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Interrompido – Peso imobilizante (Episódio 13)
Após uma espera interminável, vem uma notícia inesperada, mas Lourdes não aceita o diagnóstico e se mostra ousada na fé.
Mishael Mendes access_time 16 min. de leitura
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Marcos encontra a esposa aos prantos sem, se quer, poder falar ante a cena que se deparou – talvez os pesadelos fossem menos assustadores, até porque não passavam de imagens distorcidas criadas pela mente, já aquilo era real demais, não uma minissérie pra pular as partes desagradáveis.

Mesmo com a situação remediada, ainda havia algo a confessar, uma falha cometida a Cadu e que vinha fazendo Lourdes se sentir uma péssima mãe.

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Após uma espera interminável, pelo menos segundo a percepção de Lourdes, doutor Pedro Gonzaga saiu do quarto 705 – quando existe uma dor profunda a passagem do tempo parece se arrastar, como se trouxesse consigo um peso imobilizante capaz de sugar forças.

A passos contados, ele se aproximou do casal, e respirou profundamente, já que a tensão parecia consumir todo ar do espaço ali, deixando um odor desagradável de apreensão.

— A rápida melhora do Cadu foi surpreendente, mas um trauma na cabeça, tão pequeno que parecia insignificante, acabou por se intensificar, danificando uma importante região do cérebro, por causa disso ele entrou em coma.

O diagnóstico saiu completo e preciso, fazendo parecer que bastou abrir a boca pra que as sentenças se formassem automaticamente, porém antes mesmo do médico proferi-lo precisou repensar cada palavra, lapidando-as – por isso os passos mais arrastados – pra causar o menor impacto possível a uma mãe que já estava bem sensibilizada, só que a reação dela foi bem adversa.

Diferentemente do que se esperaria num momento daqueles ela se negou a aceitar a situação, dizendo que logo Cadu ia acordar.

Tentando manter a expectativa o mais próximo das possibilidades, sem criar ilusões, o médico alertou que a recuperação podia acontecer, mas que não era possível mensurar o tempo ou se o garoto retornaria com as faculdades mentais intactas, pois, segundo a escala de Glasgow a demência podia surgir como sequela.

“Quando existe uma dor profunda a passagem do tempo parece se arrastar, como se trouxesse consigo um peso imobilizante capaz de sugar forças.”

— Doutor, isso não vai acontecer! – Diante da afirmação, foi o médico quem se espantou. – D-s vai curar o Cadu. – Ela foi ousada nas palavras e na fé [2 Timóteo 1.7].

Diante disso, o especialista assentiu e se afastou, torcendo pra que a certeza dela fosse capaz de fazer o filho despertar quanto antes, totalmente restabelecido.

Cadu tinha se recuperado de um prognóstico de tetraplegia só que, por mais que isso metesse medo, ainda era melhor que a constatação de demência. Deixando previsões negativas de lado – ainda que os resultados atestassem isso – o médico preferiu esperar por uma melhora no quadro do paciente.

Devido à proporção do desastre, a notícia ainda repercutiu por um bom tempo na mídia, que costumava focar em Nandinho Baladas, um dos maiores empreendedores do ramo de entretenimento que havia sofrido um trágico acidente.

Isso começou a gerar asco em Lourdes, a simples menção do nome do garoto lhe revirava o estômago, fazendo-o soltar uma bílis que a deixava completamente amarga – por essa razão Marcos optou em evitar telejornais em casa.

O tempo foi passando e nada do garoto despertar, os novos exames só fizeram atestar que a condição talvez ainda se estendesse por alguns anos e o pior é que não havia qualquer perspectiva de recuperação.

Lourdes sentia cada vez menos sono e só ia pra cama quando Marcos já dormia profundamente, isso o preocupava, já que ela não parecia descansar o suficiente, entretanto falar parecia não surtir efeito. Tentando dar jeito nisso, naquela noite, ele tentou conduzi-la ao quarto, mas ela resistiu dizendo que ainda estava esperta.

— Neguinho, pode ir! – E lhe deu um beijo. – Se eu for agora só vou ficar me remexendo na cama, daí você é que não vai conseguir dormir.

— Mas você está bem mesmo, amor? – Preocupado, ele ainda insistiu.

