Conto de terror moderno

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Custódia é uma cidadezinha localizada no sertão de Pernambuco, afastada do centro do estado é cercada por várias serras e possui uma vegetação de porte médio a pequeno. Exatamente num dos pontos mais distantes de qualquer sinal de povoação – a cidade mais próxima ficava a mais de dez quilômetros de distância – havia um lugar esquecido por todos, embora fosse passagem obrigatória pra alguns que preferiam nem ir por ali, fosse pela distância ou por motivos bem mais fortes…

Esse lugar era cortado por uma estrada de barro batido onde, uma vez por ano – no exato dia em que a prefeitura se lembrava – um trator era enviado pra fazer mais uma vez o nivelamento.

Como a estrada ficava entre dois serrotes, distante poucos metros um do outro, ela começava reta, daí ia subindo numa ladeira engrime que, apesar de não ser tão alta, permitia uma visão ampla do que havia de cada lado, aí conforme se seguia em frente a ladeira descia, até a estrada se aprumar de novo.

Pela capoeira de ambos os lados, composta por jurema, catingueira, pal de ferro, marmeleiro, angico, baraúna e aroeira, durante o dia a região era um calorão nervoso que deixava qualquer um molhado de suor enquanto arrastava os pés pelo barro, mas o que chamava mesmo a atenção era algo que havia no serrote esquerdo. Na parte mais alta, sobre algumas pedras grandes, toscamente sobrepostas, podia ser vista uma maior, deitada sobre elas, formando um imenso banco.

E se de dia ali parecia deserto, piorou a noite, como a eletricidade ainda não havia chegado naqueles lados, o breu era total, ainda mais nos dias de lua nova, o caminho praticamente se fundia a escuridão quase palpável. Poucos eram os cabra-macho a se aventurar por aquelas bandas, isso quando tinha lua, pois além da iluminação escassa, um vento gelado saía cantando pelos matos, através das serras, gerando um clima assustador.

Após escurecer, a única forma de passar por ali era de grupo, sozinho não tinha cristão que se aventurasse por aquelas bandas, quem tinha juízo ficava em casa ou pedia estadia no ribeiro mais próximo. Até porque, depois da meia-noite, quem se atrevia a dar as caras por lá grande era o arrependimento.

O pavor mesmo nem vinha de ter que enfrentar o escuro, mas do que podia ser encontrado ali ou, pior, do que podia te encontrar por lá. Tudo começava com um vento gelado, daí se ouvia um barulho de alguém caminhando apressado entre as folhagens, enquanto isso o vento assoviava uma cantiga medonha, até o farfalhar estar perto demais, daí não tinha quem não arrepiasse dos pés a cabeça, os pelos ficavam tudinho em pé.

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Quando isso acontecia, só havia uma certeza, bastava olhar pro serro da esquerda que lá estava ele, exatamente no ponto mais alto, em cima do banco de pedras, o bode preto.

— Peraí, que história mais errada! – Ele interrompeu.
— Como assim, filhote?
— Tanto medo só por causa de um bode? – Ele ergueu a sobrancelha.
— Mas era um bode preto. – A mãe esclareceu.
— Que preconceito! – Ele ficou chocado.
— Por quê?
— Esse povo se assustar porque o bode era preto.
— Mas dava medo. – A mãe explicou.
— Bando de racistas!
— É que o bode aparecia do nada.
— O povo que passava distraído e não via ele subir. – Ele explicou. – E qual o problema do bode aparecer, ele não podia nem dar um rolê de boas?
— É que não tinha bode por ali.
— Deve ser por que ele preferia sair só a noite.
— Não, filhote, não existia bode nenhum naquela região.
— Vai saber? Com um bando de gente preconceituosa ele devia ficar escondido e sair só de noite. Eu ia fazer isso se fosse ele!


— Não dava pra se esconder por lá, a vegetação era baixa.
— E como a senhora tem certeza que o bode aparecia, já viu ele alguma vez?
— Nunca, graças à D-s! – Ela se arrepiou.
— E qual a fonte dessa história? No Google não achei nada. – Ele mostrou o celular.
— Os antigos que diziam.
— Antigos quem? Qual os nome, de onde são?
— Ah! Os primeiros moradores de Custódia.
— A mãe, pára, a senhora pelo menos conhece alguém que viu ele?
— Não, mas todo mundo de lá conhece a história.
— E se for só fake news? Vai que as pessoas inventaram isso pra difamar o coitado do bichinho.
— É não, o bicho era coisa ruim mesmo! – Ela insistiu. – Até hoje tem várias marcas de mãos, em volta das pedras, que são das vítimas do bode.


— Sério mesmo? – Ele ficou pensativo.
— Mais sério não podia ser! As marcas tão tudo lá.
— Só não entendi uma coisa.
— O que, filhote?
— Se todo mundo que viu o bode morreu, como foi que a história alastrou?
— Porque… porque… uma vez o bode apareceu pra dar uma mensagem! – Ela conseguiu dizer com certa dificuldade.
— Sério, que mensagem foi essa? – Ele estava todo desconfiado.
— Que ele aparecia e atacava quem passasse ali depois da meia noite.
— Mas qual o sentido dele avisar?
— Pra ninguém passar ali tão tarde.
— Sim, mas se ele pegava quem passava, pra que avisar? Aí ninguém ia passar mais.
— Pois ele avisou pra meter medo.
— Tendeu! Pra mostrar que era o bichão?
— Isso aí!
— E como ele mandou essa mensagem se atacava quem aparecia?
— Ele mandou um SMS. – Ela disse seriamente.

