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Calefrio – Conto de terror moderno
Uma mãe resolve compartilhar uma das histórias que mais a assustava quando criança, mas a reação do filho é totalmente inesperada.
Por Mishael Mendes access_time 11 min. de leitura

Custódia é uma cidadezinha localizada no sertão de Pernambuco. Afastada do centro do estado é cercada por várias serras e possui uma vegetação de médio a pequeno porte.

Num dos pontos mais distantes de qualquer sinal de povoação – a cidade mais próxima ficava a mais de dez quilômetros de distância – havia um lugar esquecido por todos. Embora fosse passagem obrigatória, quem por ali passava preferia evitá-lo, fosse pela distância ou por motivos mais fortes…

Cortado por uma estrada de barro batido, que uma vez por ano era nivelada por trator – no exato dia em que a prefeitura se lembrava do caminho – o lugar era pouco convidativo.

A estrada ficava entre dois serrotes, distante poucos metros um do outro, começando reta, ia ficando íngreme à medida que se caminhava. Apesar de não ser alta, permitia uma visão ampla do que havia de cada lado, aí conforme se seguia em frente, a ladeira descia, até a estrada se aprumar de novo.

De ambos os lados, a capoeira composta por jurema, catingueira, pau de ferro, marmeleiro, angico, baraúna e aroeira, permitia, durante o dia, o sol arrancar suor as bicas. Enquanto os pés arrastavam pelo barro, levantando poeira, principalmente na época de seca, que entrava nos olhos quando o vento soprava.

Porém, o que chamava mesmo a atenção não era nem a paisagem pitoresca ou o total abandono, mas algo que havia no serrote esquerdo. Na parte mais alta, sobre algumas pedras grandes, toscamente sobrepostas, podia ser vista uma maior, deitada sobre ambas, formando um imenso banco solitário, em sinal de mau agouro.

O lugar devia ser vazio

Se de dia o lugar era deserto, a noite ficava sombreado por coisas que só de pensar causavam arrepios, difícil era o cabra-macho que se aventurava por aquelas bandas. Como a eletricidade ainda não alcançara aquelas terras, o breu era total.

Em noite de lua nova, o caminho chegava a se fundir a escuridão palpável – isso quando a lua resolvia aparecer. Fora a iluminação escassa, o vento murmurava através das serras, ao passar pelo mato, gerando um clima tenso e assustador – que ganhava de qualquer trilha sonora do melhor filme de terror.

Após escurecer, o jeito mais seguro de passar ali era em grupo, sozinho não tinha cristão que tentasse tal proeza – os mais ajuizados ficavam em casa ou pediam estadia no ribeiro mais próximo. Até porque, grande era o arrependimento de quem se atrevesse meter as caras por lá depois da meia-noite.

O pavor nem se dava tanto pela escuridão – devido à precariedade na distribuição de energia elétrica, os conterrâneos eram acostumados a enfrentá-la. O que botava mesmo os pelos em pé é o que podia surgir das trevas, ocasionando num desagradável encontro que acontecia ali.

Tudo começava com o resfriamento do clima, baixando até os dentes começarem a bater, daí se ouvia o som do caminhar apressado entre a folhagem espessa, enquanto o vento assoviava uma cantiga medonha. O farfalhar continuava a crescer em velocidade até estar perto demais, fazendo qualquer um arrepiar dos pés à cabeça, ficando igual porco-espinho.

Quando isso acontecia, só havia uma certeza, bastava olhar pro serrote da esquerda que lá estava ele, exatamente no ponto mais alto, em cima do banco de pedras, o bode preto.

— Peraí, que história mais errada! – Ele interrompeu.

— Como assim, filhote?

— Tanto medo só por causa de um bode? – Ele ergueu a sobrancelha.

— Mas era um bode preto. – A mãe esclareceu.

— Maior preconceito, isso sim! – Ele ficou chocado.

— Por quê? – Ela se impressionou com a afirmação do garoto.

— O povo se assustar porque o bode era preto.

