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Estio – Parente não é gente (Episódio 02)
Há males que vêm pro bem, mas existem os que só servem pra causar contenda e confusão, a esses chamamos parentes
Por Mishael Mendes access_time 18 min. de leitura
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Uma crise de criatividade força o maior autor de histórias de terror a se voltar às suas raízes, mas ao contrário do que esperava é recebido com o carinho que sabia não merecer. E em meio a sua aventura conduzida pelo saudosismo ele é pego por uma forte tempestade.

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Por mais rápido que Lampejo corresse, as nuvens negras perseguindo os alcançou, desabando sobre cavalo e peão – a poucos metros do destino pretendido – a maior tempestade. As nuvens se desfizeram em abundantes gotas que causaram arrepios até o corpo acostumar à temperatura congelante. Sem temer trovões a bradar no horizonte ou os obstáculos pelo caminho, o corcel corria feito raio entre a mata, numa velocidade que dispensava tocar o solo, ao qual tentava devorar qualquer coisa que ousasse buscar firmeza em si.

— Perê, passa já pra dentro! Que nessa chuva você pega gripe! – Dona Maria berrou ao vê-lo se aproximar. Sem demostrar reação, ele saltou do cavalo, vestindo apenas um calção vermelho, no meio da chuvarada; apesar de crescer, ele continuava desajuizado. Como quando pequeno ele não usava nada além da peça gasta, e vivia fazendo estripulias feito Saci Pererê, acabou recebendo o apelido de Perê; só que o calção que antes ficava folgado agora estava justo. Onde ele teria achado aquela coisa velha…? – Me larga, Perê, seu doido! – Aproveitando a mãe distraída segurando uma toalha, ele deu o bote e a arrastou pra chuva.

— Perê! Maria! Que vocês tão fazendo aí? Entrem logo! – E algum dos dois deu ouvidos? Nem eu!

Sem alternativa, seu Davi foi em busca dos descabeçados e acabou se juntando a brincadeira. Mesmo caindo forte, torrencial, em contato com a pele, o frescor da água massageava, acariciando o corpo enquanto energizava, e ao renovar trazia de volta a infância perdida em cada um, afinal, juventude é um estado no espírito – enquanto falava numa língua que só dava pra sentir sobre uma conexão esquecida. Fazia tanto tempo que eles não se divertiam assim, até bola jogaram, mas a partida foi interrompida quando Perê espirrou, os lembrando haverem passado do tempo pra toda aquela diversão imprudente.

Aproveitando o clima, Dona Maria fez bolinho de chuva, algo que Perê nem sabia mais o gosto. Acostumado a coisas mais requintadas e gororobas fitness, o paladar esqueceu total o gostinho de infância que o bolo lambuzado de óleo, açúcar e canela contém.

Sem demostrar que teria fim, a chuva continuou caindo noite adentro, e o clima que começou divertido ficou enfadonho. O dia surgiu encharcado e sem eletricidade, envolto por uma escuridão atravessada por raios e relâmpagos a evocar figuras que despertavam sensações perturbadoras, enquanto trovões bradavam, lamentando os horrores prestes a desabar sobre a choupana perdida em meio ao matagal. Apesar do abrigo poupar da tempestade, não havia pra onde ir, lá fora a violência da chuva transformara o chão em areia movediça, prestes a apanhar quem se atrevesse a sair no tempo, onde seria surrado pelo temporal. Com o céu a se desfazer, a atmosfera foi fechando, ficando claustrofóbica, fazendo a tensão aumentar, enquanto o medo tomava a mente, nem assim era possível se preparar pro que estava prestes a ocorrer na casinha de sapé, onde mais uma vez a morte reinaria soberana…

— DROGA! Essa chuva toda tá fazendo a inspiração fluir real, mas a de terror. Desse jeito o conto de Natal não sai nem que a vaca tussa!

— COF! COF! – Perê olhou pra janela com a sobrancelha levantada.

— Mimosa, você tossiu? – Sua testa franziu.

— MUUU!

A vaca foi pro brejo

— Agora que a vaca foi pro brejo de vez!

— COF! COF! Trouxe um chazinho de hortelã e bolinhos de chuva pra você Perê!

— Oh! Precisava não, dona Maria! Tô nem merecendo porque ainda não consegui escrever o conto.

— Então coma que você consegue! COF! COF!

— E essa tosse aí, dona Maria? Tô gostando do som disso não! Devia ter suspeitado que essa chuva não ia fazer bem pra senhora.

— Que chuva o quê, Perê! Minha saúde é de ferro inoxidável, não é uma aguinha dessas que me derruba! É que o bolinho que comi desceu pelo lugar errado.