— Estou sim e, graças à D-s, cheia de encomenda pra fazer! Agora vai lá que você está precisando descansar.

“No fim o que conta é a intensidade com que se vive cada milagre diário não as possibilidades que se deixou de experimentar ou que nem chegaram a vingar.”

O marido deu um sorriso com toques de cansaço, deu-lhe um beijo e a deixou na cozinha. Apesar da apreensão, ele sabia que a esposa estava certa, então o melhor era se acostumar com o novo ritmo.

De alguma forma os pedidos aumentaram numa proporção assustadora, se antes Lourdes tinha umas 12 encomendas por semana, agora passava das 30 e isso só aumentava – como se o que houve de ruim tivesse ajudado a propagar seus dotes culinários.

Tanta ocupação acabava servindo de terapia, quando ela estava cozinhando entrava em flow, daí conseguia fazer receitas ainda mais caprichadas e apetitosas.

Dessa vez, ela recebeu a encomenda de um bolo incomum, de prestígio vegano, então foi separando cada um dos ingredientes, mas não encontrava o bicarbonato de sódio – às vezes ela organizava a própria bagunça de um jeito que nem ela mesma conseguia achar algo – foi quando lembrou de o ter guardado na parte de cima do armário, próximo à geladeira.

Ao abrir a porta, um pacotinho de miojo pulou pra cima dela, mas Lourdes conseguiu ser mais rápida e o pegou nas mãos.

— O Cadu dizia que faço armadilha, mas olha só ele aprontando também.

O filho brincava que ela não organizava as coisas nas prateleiras, mas criava armadilhas, como Lourdes sempre estava apressada, costumava sair enfiando os itens de qualquer jeito, assim alguns deles acabava por se precipitar pra cima de quem ousasse abrir a porta do armário.

Só depois de falar Lourdes saiu do estado de concentração plena e lembrou da situação de Cadu, no mesmo instante ela olhou pras mãos, recordando que aquele era o alimento preferido dele, então os flashs do filho preparando o lamén gourmet na noite anterior ao acidente, assim como tudo o que passou até ali, lhe tomou a mente.

A essas memórias se misturaram lembranças de Cadu elogiando-a, ele fazia questão de dizer o quanto a comidinha da mãe era gostosa demais – e que não a trocava por nenhuma outra, principalmente lanche – também pedia pra D-s abençoá-la pelo alimento, ao terminar cada refeição. Lourdes costumava dizer não ser nada de mais – como se isso pudesse diminuir a qualidade do que preparou com carinho e dedicação.

Ah! Se soubesse o pouco tempo restante pra ouvir o filho falar tão afetuosamente, nunca teria interrompido qualquer elogio que fosse.

Também ia ter esperado um pouco mais pra sempre comerem juntos, o arrastado pra cozinha ou ainda ido pro quarto dele, podia ser qualquer coisa, só pra aproveitar mais a companhia de Cadu – no fim o que conta é a intensidade com que se vive cada milagre diário não as possibilidades que se deixou de experimentar ou que nem chegaram a vingar.

Mesmo sem comentar, toda vez que ela e o marido faziam alguma refeição a lembrança do filho lhe vinha a mente. Apesar de Marcos amá-la profundamente, a vivência tornou comum o preparo de refeições tão apetitosas e ele foi esquecendo de elogiar, Cadu é quem puxava a fila.

Lourdes só se deu conta de que chorava quando as lágrimas começaram a pingar no pacote de miojo, então o abraçou como se fosse Cadu, seu neném, que agora estava distante de um jeito que nem podia lhe dar o abraço mais gostoso do mundo.

Era alta madrugada quando Marcos desperta, meio grogue, virou pro lado da esposa e esticou o braço pra trazê-la pra perto de si, só pra perceber ser o vazio quem lhe fazia companhia na cama. Abrindo os olhos com dificuldade, levantou, botou o hobby e saiu decido a trazer a companheira, nem que fosse nos braços, pra dormir um pouco.

Lourdes também precisava de descanso, por mais que tivesse várias encomendas, não era saudável varar a madrugada trabalhando. Andando pelo corredor, ele sentiu o olfato ser tomado por odores deliciosos, mas ao chegar na cozinha não tinha coisa nenhuma da esposa por lá.

