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Interrompido – Piada de mau gosto (Episódio 02)
Recobrando a consciência, o menino Luan desperta do pesadelo que o persegue todas as noites, sem descanso lhe dar
Por Mishael Mendes access_time 15 min. de leitura
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Assombrado pelos horrores a deslizar pela escuridão, o menino Luan não consegue dormir. Felizmente, ele conta com a ajuda de uma presença iluminada nesses momentos de trevas e isso o deixa atraído por essa pessoa tão especial.

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Luan acordou sobressaltado, certo que a voz vinha de fora de si, porque nele apenas pesadelos e pensamentos ruins surgiam pra puni-lo, os olhos buscaram encontrar alguém: não havia nada além da escuridão. Mesmo parecendo real, a voz era apenas parte de seu sonho, frustrado, tentou voltar a dormir pra descansar um pouco mais.

Ecoando novamente, a voz se fez presente e acolhedora, num timbre característico que a memória não permitiu recordar a quem pertencia. Ainda assim, tentou descobrir, sua vibração trazia uma paz e segurança as quais não provava desde pequeno, quando a mãe–

— Será que foi ela? – Luan abriu os olhos e encarou o teto, como se as camadas de concreto sustentando vários andares se desfizessem o permitindo contemplar o céu estrelado. – Não pode ser!

De súbito, um impacto fez cristais de vidro ir em sua direção, enquanto se distanciava do veículo que se chocou contra si, indo parar embaixo da moto. Os paramédicos chegaram, encontrando-o a respirar com dificuldades. Quando a moto foi retirada, o osso da perna estava exposto e havia sangue a jorrar pra todo lado.

“A vida é linda, ainda assim cheia de imperfeições, por isso existe tanta dor, mas um dia nada disso irá existir.”

— É um milagre você ainda tá consciente! – Um dos paramédicos constatou assombrado. Ao ouvir isso, Luan sorriu e apagou, quando acordou estava numa maca, arrastado pelos corredores do hospital.

Por mais terrível que fosse a condição que o destino lhe preparou, ela era resultado de sua ingratidão. A mãe sempre foi sua pessoa favorita, sem tempo ruim podia contar de tudo, apropriado de uma segurança que só encontrava no aconchego de seus braços, Luan podia ser ele mesmo. O ruim é que pra desfrutar desses momentos de prazer dependia da boa vontade de alguém disponível pra levá-lo até ela.

Após completar doze anos como sabia pegar o busão, se mandava pra Santos nos fins de semana, até o pai começar a reclamar que isso não estava certo, que ele precisava se dedicar aos estudos. Nem adiantou dizer que, durante a semana, tinha a tarde toda pra isso, porque haviam várias atividades extracurriculares lhe esperando.

Obrigado a reduzir as visitas a uma por mês, Luan jurou pra mãe que a visitaria toda semana, assim que arrumasse um trampo, como resposta recebeu um sorriso acolhedor. Logo ele viu que o pai estava certo, sem tempo pra estudar, o rendimento ficou baqueado, mas dedicado que era se recuperou rapidamente e isso chegou a afetar suas notas.

Quando começou a trampar, as visitas voltaram a ser semanais, embora não desse pra passar o final de semana todo, tentava estender ao máximo o tempo com a mãe. Só que a vida de coletivo ou carro começou a ficar puxada a medida que a correria aumentou. Até passar na frente duma concessionária e ver a R 1250 GS, se a amou de primeira vista, um test drive o certificou que ela era o que faltava em sua vida.

Julgando que a grana que vinha juntando valia ser gasta em algo que proporcionasse um deslocamento veloz, enquanto era carregado pela liberdade, escolheu a versão Premium que além dos itens de série tinha uma pá de recursos bacanas pra elevar seu preço. Com características pra lá de esportivas, a bigtrail deslizava feito uma Honda CG – com muitos quilos e cavalos a mais – se transformando em tanque de guerra nas estradas de terra.

“Nem sempre recebemos o que é preciso de quem amamos, nem assim a nossa ligação se reduz.”

Luan amava ser livre e se isso proporcionava controle, conforto e segurança, eram bônus muito bem-vindos; além de dispensar o uso do carro do pai a moto o levava mais ligeiro pra mãe, sendo uma boa desculpa pra vê-la quando a saudade apertava. Até seu tempo reduzir, após virar roteirista da segunda maior rede de televisão comercial do mundo, parte de um dos principais conglomerados de mídia do planeta.

Daí, no mês anterior a quarentena, tudo o que conseguiu foi enviar desculpas pra mãe por não poder vê-la, as quais foram respondias com um tudo bem. Então o surto de pandemia soou a ordem de isolamento e em meio a toda essa loucura ele recebe a notícia do falecimento da mãe, devido ao maldito do COVID-19.

— Poxa! Por que mamãe se foi assim? – Ele estava indignado com tamanha injustiça. Primeiro foi tomado da mãe, por ser menor de idade o juiz decidiu com quem era melhor ficar e quando pode optar escolheu o trabalho. – E pra quê?! – Ele urrou, só aí percebeu o rosto molhado e o nariz a escorrer.