— Ufa! Menos pior!

— E como tá a escrita?

— Vixe, saindo nada! Não sei se é falta de inspiração, a canseira lascada que tô sentindo ou as duas coisas.

— Aproveita pra descansar. Você chegou cedo de viagem, dá pra continuar isso amanhã.

Aceitando o conselho, ele deitou. Bastou fechar os olhos pro cansaço o nocautear e o derrubou com tamanha força que ele só acordou quando a mãe o foi chamar.

— Perê do céu, você tá ardendo em febre! Pelo jeito a chuva de ontem te botou numa queda-de-braço que você perdeu pra gripe.

— Nada! Só tô um pouco cansado. – Apesar da teimosia, a voz de manha dizia estar derrubado mesmo.

— Deixa disso, garoto! E nada de levantar da cama! Vô fazer um chá de mil-folhas pra você.

— Que isso?

— É novalgina natural, vai ajudar a baixar essa febre.

— Precisa não, dona Maria! Qualquer coisa VÔ NO MÉDICO. – Ele começou com a voz de manha, mas precisou gritar o final porque a mãe saiu e o deixou falando sozinho.

— Tó aqui!  – A pressa com que dona Maria retornou espantou, mas talvez os olhos o estivessem traindo. – Bebe enquanto tá quentinho. – Ele pegou a xícara desconfiado.

— Até que não é tão ruim.

— Isso! Bebe tudinho.

— E essa outra xícara aí na mão da senhora? – Sua sobrancelha levantou.

— Um xarope caseiro que preparei pra você. – O rosto dela se encheu de sorriso.

— Não acabei de tomar mil-folhas de chá? – A confusão com o nome atestou o comprometimento da mente pela gripe e causou riso na mãe.

— Você tomou chá de mil-folhas que é bom pra baixar a febre. Esse xarope aqui é pra gripe, ele mata ela na unha.

— Ê-ta! E é bom assim mesmo?

— Se é bom? – A pergunta causou estranhamento em dona Maria. – É ótimo! É tiro e queda, você vai ver. Sempre dava ele quando vocês gripavam.

— Vocês? Ué, dona Maria, tu tem mais filho que não tô sabendo?

— Não que eu saiba! Minha memória deu pane. – Seu sorriso saiu sem jeito.

— Bom! De qualquer jeito, não lembro disso, mas se a senhora tá dizendo que é bom assim, então tá. – Mal ele fechou a boca e a mãe lhe deu uma colher de sopa bem servida.

— Táaaaaa pooooo… xaa! – Com os olhos da mãe sobre si, ele segurou o palavrão na ponta da língua. – Como esqueci um troço tão ruim assim? – Bastou o xarope encostar na língua pra ele lembrar existir algo pior que dipirona, como era peralta acabou tomando muito disso na infância. Sua garganta ardia, como se aquilo fosse feito de pimenta. – Não é à toa que chamam isso de xarope. – Sua cara feia fez dona Maria rir.

— Agora tira um cochilo pra você se recuperar. – Ela aconchegou o filho sobre as cobertas e fechou a porta.

Quando Perê acordou novamente, seus olhos se abriram de vagar sem muita vontade de permanecer assim, até ele ver passar das duas: então deu um pulo da cama.

— Como vocês me deixam dormir té uma hora dessas? – Ele ralhou.

— Essa dona ali não deixou eu te chamar! – Seu Davi apontou a esposa, tratando de tirar logo o corpo fora.

— Foi porque… foi porque… você precisava descansar. – A resposta saiu meio embaraçada.

— Mas, dona Maria, preciso logo terminar esse conto.

— Sei disso, mas não adianta forçar quando tudo que o corpo pede é calma. Você tá todo estressadinho aí, mas nem percebeu que tá melhor, né?

— Eu… – Dando-se conta disso, ele parou a argumentação prestes a saltar boca afora e se percebeu sem dor nas articulações, nem mesmo febre ou a garganta arranhando.

Apesar de ruim, o xarope de mel, limão, raspas de limão, gengibre, alho e hortelã era milagroso. O mel sozinho já servia de remédio, ajudando o organismo a eliminar vírus, bactérias e inflamações, mas combinado com outros ingredientes sua ação se tornava mais potente. O limão fortalece o sistema imunológico, já sua casca, além de vitamina C em maior concentração, tem vitaminas que ajudam no rejuvenescimento e auxiliam na digestão, enquanto o gengibre possui ação anti-inflamatória, reduz a irritação na garganta e pulmões, aliviando a tosse seca; já o alho solta o catarro e evita sua produção porque reduz a inflamação pulmonar e fortalece o sistema imune; e a hortelã além de tratar da gripe, ameniza dores no intestino e estômago, evitando enjoo e a formação de gases. Com essa mistura porreta não teve como ele não se recuperar rápido, deixando comprovada a eficácia do remédio de vó – a mãe estava certa: o xarope era mesmo dos bons.

