Poesificando: O dia que a gente não queria ter vivido
Norbert Buduczki/ Unsplash

O dia que a gente não queria ter vivido

Sexta foi o dia que a gente não queria viver,
Mas se ele doeu a ponto de cortar a alma
É porque os anteriores tiveram significado.
Quando nasceu, Julinha trouxe tanto amor,
Tanta felicidade e uma constelação de luz.
Sua vinda despertou um nível profundo
De amor que passamos a experimentar;

Seu sorriso sapeca convidava pra brincar,
Sua gargalhada que causava cócegas
Nos fazia feliz e sorrir de ponta a ponta.
Quanto a gente esperou pela sua fala
Pra ouvir seu amor chamar em palavras,
Mas ela preferia berrar, correr ou abraçar.
Sua felicidade era gritada ao nos ver,

Soava nas palmas, luzindo num sorrisão.
Dois anos e dois meses foram suficientes
Pra eternizar a sua pequena existência.
Mesmo sem poder enxergar seu futuro
A queríamos aqui, onde dava pra abraçar
E encher de beijos, mesmo sem ela querer;
Planejando cantos pra ir, histórias pra contar.

Quantos contos rascunhei por ela inspirado,
Pra concluir quando Julinha entendesse.
Ah! Se eu soubesse que não teria tempo…
Apesar de reconhecer: a vida é dom de D-s,
E Ele só nos empresta pra essa existência,
Não é fácil aceitar, menos ainda entender.
Se Julinha era luz, por que não brilhou

Julinha se tornar farol
Kelly A. Mendes/ Arquivo Pessoal

Até se tornar um farol na vida de todos?
Em um mundo que beira a escuridão
Cada dia de sua existência foi claridão;
Uma luz que nos recusamos ver apagar.
A gente se pega a cada momento
Querendo despertar dessa realidade,
Mas como acordar do mundo material,

Onde a dor e a perda são tão presentes,
E estágios de uma existência decadente?
Acreditar em D-s e em sua soberania
Não garante entender 1% de sua vontade;
Ainda assim, o rumo de Julinha se traçou
Por sonhos e sensibilidade, sem sentido,
Que só agora se mostram claridade, aviso.

Se pudesse a gente trocaria com ela, mas
Seu lugar com o Pai já estava reservado
E ficar aqui sem um de minha família
Faria o sentido de tudo se desfazer…
Quanto mais Julinha permanecesse,
Mais difícil seria seguir sem seu brilho.
A confiança dada por D-s não foi pra tê-la

Deus levou Julinha
Mishael Mendes/ Arquivo Pessoal

De volta, mas pra não desmoronarmos,
Quando a separação se fez presente;
O que nos resta é seguir com menos luz.
Ainda que aceitar seja difícil, D-s mostra
Que tudo o que precisamos é Dele,
Porque todo nosso amor por alguém
Não se compara ao seu amor por nós.

Ele nos ama tanto, que veio se entregar
Pra outra vez termos conexão com Ele.
Nos dias nebulosos o que dá pra fazer
É correr pra sombra, nos esconder
No abrigo além do tempo e espaço,
Refúgio e fortaleza presentes em D-s.
As conexões que significam a vida,

Dificultam continuar quando se partem.
O fardo da separação é peso pra quem fica
E vai ser carregado enquanto nossos passos
Levantarem poeira das areias do tempo,
Mas o socorro presente vai sempre estar
A distância de um clamor, de uma oração.
Nessa dimensão decaída tudo é passagem,

Alguns apenas permanecem um pouco mais,
Mas cada lágrima derramada pela distância
De nosso serzinho de luz é contemplada
Por àquele que pode nos reunir outra vez.
Mesmo que os próximos dias da existência
Sejam um pouco mais difíceis de atravessar
Ainda assim D-s trouxe separação por saber

A morte é até logo
Mishael Mendes/ Arquivo Pessoal

Que a morte não é fim, mas um até breve;
Afinal, nada consegue nos separar do amor
Que tomou forma em Jesus, nem a morte.
Assim, estaremos todos juntos novamente,
Dessa vez sem dor e lágrimas, num eterno
Paraíso onde a presença de D-s é constante
E o peso a ser carregado é apenas conexão.