Diferente da outra vez, dessa, Marcos não se assustou, pois, sabia bem onde a podia encontrar.

— Cadu, mamãe e papai te amam demais, volta logo pra gente, você ainda tem muito o que viver. – Apesar do forte desejo de ver seu menino melhor, o conflito de emoções que experimentava naquele momento tornou seu rosto embebe, enquanto permanecia na poltrona, segurando a mão do filho.

A experiência de estar sozinha, com Cadu presente apenas fisicamente, a fez se sentir segura o suficiente pra tocar num assunto que a machucou demais.

“O cuidado também pode ser inconsequente, quando a medida é o bem maior do ser amado.”

Pouco tempo após o nascimento de Cadu, Lourdes foi ao doutor Alexandre com suspeita de estar grávida – pra quem sentiu o prazer de ser mãe – estava radiante pela oportunidade de dar um irmãozinho a Cadu.

Qual não foi a surpresa quando o médico constatou que o que nela se gerava era, na verdade, a evolução do cisto que aumentou a ponto do útero precisar ser removido antes de uma metástase. Assim se eliminou de vez qualquer possibilidade dela conceber novamente.

O ocorrido trouxe bastante tristeza, mas a fez valorizar muito o anjinho que já tinha, ainda mais depois de uma gravidez de risco – por essa razão ela se tornou tão cuidadosa com Cadu, chegando a beirar a mania.

— Quando mamãe casou não queria filhos, daí você chegou e mudou tudo. Cadu, você foi a melhor coisa que me aconteceu.

— A melhor coisa que nos aconteceu, querida!

— Não me arrependo um só dia de nosso bebê, Marcos! – Ela olhou pro marido que a abraçou carinhosamente.

Marcos segurou as mãos de Lourdes, que tinha as de Cadu, entre as suas, beijou-as e ficaram ali até que, vencida pelo cansaço, ela adormeceu.

Quando o corpo se sentiu descansado o suficiente, Lourdes despertou e reparou que o marido estava parado, junto ao leito do filho.

— Amor, você ficou aí enquanto eu dormia?

— Sim! Em casa deu pra descansar bastante.  – Ele sorriu ao ver que o aspecto dela estava melhor.

— Neguinho, quanto tempo que você ficou me espiando falar com o Cadu?

— Cheguei logo que você começou a desabafar, mas não tive coragem de atrapalhar. Sabia que você precisava de espaço.

Assim que Marcos chegou, pelo vidro do quarto, viu a esposa segurando a mão de Cadu, numa conversa intimista, então abriu a porta devagarinho pra não interferir naquele momento ímpar e ficou hipnotizado vendo-a falar com tanto ímpar, enquanto expressava suas alegrias, medos, tristezas e devaneios vindos do mais íntimo da alma.

“Coma é o modo de segurança do corpo que é ativado quando há um trauma grave, na tentativa de se recuperar.”

Sabendo o quanto externar aquilo servia de cura pra uma dor a qual Lourdes trazia a tempo demais, ele não quis interromper.

Ao ouvir o comentário, Lourdes sorriu, fazendo seu rosto esboçar uma leveza, evidenciando que a dor a qual havia tentado ocultar, ao invés de enfrentar, já não tinha mais poder algum de dor sobre ela.

— Amor, o que estamos passando é difícil, mas você não devia sair assim! Pensei que a gente já tivesse conversado sobre isso. – Vendo-a mais calma, ele aproveitou pra lhe puxar a orelha.

— Sim, neguinho, perdão! Foi no impulso. – O cuidado também pode ser inconsequente, quando a medida é o bem maior do ser amado.

— Mas você precisa descansar, querida, se não seu corpo não vai aguentar.

Bastou ela ouvir isso pra dar um pulo e dizer que já estava renovada, tanto que Marcos estava liberado pra trabalhar, que ela ficaria cuidando de Cadu.

— Mas só vou depois que você me prometer que vai se alimentar direitinho, amor.

— Pode deixar, neguinho! Mas fica em paz, estou sentindo que logo vai ficar tudo bem.

No momento que Marcos abriu a porta, doutor Pedro Gonzaga quase caiu no chão do quarto.