— Por que o pessoal da cidade vive doente, Perê? – A pergunta o deixou reflexivo. – Todo aquele ar poluído enfraquece os pulmões e a saúde, coisa que a gente não tem por aqui. Ademais, tenho na minha hortinha as plantas necessárias pra curar qualquer enfermidade.

Na real o ponto levantado fazia sentido, ainda mais quando combinado com alimentos práticos ultraprocessados que acabam por enfraquecer e contaminar o organismo, somando isso ao estresse da correria insana em busca de hiperprodutividade que rouba o tempo e leva ao sedentarismo, se adoece com facilidade, mas ao invés de buscar remédios naturais as pessoas optam por drogas que ao contrário do que a raiz de seu nome sugere – folha seca, do holandês antigo droog, já que os medicamentos antigos eram à base de vegetais – apenas envenenam seus corpos. Até porque além dos efeitos colaterais, essas soluções industrializadas podem aumentar a proliferação de bactérias e potencializar sua resistência, inclusive a dipirona, analgésico mais utilizado – apesar de não afinar o sangue, que seria a redução de coágulos, úteis pra parar o sangramento quando há algum corte – pode causar problemas sanguíneos. Enquanto os naturais não possuem nenhum aditivo, e o fato de serem preparados em casa reflete o desejo de ficar bom, aumentando sua eficácia.

A xícara ao lado da cabeceira, chamou a atenção de Perê pra sagacidade da sabedoria pop que conhece o jeito de tirar a cura das plantas, como as que dona Maria fazia questão de cultivar, com algumas PANC – plantas alimentícias não convencionais. Sem poder mais esperar, ele deixou as reflexões de lado e a espera pelo tempo bom que custava em aparecer e voltou ao processo de escrita – o prazo apertado exigia pressa. Assim, reiniciou as tentativas, mas quem disse que a coisa fluía pra algo além do terror? Preso num labirinto, era melhor achar a saída logo, porque o Minotauro já estava no encalço dele – e não era o lutador, embora ambos fossem altos e pesados, assim ele não gostaria de enfrentar nenhum dos dois, mesmo numa luta livre, onde tudo não passa de representação e acrobacias, pois com certeza ele sairia arrebentado. Pra entrar no clima, resolveu assistir filme de Natal com os pais o resto do dia, acordou com dona Maria o chamando pra cama, seu Davi sempre caía no sono, dessa vez ele também não aguentou muito, ainda mais com a chuva entoando cantigas sedutoras que lhe pesaram as pálpebras, o impedindo de ficar de olhos abertos.

— Oi, meu amor! Como você tá hoje, coisinha mais linda, da mãe! – Perê acordou com o paparico e quis saber quem merecia receber toda essa atenção de dona Maria. Curiando pela janela foi possível ver que não apenas havia parado de chover, o horizonte estava tomado de tons azuis com manchas aquareladas em tons de pêssego; por mais que tenha esticado o pescoço, não deu pra ver com quem era a conversa.

Andando na ponta dos pés

Saindo no terreiro, andou na ponta dos pés pronto a flagrar a mãe, mas não havia mais ninguém ali, perto o suficiente viu dona Maria conversando com um pé de tomatinho que crescia vigoroso com frutos grandes demais pra receberem o diminutivo. A cena o fez rir, pelo tom pareceu que a conversa era com algum bebê.

— A senhora não existe mesmo, dona Maria! – Ele conseguiu dizer em meio as risadas e um ar de admiração.

— Claro que existo, menino! Deixa de bobagem. Se eu não existisse, conseguia fazer isso?

— Hey, para! Isso dói, dona Maria! – Ele massageou a orelha, observando o tempo aberto de cores revigoradas após a chuva. Agora havia o ambiente ideal que tanto esperou pra relaxar e se concentrar na escrita. – Vô aproveitar pra escrever.

— Espera, menino! Vai nem tomar café?

— Relaxa! Cato uns pão de queijo e tá bom! – Ele correu pela cozinha, depois se trancou no quarto pra que nada pudesse atrapalhar, deixando apenas a janela a exibir uma tela viva de onde sensações cruzavam se combinando numa impressão que lhe roubou os sentidos, lhe estimulando a criatividade.

