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Interrompido – Os olhos não veem (Episódio 15)
Um mergulho no passado revira coisas enraizadas a tempo suficiente pra envolver o coração numa crosta rígida
Por Mishael Mendes access_time 18 min. de leitura
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A surpresa deixou doutor Pedro Gonzaga desconfortável até ouvir uma proposta. Cadu continua na mesma e Lourdes discute com Marcos, ao tentar se desculpar, ela percebe haver algo errado com o marido.

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Após respirar fundo, tudo que Marcos conseguiu responder foi compreender a importância de falar o que incomodava, entretanto, não conseguia – o conhecimento de algo, necessariamente, não nos habilita a saber lidar com aquilo, afinal, consciência não significa domínio.

— Neguinho falar ajuda a diminuir o peso. Você me ensinou isso e tinha razão!

Foi necessário mais alguns momentos de silêncio puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca num ritmo controlado e uma nova tentativa aconteceu, apenas pra Marcos se dar conta de ainda não conseguir dizer nada. Tentando ajudar, Lourdes puxou o marido pra mesa e tentou guiar a conversa através de perguntas; nem foi necessário muito, bastou falar no dia do acidente pro esposo vacilar, daí ela insistiu no assunto porque ainda não ouvira como ele enfrentou aquele trágico dia.

Por fora, Marcos parecia calmo, enquanto em sua mente experimentava o terror. Imagens obscuras lhe tomavam o pensamento, repetindo cenas das quais desejava excluir e, conforme acessava as lembranças, uma se cruzava nas outras, o enchendo de horror e dificultando se expressar com naturalidade.

O suor frio escorria, enquanto o receio de perder o próprio controle aumentou – contar o que passou nos transporta pra determinados momentos, o que pode ser uma experiência ruim, já que faz reviver cada sensação experimentada.

“O conhecimento de algo, necessariamente, não nos habilita a saber lidar com aquilo, afinal, consciência não significa domínio.”

Em meio ao estado de agonia, Marcos sentiu a esposa lhe apertar a mão, o gesto fez a atenção se voltar pra mulher a sua frente, focando em seus mansos olhos castanhos – os mais lindos já visto e onde desejava ver sempre admiração – o gesto lhe deu a força necessária e ele começou a falar.

A poucos metros de casa, vendo a floricultura aberta, Cadu entrou pra dar uma espiada e encontrou uma orquídea diferente, como a mãe amava ganhar flores, ainda mais daquela espécie, a levou imaginando a cara de felicidade dela ao receber de presente a flor do Espírito Santo, que trazia em si uma delicada pomba branca.

“As revelações que trazem libertação, também carregam a dor dos traumas vividos.”

Ao ver a ligação do pai, estando próximo de casa, pediu pra adivinhar onde estava e chute longe lhe causou riso, ele disse pra tentar de novo. Antes de fazer isso, Marcos observou a rua e Cadu lhe sorriu acenando com o celular. Uma fração de segundo bastou pra ele voar longe, daí… tudo ficou… estranho… Enquanto tudo perdia cor, lógica e razão, a única coisa em sua mente foi socorrer o filho, então correu pra fora numa velocidade arrastada que se desprendeu do tempo, enquanto chamava a esposa.

Na rua, o vaso jazia esmagado pelo pneu do carro e um rastro de sangue levava a Cadu, atirado feito lixo na rua, por pouco Marcos esquece de respirar; sem refletir, tomou o filho nos braços, o carregando pra dentro. Prestes a entrar em casa, o desespero aumentou: Lourdes desmaiara. Sem saber o que fazer, gritou por ajuda, no mesmo instante Fábio e Bia surgiram, pouco depois o SAMU.

Assim que Marcos silenciou, Lourdes ficou estática e se imaginar a cena foi suficiente pra paralisá-la, quanto maior devia ter sido o choque do marido? Não restavam dúvidas da barra que foi enfrentar tudo isso e sem nada dizer pra ela não ficar pior. Em meio as reflexões, Lourdes recordou que quando seguiam pro hotel, o celular do marido estava com a tela rachada.

— É que sentei e esqueci que ele tava no bolso de trás.

— Poxa, neguinho, você precisa ter mais cuidado! – Ela ralhou, já que fazia uma semana desde a compra do dispositivo. Agora ela sabia a verdadeira causa – e isso a fez estremecer.