Agora, além de estar separado pra sempre da mãe, podia perder os movimentos das pernas, fora a querida BMW dera PT. Nem assim a família se importou de visitá-lo. Sendo bobagem desgraça pouca, talvez nem emprego fosse ter mais, como a emissora não andava bem a certo tempo – por demorar a notar a mudança no comportamento do consumidor que escoou a grana da publicidade pra plataformas móveis – não haviam mais contratos de exclusividade.

Perdido nas trevas advindas de si a preencher o quarto, um raio solar tocou-lhe a pela, a percepção que o dia já nascera, espantar a escuridão e um sorriso se formou no seu rosto.

“Só pode ter sido a dona Socorro.” – Ele logo sacou.

— Bom dia, menino Luan! – O cumprimento da enfermeira o pegou de surpresa.

— Bom dia, dona Socorro! – Valendo-se que estava de costas pra porta, ele secou o rosto. – Curtiu a folga?

— Um pouco, dona de casa não para, mas foi bom passar um pouco mais de tempo com meu marido.

“A vida ensina tudo o que é preciso, basta não se prender as dores que a gente enxerga os ensinamentos necessários.”

— Fico feliz! – Os lábios de Luan expressavam sinceridade e seu rosto um sorriso. – Mas a senhora fez muita falta.

— Também senti sua falta, menino Luan. – Ela sorriu lhe acariciando as madeixas. O gestou o transportou ao colo da mãe, ele acabara de completar cinco anos e ela lhe preparou o cupcake favorito de cenoura com muito chocolate, botou uma velinha e lhe deu pra assoprar, enquanto mexia em seu cabelo confessou precisar partir.

Como assim? Era tão bom passar as tardes vendo novela, só os dois. Por que ela precisava ir? Nem a explicação da mãe tornou aquilo compreensível. Quando chegou o momento, por mais que ela o chamasse pra se despedir Luan recusou, acreditando que se não abraçasse, ela teria de ficar pra sempre e pra isso estava disposto a nunca mais abraçá-la.

O que houve foi que vendo que não teria sucesso, a mãe entrou no carro e se afastou até sumir, deixando Luan boquiaberto de sua lógica estar errada. Assim, quando o levaram pra visitá-la, se pendurou no pescoço da mãe sem querer soltar, pra compensar os abraços perdidos e só largou porque ela disse estar ficando sem ar.

Outra vez a mãe se foi sem abraço e não havia jeito de desfazer isso. Se a tivesse visitado quando pode ou não demorasse pra descobrir o motivo do sumiço dela, podia não ter impedido da mãe partir, mas ficaria ao seu lado até o último instante. Agora amargava as consequências por ser um filho tão ruim.

— Por que acontece tanta coisa ruim, dona Socorro? – As lágrimas rolaram. – Tem vezes que a vida não parece ter sentido e que tudo é só piada de mau gosto.

— Menino Luan, vida é linda, ainda assim cheia de imperfeições, por isso existe tanta dor, mas um dia nada disso irá existir. [1 Coríntios 13.10]

— Só queria ter tido mais tempo com mamãe! – Desesperado, começou a soluçar. Vendo seu estado, Socorro o abraçou recitando algo que a agonia não permitiu compreender o que foi dito. Quando os lábios silenciaram uma paz sem explicação [Filipenses 4.6-7] o envolveu. – Que a senhora falou? – Curioso, quis saber o que o fizera parte da plenitude afastando o desespero que lhe vinha consumindo há dias.

— Só recitei o Salmo 91, conhece?

— Sim! Mamãe lia ele, quando eu tinha pesadelos. – Ele sorriu, saudosista. – Espera! – Isso o fez recordar. – Cê teve mais cedo aqui?

— Sim! Você tava com febre, então administrei um pouco de antipirético.

— Cê fez outra coisa também, não foi!? – Ele piscou, com cara de espertinho.

— Você me ouviu? – Socorro fingiu surpresa.

— Deu pra ouvir no sonho, mas daí acordei e não tinha ninguém, aí pensei que fosse só imaginação.

— Tô sempre por perto pra cuidar de você [Salmos 34.7]. – A enfermeira sorriu. – Agora, dorme um pouco, você não teve uma noite tranquila, então precisa descansar.

— Tá! – Ele se ajeitou no leito, pra ficar mais confortável, virando pra parede. – Poxa, ninguém veio me visitar. – Chateado, ele falou consigo mesmo, enquanto suspirava.

— Acho que isso tem a ver com o que você pediu pra dizer, menino Luan.

— Oi? – Ele se assustou, pensava estar só e mesmo que não estivesse as palavras saíram num sopro, dava nem pra terem sido ouvidas.

— Quando os repórteres estavam atrás de você. – As palavras chaves desbloquearam um nível bônus de memória antes inexistente e ele recordou o que acontecera.