Respirando o ar puro a entrar sem cerimônia alguma, a inspiração que estava na ponta do dedão se atiçou, espalhou pelo pé e foi subindo, então ele sentou e começou a escrever. As teclas eram pressionadas de forma furiosa sem ele precisar de pausa alguma, agora esse conto saía; foi então que o barulho de uma multidão furiosa invadindo o sítio encheu o ar.

— Ê-ta! Será que fui rastreado e descobriram onde tô? – O pulo que ele deu fez toda a inspiração violenta que precisava ser descarregada com agilidade broxar na mesma hora; que murchou até voltar pra pontinha do dedão do pé, enquanto o coração acelerou e a respiração ficou pesada. Era até possível ouvir uma música de suspense a tomar o ambiente, enquanto o som do tropel de almas sedentas advindas das profundezas de um abismo oculto pelo manto das trevas mais obscuras aumentava, provocando um terror inominável.

— A-mi-ga, cheguei! – Só faltou tocar música de comédia depois desse anúncio, pra evidenciar que a partir dali as coisas seriam o maior desastre.

Aproveitando que dona Maria surgiu na janela, Perê cochichou pra não ser ouvido, querendo saber quem era.

— Ah! São só seus tios! – Apesar da notícia dada como se não fosse nada de mais, pense na decepção que ele ficou por recebê-la à queima-roupa.

— Mas, dona Maria, vim aqui pra ficar isolado porque a zoeira da cidade tava atrapalhando, daí a senhora chama a parentaiada?

— Chamar, chamar, não chamei. Só disse que você tava aqui, como faz tempo que eles não te veem resolveram aparecer. – O sorriso da mãe saiu com tons amarelados. – Agora deixa eu ir receber eles.

Perê revirou os olhos assim que dona Maria lhe deu as costas, afinal, não possuía a mesma empolgação pra receber as visitas indesejadas. Reza o conhecimento pop que “parente não é gente”, apesar de engraçado, o dito pode parecer extremista. Mas só quem tem a “honra” de aturá-los sabe que eles podem ser classificados entre mundiça se você tiver sorte, gentalha que adora uma boa confusão, ou do tipo mais envolvente que se mete em nossa vida – mesmo não arcando com os boletos que a gente paga – sabe a verdade tragicômica que existe nessa frase rimandinha.

Em sua mente restavam algumas lembranças dos parentes, mas essas poucas memórias eram deles criticando algo na casa ou fazendo “sugestões” que nunca seriam solicitadas. Isso até ele soltar uma respostinha malcriada – pelo menos foi o que o espanto nas caras torcidas de alguns fez parecer. A real é que ele já estava cheio disso, nada ali nunca tava perfeito pra eles, e se ele não tinha idade nem tamanho, tinha cacife suficiente pra falar o que precisavam ouvir. Ele só esperava que mesmo isso tendo acontecido há uns bons anos fosse motivo suficiente pra quem ficou azedo sustentasse a raiva e a intriga porque não queria que viessem com negócio de reconciliação, de espírito natalino, amigo secreto, porque com ele isso não ia funcionar de jeito nenhum: Perê não queria papo com ninguém.

Porém, bastou ele aparecer na porta da sala pra ver que a parentada em peso – e de mala e cuia – lhe sorriu fazendo elogios que ele se rendeu, esquecendo de vez toda raiva que jurou manter eterna.

— Oi, meu amor, como você cresceu! Tá tão lindo! – A tia Peruana apertou logo seus bíceps. – Olha só esse corpão! Se a tia ainda fosse solteira, não deixava você escapar.

— Brigado tia, andei malhando! – Ele não conseguiu disfarçar o constrangimento.

— E vocês vieram pra ficar?

— Faz tempo que a gente não passa as festas tudo junto, como você voltou resolvemos aproveitar.

— ÊEEEE! – Perê levantou o braço, comemorando sem a menor empolgação.

— E aí, Perê, meu querido! – O tio Sensação surgiu. – Chegamo fora do horário, mas em boa hora! O que tá cheirando tão bem aí na cozinha? – Ele deu um sorriso malandro, uma piscadinha e como se não tivesse sido percebido, ainda cutucou o sobrinho com o cotovelo.

Logo começaram a levar as bagagens pra dentro, a criançada e os pets corriam pra lá e pra cá, deixando Perê mais perdido que cachorro em dia de mudança e a coisa só tendia a piorar.


#proximoepisodio

Apesar de seu alarmismo pessimista, a sabedoria pop pode não estar tão errada ao dizer: não há nada que esteja ruim que não possa piorar. Nosso garoto vai descobrir isso ao ter que encarar os pivetes dos primos de segundo grau e uma pergunta embaraçosa total.

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura

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