a capacidade de reproduzir sons desaparecia, não importava o quanto ela se movesse ou fizesse barulho, tudo era absorvido pelas paredes que emudeciam o menor ruído, feito carpete. Em outras vezes o eco de seus passos espalhava pelos cômodos a perder a conta, ampliando a sensação esmagadora de exílio. Afinal, pra que ela precisava de todo aquele espaço, se ninguém nunca a visitava? E mesmo que isso acontecesse, ela não tinha ânimo algum pra sair do próprio aposento.

Com exceção de uma moldura grande coberta por um lençol, não havia nada em seu quarto, onde o tempo sobrava e sem ter o que fazer naquele mundaréu de cômodo, ela se pegava encarando as paredes, de pintura impecável, onde não se via nem mesmo um grão de sujeira. Ainda assim, buscava por manchas ou riscos que formassem alguma figura abstrata, observando cada milímetro sem nada encontrar. Tarefa essa realizada de uma distância segura: já que uma friagem congelante se desprendia da nuance impregnada nas paredes. A falta de cor a se estender pelo quarto, aumentava a seriedade em seu rosto, sempre fechado na procura de algo que não podia ser localizado, impedindo o surgimento de sorrisos.

Mesmo nada sendo achado, seus olhos eram atraídos de volta numa contemplação hipnótica que a mantinha presa até o reflexo da luz intensificar, lhe fazendo as vistas arder. Como não adiantava desviar os olhos, já que tudo passava a irradiar um brilho que lhe perfurava a retina em fragmentos afiados, seus olhos fechavam por impulso. Mas se a ausência de cor não conseguia lhe furtar a visão, cada vez que encarava a pintura, a mente era atravessada e suas memórias boas ou ruins acabavam cegadas, sem que pudessem ser vistas outra vez.

Por mais que tentasse, era difícil não encarar as paredes, sempre limpas e com tintura fresca. Quem as mantinha daquele jeito? Ela nunca via ninguém por ali, ainda assim possuíam um asseio que deixaria o maior maníaco por limpeza em êxtase. Assim, como não havia mais o que fazer naquele minimalismo gritante, ela voltava a encarar as estruturas e cada vez que fazia isso, perdia um pouco mais de si mesma. O fato de sua roupa ser da mesma cor contribuía pra se perder a ponto de esquecer a própria identidade. Tanto mais encarava as paredes, menos se pertencia ou sabia quem era, de onde vinha e o que fazia ali.

Até seu fardo de examinar as estruturas tingidas de solidão se tornar pesado demais pra suportar. Tamanha era a opressão que as horas se arrastavam pelas paredes, num ritmo vagaroso sem deixar nenhuma marca, nem mesmo um filete brilhante e prateado, feito caracol. Com fios invisíveis teciam cada uma de suas memórias arrancadas pela tristeza pegajosa da parede, que ela evitava encostar a todo custo pra não ficar agarrada e acabar desaparecendo de vez. Ainda que a mente não desejasse, seus olhos ficavam voltando a esmiuçar atrás de algo que precisava ser recuperado, uma parte importante de si que não era alcançada nem ali ou mesmo em sua memória; nisso o nível de tensão só fazia aumentar.

Sem condições de continuar suportando tanta ansiedade que a levava a se perder mais, ela seguiu em direção ao único móvel existente ali que vinha ignorando. Embora as memórias estivessem se desfazendo em pó, conforme o peso de um tempo desconhecido caía sobre si, a lembrança de que não devia chegar perto daquilo, permanecia intacta. Ela nunca ousou desobedecer à ordem, apenas a intenção de olhar em sua direção era suficiente pra lhe encher de pavor. 

Porém, agora que lhe restavam poucas partes de si que ainda não haviam sido envolvidas pela inexistência, ela perdeu o medo de forma suficiente pra se aproximar. O que podia haver de tão horripilante ali pra ser aconselhada a manter distância? Conforme mais perto ficava, arrepios pavorosos começaram a estourar pelo corpo, os músculos tremeram, querendo levá-la na direção contrária e os olhos encheram d’água. Afinal, quem a havia lhe ordenado aquilo? De onde partira tal comando de restrição que por tanto tempo impediu sua aproximação?

Moldura perdida
Gaspar Uhas/ Unsplash

O clima seco e poeirento foi sugando todo ar da sala, tornando o espaço sufocante, enquanto ela era envolvida pela ausência de cor num abraço que a esmagava, a tentando arrastar no sentido contrário. Mas sua teimosia foi mais forte e ela conseguiu vencer a força de empuxo, cuja pressão desejava mudar a direção de seu destino. Ainda que a percepção alertasse pra gravidade do erro prestes a ser cometido, com reações contrárias por todo corpo, ela seguiu em direção ao horror iminente.

Quando sua mão alcançou o lençol e ela se preparou pra puxá-lo, soou forte em sua mente “nunca olhe no espelho”, num tom ameaçador que a arrepiou por completo. Ao cair o pano, o objeto brilhante a sua frente não mostrava o reflexo dela, apenas paredes brancas, foi quando uma multidão surgiu, pessoas de todo tipo, raça e tamanho num horror que lhe golpeou a nuca acertando sua consciência.