#papolivre

Três de maio de 2024 foi a pior data de nossas vidas, assim me peguei dizendo “hoje foi o dia que a gente não queria ter vivido”, enquanto retornávamos do hospital onde minha mãe aguardava alta depois de uma cirurgia pra remoção do tumor na mama, após um longo processo – conforme relatei aqui – onde lhe demos a notícia. Algumas conversas e reflexões depois, comecei a juntar esses sentimentos em palavras ao desejo que pulsou o dia todo pela notícia de que Julinha retornara. A primeira coisa que brilhou em meu coração quando comecei a escrever esse poema – lido no funeral de nosso bebê – enquanto desejava eliminar aquele dia de nossa existência foi: se ele doeu, é porque todos os anteriores foram significativos.

Ainda não consigo aceitar direito o que houve, não por falta de fé, mas por ser difícil continuar sem Julinha; tanto que nessa sexta, que completa uma semana de sua partida – enquanto editava esse poema –passei o dia com uma dor no peito que me deixou mais devagar, sem ânimo e fome, embora insisti em trampar; graças à D-s não era nada sério e a medicação ajudou a reduzir a dor, embora ela ainda esteja aqui, misturada a estranheza da realidade que faz disparar a ansiedade. Foi nem um pouco fácil a tarefa de edição, pois o fardo da distância, potencializado pelas lembranças de sua luz, dificultaram o processo.

Assimilar o que houve é complicado, tudo aconteceu rápido demais. No domingo à noite, Julinha estava meio caidinha, na segunda passou o dia com moleza, não comeu e chorou bastante, então foi internada na terça com pneumonia. Na quarta descobriram que ela estava com água no pulmão, mas ela ficou melhor após a drenagem até quinta a noite, quando as enfermeiras – sem supervisão médica – fizeram a retirada do resto do líquido sem aplicar remédio pra dor; embora minha sobrinha estivesse gritando, o que fez sua saturação cair, e mesmo a Kelly, sua mãe, avisando elas continuaram dizendo que era o melhor a ser feito, ainda que não a tivessem oxigenado.

Independentemente de ter ocorrido negligência – algo que a perícia irá dizer – e da bactéria ter sido muito agressiva, sabemos que a partida de Julinha foi a vontade de D-s. Algo que se manifestou como prenúncio através de um sonho pra Quezia, minha outra irmã, sensibilidade pra mim, pra Kelly e nossa mãe, e de uma visão contemplada pela assistente social que presenciou tudo. Assim, após quatro paradas cardíacas, muita luta por parte de Julinha e da equipe médica, nosso pequeno ser de luz foi recebido pelo Pai [Eclesiastes 12.7].

Enquanto durou sua existência, Julinha foi luz que era celebrada – como no poema de seu primeiro aniversário. Tanta inspiração nossa pequena me trouxe, mas deixei pra concluir os escritos quando ela tivesse mais entendimento, sem saber que esse momento nunca ia chegar. Algo que pesou após eu ter lido esse poema na cerimônia da Julinha é o quanto preferia estar falando de sua vida, não da falta que ela deixou. Agora, o que nos resta é seguir, enquanto cada dia torna mais evidente sua falta, uma ausência que a gente não quer aceitar, porque era tão bom tê-la aqui com a gente.

O peso da perda é abismo que nos engole sem a gente entender que está sendo devorado. Isso acontece porque a quebra de uma conexão traz peso e dor grande demais pra se carregar – conforme aborda o artigo “Separação não é o mesmo que distância“. É incrível quanta saudade um toquinho de gente pode deixar: um vazio maior que ela ficou em nós. A separação pesa tanto que é capaz de dilacerar a alma, por isso não precisamos carregar esse fardo sozinhos [João 14.16]. Jesus nos convida a trocar nosso peso por uma carga suave que torna nossa existência mais leve [Mateus 11.28-30], além de podermos lançar sobre D-s aquilo que incomoda [1 Pedro 5.7] e apenas esperar, pois uma canção irá brotar em nossos lábios [Salmos 42.11].

Se confiarmos em D-s, podemos encarar a morte como um até breve, na esperança de rever nossos queridos [1 Tessalonicenses 4.13-14], assim podemos encontrar força nos dias maus [Isaías 40.29-31] e um lugar pra se esconder e obter conforto [Salmo 91.1-2]. Essa é a razão pela qual os pais de Julinha, Kelly e Bruno, conseguem consolar as pessoas, não é por ainda estarem anestesiados sem entender o que houve de fato, mas por colocarem sua confiança em D-s, Ele tem cuidado deles de uma maneira toda especial a ponto de conseguirem prosseguir em paz mesmo com uma perda de proporção imensa.

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura
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