Maior repercussão

Seu desastre repercutiu na mídia, numa reportagem lembraram que ele era um roteirista em ascensão, estando entre os melhores da nova safra, que por pouco não partira de forma trágica; sua sobrevivência se dera por milagre já que nem o motorista do carro resistiu ao acidente. Luan assistiu até às imagens do acidente lhe arrancarem indesejados flashes.

Ao desligar a TV notou que assim como ele o celular sobrevivera, apesar da tela trincada e os arranhões haviam algumas notificações, entre elas a do chefe solicitando uma exclusiva pra emissora. Com o isolamento ele dissera precisarem encerrar seu contrato por tempo indeterminado, o deixando sem receber enquanto durasse a quarentena, daí Luan quase morre e o cara vinha de querer tirar vantagem? Era mesmo o cubo da ousadia.

No caso do chefe bastou ignorá-lo, já contra a insistência dos repórteres precisou ser mais estratégico, pediu pra dizer não poderem ocorrer entrevistas porque havia chance de contaminação, mesmo com uso de equipamentos. A manobra afastou a imprensa, mas noticiaram que ele estava sob suspeita de ter contraído coronavírus.

Também havia mensagens da irmã que ainda não visualizara. No dia que se mandou, o pai ficou assustado por ele sair em plena pandemia, ainda mais porque não havia o que fazer nem mesmo se despedir, pra evitar contaminação o corpo seria cremado.

— Cê é irresponsável, garoto! Não se importa de expor o pai!? – Ela mandou antes do acidente. Após seu quadro estabilizar, perguntou se não iam visitá-lo e irmã o chamou de sem-noção, brigando por pedir isso podendo estar contaminado; tentar desmentir se mostrou perda de tempo total. – Já perdemos a mãe e quase ficamos sem você, quer deixar a gente sem o pai também? – No áudio dava pra perceber o quanto a ideia de perder o pai mexeu com ela.

Matar do coração

Ela alertou que pra ele seria só uma gripe, mas se o pai pegasse, além de sofrer, acabaria morrendo. Então o questionou se ele pensava em mais alguém além de si mesmo, o melhor era esperar voltar pra casa. Ela até não disse, mas seu tom deixou claro que não fazia a menor questão disso acontecer.

Em seguida o cunhado mandou mensagem falando que conversaria com o chefe dele pra não chamá-lo de volta caso insistisse em ver o pai, porque sua irmã estava aos prantos. Estressado ele disse que não era moleque pra falar daquele jeito consigo e que desistira da ideia e só a propôs por sentir falta da família. Apesar da vontade de falar umas boas, Luan respirou fundo – tudo bem que o féla que o indicou, mas eles eram de áreas diferentes total e ele só ficou por mérito próprio.

— Uuuuuf! – Ele expirou fundo ao recordar o motivo da família não o visitar.

A culpa era sua, mas aquele foi o único jeito encontrado pra se livrar dos paparazzi, ele só esqueceu o quanto o pai era vidrado em jornal, dando um crédito absurdo ao que era noticiado. O pai não curtia séries, mentiras serializadas dizia ele, sem saber que telejornal segue na mesma linha, com recortes editados visando manter a audiência que implicam em notícias desatualizadas, incompletas e incorretas.

— Nem sempre recebemos o que é preciso de quem amamos, nem assim a nossa ligação se reduz.

— Aí que tá, não é fácil conseguir lidar com isso tudo. Como cê consegue ser tão plena assim? – Ele estava admirado.

— A vida ensina tudo o que é preciso, basta não se prender as dores que a gente enxerga os ensinamentos necessários.

— Sim… – Luan se dispersou, repentinamente. – O ruim é que parece que minha memória tá meio bichada. Não consigo lembrar das coisas direito.

— Isso é uma das sequelas do acidente, mas não se preocupe, aos poucos, sua cabeça vai estabilizar. – A enfermeira lhe tocou a cabeça.

— Bom saber disso! – Ele se ficou aliviado. – Inclusive, acho que queria te falar algo, mas não lembro o que era. – Ele forçou a mente, tentando recordar.

— Tudo bem, menino Luan, não se esforce, quando lembrar, você me chama. – Ela sorriu e foi se afastando.

— Dona Socorro? – Ele chamou, assim que ela fechou a porta.

— Sim? – Ela quis saber, toda solícita.

— Lembrei o que era! – Os olhos chega brilhavam, ele parecia ter descoberto como consertar o mundo. Bom, pelo menos o dele.

— Que bom! – A enfermeira ficou encantada com seu entusiasmo. – Me conta, então. – Ela sorriu.


#proximoepisodio

Como não descolou informação sobre Socorro, o menino Luan apela pra enfermeira e a reação dela o deixa angustiado. Ainda assim, Socorro lhe conta o que a motivou a se tornar uma enfermeira tão dedicada e empenhada.

Conheça a história com acontecimentos inéditos e um episódio extra!

Ósculos e amplexos,

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