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— Por acaso já existia celular naquele tempo? – Ele levantou a sobrancelha.
— Opa, espera, foi por sinal de fumaça. – A mãe se corrigiu segurando uma risada. – Você faz tanta pergunta que me confunde.
— Mãe, nada a ver isso aí, cê acabou de inventar! – Não aguentando mais, ela caiu na risada.
— Mas é tudo verdade. – Ela balançou a cabeça, num tom sério.
— É nada, tanto que cê inventou essa de mensagem! – Ele estava todo incrédulo.
— Oras, isso é tão verdade, verdadeira, que o nome do lugar onde o bicho aparecia é Serrote do Bode.
— Isso não diz muito, sabe o que acho?
— Não, diga! – A mãe ficou curiosa.
— Esse bode era da resistência e apareceu nessa pedra pra denunciar os horrores do preconceito, daí quando os racistas viram ele não gostaram nada, então pegaram o bode, mataram o bicho pra fazer buchada e limparam as mãos nas pedras, as únicas provas do massacre, por isso deram o nome pro lugar de Serrote do Bode, igual fizeram com Tiradentes, hoje tem até cidade com o nome dele. Essa história aí foi só pra abafar um crime, daí de tanto repetir aconteceu igual o causo da “manga com leite” que, de tanto os fazendeiros falar, pros escravos que roubavam leite, que matava, que virou “verdade”. – Ele destacou com os dedos. – E fim de história. – Concluiu todo sabido e deu as cosas pra sair.


— Onde você vai?
— Vô assistir minhas séries que ganho mais. Tem uma bem assustadora lá, quer vê?
— Não obrigada!
— Ok! – Tendo dito isso ele subiu pro quarto.
— Nossa, não se fazem mais crianças como antigamente! No meu tempo era só começar a contar uma história de terror que a gente arrepiava todinha, agora eles vem com um monte de questionamento, cheio de ideologias que matam toda graça. Essas crianças tão espertas demais! – Ela pegou o iPad. – Deixa eu fazer meu bolo que eu ganho mais e… – Filhoooo, vem cá!
— Que foi mãe? – Ele gritou da escada.
— Arruma o iPad da mamãe, ele não tá funcionando direito. – Ela berrou.
— De novo, mãe? – Ele desceu. – Que foi agora?
— Esse pokémon aí não funciona…
— O Chrome? – Ele corrigiu
— Isso mesmo!

— É só atualizar, mãe… ué, foi nada… ah, também tá sem conexão. – Ele ligou o interruptor e a lâmpada acendeu. – Mas tem luz! – E olhou novamente o iPad. – O estranho é que tá sem conexão móvel também, meu celular tá a mesma coisa. – Ele disse após consultá-lo.
— Filhote, vem ver o jornal. – A mãe chamou da sala.
Quando ele entrou, chegou a tempo de ouvir o âncora noticiar:
— Um submarino acabou de colidir com uma das vértebras mais importantes da internet. O acidente, que causou o rompimento de um cabo ultramarino, deixou vários continentes sem conexão e por conta da dificuldade de reparo, especialistas estimam que será necessário algumas semanas até todas as conexões serem restabelecidas.
— Nãaaaaaao! – Ele gritou de desespero. Ao se imaginar tanto tempo off-line, algo gelado atravessou a coluna, arrepiando todos os pelos.

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#freetalk

Os tempos mudam, altera-se o conhecimento e os medos mudam, mas apenas de cara e formato como aparecem pra assustar. Muito do que era desconhecido de nossos pais e avós possuem explicações bem claras atualmente, mas se pra gente hoje os medos antigos não passem de algo vazio e até sem sentido racional a causa é devida a formação diferente.

A ideia da crônica surgiu numa das conversas com mamãe. Ela me contava sobre o Serrote do Bode, mas conforme foi falando, meus questionamentos sobre o que não estava certo, pela ótica de hoje, foram tão naturais que comecei a imaginar o quanto seria legal falar disso.

Nossa mente está tão condicionada a questionar e comprovar as coisas ou tomar cuidado com certas expressões pra não ofender que a gente interage dentro dessas regras sem nem se dar conta disso. Os tempos mudam, o entendimento também, mas daí a gente percebe que não é assim tão diferentes de nossos pais – apesar da genet julgá-los, eles também são como a gente ou será que a gente que é como eles? “O que você vai ser, quando você crescer?”, já cantava Renato Russo.

Medo morre ou não? Que nada, ele sempre surge com aparências diferentes e se aquilo que pro outro arrepia, pra você é algo bobo, imagine o quanto o que lhe assusta também pode parecer pra ele?

Enquanto escrevia, lembrei-me de um conto dos Grimms que assiste várias vezes no “Teatro dos Contos de Fadas”, “A história do Garoto que não sabia o que era o medo” – se ainda não conhece, vale a leitura!

Ósculos e amplexes,

mishael mendes sign, assinatura