— Mas dava medo. – A mãe tentou explicar.

— Bando de racista! – Ele se indignou.

— É que o bode aparecia do nada.

— O povo que passava distraído e não via o bichinho subir. – Ele explicou. – E qual o problema do bode aparecer, ele não podia nem dar rolê de boas?

— É que não tinha bode por ali.

— Deve ser porque ele preferia sair à noite.

— Não, filhote, não existia bode nenhum naquela região.

— Vai saber? Com um bando de preconceituoso ele devia ficar escondido, saindo quando era mais seguro. Se fosse eu, fazia a mesma coisa!

— Não dava pra se esconder por lá, a vegetação era baixa.

— E como a senhora tem certeza que o bode aparecia, já viu ele alguma vez?

— Nunca, graças à D-s! – Ela se arrepiou só de pensar na ideia.

— E qual a fonte da história? No Google não achei nada. – Ele mostrou o celular.

— Os antigos que contavam.

— Antigos quem? Trabalho com nomes! De onde é essa gente esquisita?

— Ah! – Ela pensou por um instante. – Os primeiros moradores de Custódia.

— Ah! Mãe, para! A senhora pelo menos conhece alguém que viu ele? – A incredulidade só aumentava.

— Não, mas todo mundo de lá conhece a história.

— E se tudo for só história-da-carochinha? Vai que as pessoas inventaram isso pra difamar o pobre bichinho.

— É não, o bicho era coisa ruim mesmo! – Ela insistiu. – Até hoje tem várias marcas de mãos, em volta das pedras, que são das vítimas do bode.

— Sério isso, mãe? – Ele ficou pensativo.

— Mais sério não podia ser! As marcas estão tudo lá.

— Só não entendi uma coisa.

— O que, filhote? – A mãe ficou curiosa.

— Se todo mundo que viu o bode morreu, como foi que a história alastrou?

— Porquê… porquê… uma vez o bode apareceu pra dar mensagem! – Ela conseguiu dizer com certa dificuldade.

— Mesmo!? Que mensagem foi essa? – Ele estava todo desconfiado.

— Que ele aparecia e atacava quem passava ali depois da meia noite.

— Mas qual o sentido de avisar? – O garoto ficou confuso.

— Pra ninguém passar tão tarde, ali. – Rapidamente, ela esclareceu.

— Sim, mas se ele pegava quem passava, pra que avisar? Aí, ninguém ia passar mais.

— Oras! Ele avisou pra meter o medo.

— Tendeu! Pra mostrar que era o bichão?

— Isso aí! – A mãe concordou, convicta que ele entendera o recado.

— E… como ele mandou mensagem se atacava quem aparecia? – O filho insistiu.

— Foi por torpedo. – Ela disse seriamente.

— Por acaso já existia celular naquele tempo? – Ele levantou a sobrancelha.

— Opa! Espera… foi por sinal de fumaça. – A mãe se corrigiu segurando a risada. – Filhote, você faz tanta pergunta que me confunde! – Ela suspirou, enquanto confessava.

— Mãe, nada a ver isso aí, cê acabou de inventar! – Não aguentando mais, ela caiu no riso.

— Estou rindo, mas é tudo verdade. – Ela balançou a cabeça, num tom sério.

— É nada, tanto que cê inventou essa da mensagem! – Mais incrédulo ele não podia estar.

— Mas é verdade! E tão verdadeira é que o lugar onde, o bicho do capiroto aparecia, se chama Serrote do Bode.

— Isso não diz muito, mas, enfim… sabe o que acho?

— Não, diga! – A mãe ficou curiosa.

Bode revoltado

— Esse bode era da resistência e apareceu na pedra pra denunciar os horrores do preconceito, daí quando os racistas viram ele, não gostaram nada, pegaram o bode e mataram o bichinho pra fazer buchada. Daí, limparam as mãos nas pedras, as únicas provas do massacre, depois deram o nome pro lugar de Serrote do Bode, igual Tiradentes, hoje tem até cidade com o nome dele. A história surgiu pra abafar o crime e, como o causo da “manga com leite” que, de tanto os fazendeiros repetirem que matava, os escravos pararam de roubar leite e a fake news virou “verdade”. – Ele destacou com os dedos. – E fim de história. – Concluiu todo sabido e deu as cosas pra sair.