“Contar o que passou nos transporta pra determinados momentos, o que pode ser uma experiência ruim, já que faz reviver cada sensação experimentada.”

Ante a visão aterradora, Marcos largou o celular pra ajudar o filho. E quem era ela pra julgar o marido pela imprudência, se fizera o mesmo com seu bule favorito, apenas por pressentir algo ruim quando foi chamada?

Aquela altura, o rosto de Lourdes transbordava água numa cascata ininterrupta, enquanto o de Marcos era deserto, ainda assim, um misto de raiva e decepção revelava dor de imensas proporções em seus olhos. Como não conseguia chorar os pesares, a carga de sofrimento se tomou maior – quando a intensidade dos sentimentos está prestes colapsar, lágrimas servem pra equalizar a realidade de interna com a externa.

Tomada por um ímpeto, Lourdes abraçou o marido e lhe disse que não tinha problema chorar. Com o olhar vago, Marcos continuava arrebatado pela trágica lembrança, então ela apoiou a cabeça dele em seu ombro.

— Chora, neguinho! Você precisa materializar essa dor. – Com suavidade, ela disse no ouvido dele.

— E.. eu, não posso! Não consigo– – Marcos falou com dificuldade, de repente o ar ficou mais pesado, dificultando a respiração.

— Mas precisa! – Ela insistiu, calma.

Marcos disse querer fazer isso, mas não sabia o que era chorar desde pequeno. Lourdes conhecia pouco da infância do esposo ou de sua relação com o pai, apenas que foi onde a tragédia aconteceu.

— Desde que sua mãe…?

— Sim– – Com os braços, ele apertou a esposa, procurando por segurança.

Mulher gentil

Dona Júlia sempre foi dedicada e amorosa, apesar dos 13 filhos pra criar; pouco depois de Marcos completar seis anos, ele foi ficando fraca, se cansado com frequência. Um exame constatou uma doença que os recursos da época não souberam identificar, assim, mesmo sofrendo foi mandada pra casa.

— AAAAAAH! – Não era nem seis horas da manhã e dona Júlia padecia, a dor parecia vir com mais intensidade que das outras vezes.

“Quando a intensidade dos sentimentos está prestes colapsar, lágrimas servem pra equalizar a realidade de interna com a externa.”

Assustadas, as crianças mal despertaram e correram pro quarto da mãe e a situação as chocou. Como não havia telefone, nem responsáveis – José, o pai, viajara pra outro estado, os mais velhos, de 18 e 20, eram casados e moravam longe, o de 16 e os gêmeos de 15 estavam no trabalho – então os garotos de 7, 10 e 11 decidiram buscar o médico na cidade vizinha, a 4 léguas dali.

Marcos até se voluntariou, como não havia transporte público a distância percorrida a pé exigiria um longo tempo, alguém precisava cuidar da mãe e dos miúdos – os gêmeos de 5 e os irmãos de 2 e 3 anos – e ninguém melhor que o mais paciente pra cuidar dos pirralhos.

O relógio marcava o tempo sem o suplício ter fim, sem sucesso, Marcos tentava dar alívio passando um pano molhado na testa da mãe, mas os gritos ficavam mais pavorosos. Assustados, os miúdos começaram a chorar, então ele os levou até onde não desse pra ouvir mais nada.

— Olha! A mamãe tá dodói, mas vai ficar tudo bem! – Ele abraçou os quatro de uma vez, conseguindo acalmá-los. E deu a missão de colocarem as galinhas no poleiro.

Os miúdos adoraram e se distraíram correndo de um lado pro outro, como as penosas eram ainda mais agitadas e teimosas que eles a tarefa levaria tempo suficiente pra Marcos cuidar da mãe sem interrupções. A pressa o fez correr, ainda assim não ouviu grito algum, mesmo próximo da casa tudo era silêncio.

“Não há argumentos ou quem possa nos livrar quando o promotor é a nossa consciência.”

“Será que o médico chegou?” – Ele se animou disparando pro quarto de Júlia. Entretanto, ao chegar na porta, um grande não lhe foi berrado na cara, a mãe delirava banhada em lágrimas e suor.

— Filho, segura a mão da mamãe! – Ela pediu ao perceber o olhar assustado de seu garotinho.