O bando de olhos esbugalhados refletiam um terror real demais pra ela suportar, trazendo uma percepção sombria: eles estavam vivos! E o pior de tudo é que não eram eles que estavam presos no espelho. Um pavor ao qual nem mesmo sua mente febril poderia conceber, trouxe de volta todas as suas memórias. Como o único museu da Cidade Zinha estava com uma mostra que vinha recebendo críticas variadas por seu teor macabro e até de mal gosto, ela separou um tempo pra verificar pessoalmente se a exposição era mesmo isso tudo.

Conforme trafegou entre as galerias, teve a certeza que tudo não passava de exagero, até se aproximar de uma meio escondida, onde todos os quadros estavam cobertos. Um deles com uma moldura dourada e quase de seu tamanho lhe chamou a atenção, ao puxar o lençol que o cobria, a pintura ali composta de cores nefastas, mostrava uma garota devorada pela brancura, observando um espelho de onde se via rostos impregnados de terror.

De alguma forma ela soube que era ela ali e a realidade infundida na tela foi de um pavor tão tenebroso. Sua mente começou a colapsar, as mãos tremeram e o horror tomou seu corpo que provocou um infarto fulminante, a fazendo cair ali mesmo. Então uma moça bonita, vestindo uma capa escura feito a hora mais obscura da noite, lhe estendeu a mão e a ajudou a levantar, a levando pra um quarto onde lhe disse pra nunca se aproximar do espelho.

— No dia em que você fizer isso jamais poderá retornar a vida. – O alerta recebido foi assustador suficiente pra fazê-la temer o simples fato de olhar em sua direção, embora a memória fosse apagando, a sensação de evitá-lo permaneceu.

Ela só precisava esperar até todas as suas memórias apagarem pra voltar num novo corpo, mas agora suas chances já eram.

— Por isso, uma vez que se deixa a terra dos viventes, mortal nenhum consegue retornar pra lá. – A voz da mulher soou em sua mente.

— NÃAAAAO! – Ela berrou seu desespero batendo no espelho que quebrou na frente dos espectadores a desacreditar haver mesmo um fantasma preso ali.


#papolivre

Enquanto tentava recuperar um insight pra uma história, comecei a repassar mentalmente o episódio de “O Clube da Meia-noite” (“The Midnight Club”, de 2022), pra encontrar a palavra ou o momento-chave que a concebeu, foi quando o conceito dessa história surgiu, seguida da ordem: “Nunca olhe no espelho!”. Enquanto a rascunhava, a impressão que me impregnou na mente foi a sensação agoniante causada por se estar cercado de uma cor que ao invés de traduzir pureza sufoca, até se tornar claustrofóbica – levando a um esquecimento que faz a personagem ser roubada de si mesma, assim como acontece com o Alzheimer.

Assim, preferi focar na ausência como forma de causar pavor, ao invés de figuras deformadas e assustadoras, ocultando algo por baixo de uma cor doentia, como acontece em “O papel de parede amarelo” (“The Yellow Wallpaper”, de 1892) – considerado um dos primeiros textos feministas disponíveis – reunido em “O papel de parede amarelo e outros contos” (“The Yellow Wallpaper and Other Stories“, de 2006), onde o terror psicológico de Charlotte Perkins Gilman, mostra o enlouquecimento da personagem principal após ser mantida em prisão domiciliar pelo marido ao demonstrar sinal de depressão e ansiedade. História essa surgida após a própria Charlotte sofrer um severo surto de depressão pós-parto.

Apesar de não parecer, o uso excessivo de branco pode ser prejudicial, onde quartos pintados apenas nessa cor projetam sensação de vazio e solidão, inclusive tornando o ambiente frio, monótono e sem felicidade. Essa cor – ou a ausência de pigmentação – costuma ser considerada triste em culturas orientais – estando relacionada a morte na Índia e na China. Inclusive, durante a Idade Média, o branco era a cor oficial do luto pra realeza europeia, costume esse que perdurou até fins do século XVI, conforme registrou Câmara Cascudo, em “Contos tradicionais do Brasil“, de 1967. Dessa forma, a cor permaneceu associada a tristeza e aos mortos que eram envolvidos em lenços ou bandagens brancas, por isso fantasmas e aparições costumam ser retratadas de branco ou envolvidas por um lençol nessa cor.

Na mitologia grega, existia o Lete, um rio localizado no mundo dos mortos, o Hades, cujas águas se fossem bebidas ou mesmo tocadas provocavam o completo esquecimento, já em Campos Elísios, o paraíso, sua ingestão servia pra fazer as pessoas esquecerem lentamente suas vidas passadas até poderem reencarnar. Seu nome vem do grego lếthê, “esquecimento, ocultação”. Na “Divina Comédia“, (“La Divina Commedia“, escrito entre 1304-1321, originalmente Comedìa até ser renomeado por Giovanni Boccaccio), de Dante Alighieri, o Lete serve pra apagar os pecados cometidos, enquanto no Purgatório, até os espíritos serem purificados e poder entrar no Céu. Nesse conto o Lete é representado pelo quarto branco, cuja exposição vai deletando as memórias até que se possa retornar, porém, isso não é possível porque mesmo mortos, seres humanos tendem a falhar, seja por curiosidade ou outros vícios atrelados a nossa existência decaída. Espero que você tenha gostado desse conto, deixe suas impressões nos comentários e lembre de voltar semana que vem que ainda vão sair alguns contos assustadores do universo #calafrio nas próximas semanas – e cuidado: nunca olhe no espelho, principalmente de madrugada!

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