— Onde você vai? – A mãe questionou, levantando a sobrancelha.

— Assistir série que ganho mais. Tem uma bem assustadora lá, bora ver?

— Não, obrigada! – A mãe agradeceu, declinando o convite, ela não gostava nem um pouco de séries de terror.

— Ok! – Tendo dito isso ele subiu pro quarto.

— Nossa, não se fazem mais crianças como antigamente! No meu tempo era só começar a contar história de terror que a gente arrepiava todinha, já essa geração vem com um monte de questionamento, cheia de ideologia e mata toda graça. Essas crianças estão espertas demais!

Pegando o iPad, ela resolveu fazer um bolo cremoso de cenoura com cobertura de chocolate, pois ganharia mais encontrando uma receita gostosa do que tentar assustar um garoto que não se impressionava. Antes, acabava desfazendo toda graça que dava medo, mas a tarefa não demorou muito e logo ela berrou pro filho vir na cozinha.

— Que foi mãe? – Ele gritou da escada.

— Arruma o iPad da mamãe, ele não tá funcionando direito. – Ela berrou.

— De novo, mãe? – Ele desceu. – Que foi agora?

— Esse pokémon aí não funciona…

— O Chrome? – Ele corrigiu

— Isso mesmo!

— É só atualizar, mãe… ué, foi nada… ah, tá sem conexão! – Ele ligou o interruptor e a lâmpada acendeu. – Mas tem luz! – E olhou novamente o iPad. – O estranho é que tá sem conexão móvel também, meu celular tá a mesma coisa. – Ele disse após consultar o dispositivo.

— Filhote, vem ver o jornal. – A mãe chamou da sala.

Quando ele entrou, chegou a tempo de ouvir o âncora noticiar.

— Um submarino acabou de colidir com uma das vértebras mais importantes da internet. O acidente causou o rompimento de um cabo ultramarino, deixando vários continentes sem conexão. Devido à dificuldade no reparo, especialistas estimam que serão necessárias algumas semanas até todas as conexões serem restabelecidas.

— Nãaaaaaao! – Ele gritou, desesperado. Ao se imaginar tanto tempo off-line, algo gelado lhe atravessou a espinha, botando todos os pelos em pé.


#papolivre

Os tempos mudam, altera-se o conhecimento e os medos se transformam, mas trocando apenas de cara e a forma que se apresentam pra assustar. Muito do que nossos pais e avós desconheciam, já possui explicação clara, mas se pra gente os antigos medos não passem de algo vazio, destituído de sentido, é porque tivemos uma formação diferente.

A ideia da crônica surgiu numa das conversas com mamãe, quando me contava sobre o Serrote do Bode. Conforme ela falava, meus questionamentos sobre o que não estava certo – pela ótica atual – foram tão naturais que comecei a imaginar o quanto seria legal falar disso, numa história.

Nossa mente anda tão condicionada em questionar e comprovar coisas – ou atentar a certas expressões pra não ofender – que a gente acaba interagindo conforme essas regras, sem nem se dar conta disso. Os tempos mudam, o entendimento também, mas daí a gente percebe que não é tão diferente de nossos pais – apesar de os julgarmos, eles também são como nós ou será que a gente que é como eles? “O que você vai ser, quando você crescer?”, já cantava Renato Russo.

Medo morre ou não? Que nada, ele sempre surge com aparência diferente! E, se aquilo que pro outro é assustador, pra você é algo bobo, imagine como seu medo deve parecer pra ele.

Ao escrever essa nota, lembrei do conto dos Grimms, assistido várias vezes no Teatro dos Contos de Fadas, “A história do Garoto que não sabia o que era o medo” – se ainda não conhece, vale a leitura!

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura
Mishael Mendes