Obediente, Marcos entrou, se aproximando com cuidado, ele temia que um passo brusco fizesse a dor voltar. Naquele momento, a distância entre ele e a mãe aumentou, ainda assim, manteve os passos o mais firmes que perninhas aguentavam. Quando estava perto o suficiente a mão da mãe caiu pesada, assustado, a levantou, segurando-a alguns instantes, foi soltar e ela caiu.

— Mãe, acorda! Tô segurando sua mão! – Ele pediu, tremendo e com a voz fraca, ao ver Júlia num sono profundo.

Só que mesmo segurando firme e chamando ela não despertava até sua mão esfriar e ele a soltar assustado. O desespero fez Marcos balançar a mãe, enquanto berrava, era tarde, o espírito de Júlia havia abandonado o corpo que tanta felicidade e dor lhe proporcionara. Nem assim o garoto desistiu de implorar pra ela acordar. Quando os irmãos chegaram, o encontraram agarrado ao braço da mãe com os miúdos chorando em volta de si.

— A mãe se foi por minha culpa! Não consegui impedir ela de ir! – Ele se sentenciou ao pesado fardo.

O médico explicou que dona Júlia estava muito debilitada e mesmo tendo chegado mais cedo não ia conseguiria fazer mais nada, ou seja, aquilo não era culpa de ninguém, menos ainda de Marcos. O garoto resistiu em sair de perto da mãe, dizendo que ficaria ali até ela voltar; pra conseguir afastá-lo foi custoso.

“O peso que os olhos não veem pode ser doloroso pro coração onde pulsa.”

Mesmo com toda explicação, foi difícil convencer alguém que já havia aceitado tamanha acusação, foram necessários muitos anos até ele compreender não ser o responsável pela morte da mãe – não há argumentos ou quem possa nos livrar quando o promotor é a nossa consciência.

José só conseguiu chegar na madrugada do dia seguinte ao recebimento do telegrama notificando o falecimento da esposa. Mesmo chegando tarde, os filhos o aguardavam com ansiedade e como resposta tomaram bronca por estarem acordados uma hora daquelas, quando havia muito a ser feito pela manhã.

Após descansar um pouco, o pai cuidou dos preparativos, fazendo tudo friamente calculado. O enterro aconteceu na tarde do terceiro dia do falecimento. Marcos só se deu conta que nunca mais teria o calor do sorriso da mãe ou o aconchego de seus abraços amorosos quando o caixão foi coberto de terra, então foi tomado de uma tristeza que o fez querer chorar.

Como não estava mais responsável por ninguém, deixou escapar a dor a lhe corroer o peito, no mesmo instante o pai disse pra engolir o choro porque isso não combinava com homem. Ele precisou conter o ímpeto de se desfazer em água salgada e permanecer quieto, embora devorado por uma dor maior que seu tamanho.

Desse dia em diante, o pai seguiu como se nada tivesse acontecido, nem permitiu tocar no assunto, Marcos bem tentou, mas o tapa que deixou a boca sangrando serviu pra ele e os demais entender que o aviso era pra ser levado a sério.

Sob o sol da roça, o garoto seguiu plantando e colhendo, enquanto outra coisa crescia nele; resultado da interação entre a perda com a opressão diária que brotou revolta e desprezo pelo pai, assim, log que pode se mudou pro interior de São Paulo, sem planos de retornar a Arcoverde.

A pele macia dos braços de Lourdes lhe envolvendo, fizeram Marcos retornar das lembranças e perceber o ombro da esposa molhado, ao se dar conta disso o desespero cresceu e o choro acentuou. Ele mal se dera conta de estar apertando os braços em torno da esposa – como se ela pudesse escapar caso não a segurasse bem.

“Independentemente de conexão e responsabilidades, pais têm fragilidades e podem precisar de tempo ao passar por determinadas situações, talvez até se percam a ponto de não saber como tratar os filhos.”

— Chore tudo o que tem pra botar pra fora, neguinho! – Ela lhe soprou com carinho no ouvido e colocou a cabeça dele em seu colo. Com o marido naquele estado, entendeu que o peso que os olhos não veem pode ser doloroso pro coração onde pulsa.

— AAAH! – A resposta foi um berro, Marcos soltou a agonia a tanto silenciada.

Enquanto a dor interna saía em sons inexprimíveis, ele só fazia chorar uma dor mal sepultada a ocultar raiva de si pela falta de coragem em dizer o que sentia. Os soluços entrecortavam o choro expurgando todo sofrimento, o peito foi rasgado e do coração arrancou-se uma parte necrosada significativa. Pouco depois os olhos secaram – o corpo reteve as lágrimas antes dele acabar desidratado.