— Perdão, doutor, não sabia que o senhor estava na porta.

— Tudo bem! – O médico se recompôs. – Vim chamá-los pra uma conversar. Vamos até minha sala, por favor.

Os dois assentiram e acompanharam o médico.

— Sei que vocês não gostariam de receber essa notícia, acreditem quando digo que nem eu queria dar, fizemos tudo ao nosso alcance, mas nem mesmo toda dedicação pode impedir o estado do Cadu se agravar.

O médico mal terminou de falar e as lágrimas começaram a escorrer copiosamente dos olhos de Lourdes.

— Receio que ele venha a sofrer morte encefálica, pelo menos essa é a previsão.

O estado de aflição de Lourdes foi tão intenso que o médico ficou assustado, parecia que ela ia se desfazer em lágrimas e o que mais agoniava era o fato de não dizer nada, teria sido melhor se ela tivesse brigado como antes.

— Claro que isso ainda não é uma certeza, coma é o modo de segurança do corpo que é ativado quando há um trauma grave, na tentativa de se recuperar. Apesar do que os exames apontam, dona Lourdes, posso dizer que sua fé tem enchido a gente de esperança. – Ele tentou consertar, mas parecia ser tarde pra isso.

— Tudo bem, doutor! – Ela falou pela primeira vez e já foi se levantando. – Podemos ir? – E tentou enxugar o rosto, inutilmente.

— Podem sim! – Sem esperar pela reação, ele se levantou meio sem jeito.

A dor daquela mãe e a forma abrupta que saiu o deixou constrangido, apesar de atencioso, a ética de doutor Pedro Gonzaga o impedia de se envolver sentimentalmente com pacientes e familiares, pra isso não prejudicar seu julgamento ou atendimento, mas aquele caso em particular, vinha provocando sentimentos dicotômicos.

Quanto Cadu deu entrada no hospital os paramédicos informaram que Marcos o havia removido e, como se não fosse suficiente pra um pai ver o filho naquele estado, a esposa ainda estava desacordada, considerando isso, o médico achou por bem não comentar que a atitude tomada pra tentar salvar o filho acabou agravando o nível do trauma, foi aí que o garoto melhorou “milagrosamente”.

A recuperação do paciente 237, rápida demais até mesmo pras melhores previsões, causou espanto, ainda assim o médico se negou a crer em intervenção sobrenatural, já que os anos de estudos o ensinaram a crer apenas no que podia ser explicado pela ótica da ciência.

Entretanto, a cena de Lourdes orando por Cadu, poucos antes dele despertar, presenciada enquanto o médico passava pelo corredor, ficava voltando em sua mente. Mas, se houve mesmo uma intervenção, como o garoto acabou caindo num estado pior que antes?

Em seus passeios pelo corredor, doutor Pedro Gonzaga chegou a ouvir os risos que saíam do quarto 705 – um som de felicidade tão real que até ele, contagiado, sorriu.

O misto de lembranças, o fizeram começar a se questionar como algo intensamente bom podia se dissolver daquela forma, fazendo todo motivo de comemoração se desaparecer num curto e ignorado instante?

Assim, mesmo não crendo em D-s, o médico se pegou pensando que, caso esse ser sobrenatural existisse, foi injusto ao ponto de possibilitar imensa alegria só pra depois a tomar violentamente, mesmo dona Lourdes continuar a seguir crendo – conforme pode ouvi-la proferir esperança de melhora, pouco antes de Marcos abrir a porta e ele perder o suporte por onde escutava a conversa.

Ante tamanhas lembranças e indagações, os olhos marejaram até que, sem esperar, a porta se abre, obrigando-o a secar os olhos rapidamente, só pra se espantar com a visão de quem lhe interrompeu suas reflexões.


#proximoepisodio

Após ser surpreendido, doutor Pedro Gonzaga recebe uma proposta improvável, mas que acaba por se tornar real. Como o número de propostas por episódio não havia atingido o seu limite, ele também resolve fazer uma que é rebatida com veemência e certo asco.

Não satisfeito com a reação, o médico passa a assediar Lourdes pra aceitar a sugestão ofertada e ela se vê obrigada a denunciá-lo ao conselho do hospital.

Ósculos e amplexos,

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