— Eu odiava meu pai! – Marcos vomitou o que tanto lhe revirou o estômago ficando entalando na garganta e começou a acalmar.

— Você devia ter dito pro seu pai o que sentia por ele. – Lourdes lhe acariciou os cabelos. – Mas com isso corria o riso de deixá-lo ainda pior. – Ouvir isso o espantou e uma grande interrogação surgiu na cara dele. – Neguinho, você já pensou se a postura fria não foi o jeito do seu pai enfrentar a própria dor?

Essas palavras o fizeram enxergar a vida e a própria dor por outra perspectiva, Marcos recordou que o pai nunca conversou com ninguém sobre os próprios sentimentos, já ele tinha alguém pra odiar e responsabilizar por não extravasar a dor, e o pai? A quem mais podia culpar além de si mesmo por viajar mesmo a esposa estando doente?

“A verdadeira força está em saber quando reconhecer a própria fragilidade, não em ignorá-la até afundar em sofrimento e dor.”

Dessa forma, José carregou uma dor da qual possuía responsabilidade total e por não saber como lidar acabou sendo intolerante com as crias. Embora proibisse comentários sobre dona Júlia, todo 2 de novembro obrigava os filhos a visitarem seu túmulo; regra essa que valeu até cada um ter idade suficiente pra sair de casa.

Mesmo sem esboçar sentimento, seu amor pela esposa era tamanho que se recursou a casar outra vez. A angústia de José aumentou cada vez que um filho partia, dos quais recebia poucas notícias e algumas visitas. Só que a despeito de sua rigidez, ele se esforçou pra criar os filhos, nada deixando faltar e obteve como recompensa o exílio que intensificou sua dor até o coração parar de vez.

A epifania surgiu em nitidez cruel pra Marcos e ele compreendeu um sofrimento que imaginou nem existir por estar ocupado com a própria dor, a ponto de cometer o sacrilégio de não visitar o pai quando ele adoeceu. Os irmãos ligavam solicitando urgência porque o pai desejava vê-lo e ele deu várias desculpas: estava ocupado demais no trabalho, não havia quem o cobrisse e tals, até não restar mais tempo e ele ser o único a não comparecer no funeral do pai.

— Não pai, eu que preciso de perdão! – Ante a visão de José no leite de morte lhe pedindo perdão, entre gemidos e alucinações, com o fôlego que restava, Marcos levantou com lágrimas a escorrerem, lembrando que perdoar é entregar a si mesmo a chave da liberdade [Marcos 11.25-26]

— Ele já te perdoou, neguinho! – Lourdes aproveitou pra abraçar o marido.

Ele entendeu que, independentemente de conexão e responsabilidades, pais têm fragilidades e podem precisar de tempo ao passar por determinadas situações, talvez até se percam a ponto de não saber como tratar os filhos.

“Os fardos que acumulamos como partes de nós, só impedem a percepção de que vida pode ser leve e mais prazerosa.”

Depois do momento de iluminação, ficou claro pra Marcos que o motivo de algumas decisões ruins do pai foi buscando fazer o melhor. Era esse o motivo pelo qual escondeu de Lourdes o que presenciou, padecendo calado pra ser forte pra esposa; só que a verdadeira força está em saber quando reconhecer a própria fragilidade, não em ignorá-la até afundar em sofrimento e dor.

Com a camada de amargura removida das memórias, Marcos viu o quanto se parecia com o pai, muito de sua personalidade era copiada dele, até as manias que detestava ver na figura paterna – talvez fosse essa a causa da implicância mútua entre os dois.

— Amor, me perdoa! – Foi a vez de Lourdes se retratar. – Só não quero que levem nosso filho antes do tempo, quem sabe ele não melhora? – Abraçados, os dois choraram a dimensão da dor um do outro. Os fardos que acumulamos como partes de nós, só impedem a percepção de que vida pode ser leve e mais prazerosa.


#proximoepisodio

Empenhada nos cuidados, Lourdes sente a morte rondar o quarto de Cadu. Uma visita inesperada desperta sentimentos nada agradáveis deixando algo claro, mas antes de compreender o que acontecia a pessoa desaparece sem deixar vestígios de sua passagem.

Conheça a história com acontecimentos inéditos e um episódio extra!

Ósculos e amplexos,

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