#episodioanterior

Cadu parecia estar se recuperando mais rápido que o esperado, o que não foi surpresa alguma pra Lourdes, ela sabia que o filho era um verdadeiro milagre – antes mesmo de nascer.

Doutor Pedro, disse que devido ao estado que Cadu chegou, precisou ser submetido ao coma induzido pra que a cirurgia pudesse ser realizada, mas Lourdes não conseguiu entender o motivo de algo tão extremo, então ela desconfiou que lhe estavam escondendo algo importante.

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O choque de ser enganada pelo próprio marido – companheiro de um vida, presente tanto nos momentos bons, quanto nos ruins – fez Lourdes se perder entre decepção, traição, tristeza e dor, tudo se fundiu numa bola que lhe socou o estômago até subir a garganta, ficando presa lá, deixando-a sem saber como reagir.

Ela nunca esperou nada assim de Marcos – ele nunca deu motivos pra haver dúvidas quanto a própria integridade – provavelmente esse fosse o motivo de ter sido facilmente enganada.

Uma sensação ruim lhe apertou o peito e foi doendo mais a medida que se deu conta que o marido tinha sido capaz de uma coisa daquelas. Marcos sabia o quanto era importante ela saber o real estado de Cadu, mesmo assim escondeu as coisas, talvez se ele a tivesse traído a dor teria sido menos intensa do que a que sentia agora.

“Será que posso realmente confiar no Marcos?” – A dúvida lhe arrepiou a espinha, se ele era conseguia mentir sobre o próprio filho, podia ser capaz de qualquer coisa.

— Dona Lourdes, omitir algo também é uma forma de cuidado e amor, pois a gente pode não conseguir lidar com tanta informação. – Pedro disse antes dela poder explodir em palavras que a machucariam mais do que a Marcos.

O conselho inesperado removeu de Lourdes aquela enxurrada de pensamentos ruins e dúvidas que já até apontavam pra uma separação conjugal e a fez ver o esposo com outros olhos. Um olhar de carinho por um zelo capaz de ocultar determinadas coisas, pois sabia o quanto isso era necessário.

“Omitir algo também é uma forma de cuidado e amor, pois a gente pode não conseguir lidar com tanta informação.”

— Me perdoa, amor! – Ela lhe segurou as mãos, enquanto um fio cristalino fazia um caminho aleatório por seu rosto.

— Tudo bem, querida. – Marcos sorriu calmamente, um sorriso cansado, mas sem qualquer marca de mágoa.

Então ele a envolveu entre os braços e Lourdes experimentou uma sensação de paz – felicidade consiste em várias doses de perdão e um bocado de amnésia. Marcos sabia que tudo que a esposa mais precisava naquele momento era de amor [1 Coríntios 13.4-7], então ofereceu tudo o que tinha num abraço apertado.

— Doutor, porque a gente teve que esperar o senhor chegar pra ver o Cadu? – Mais calma, Lourdes quis saber.

Aproveitando o ambiente carregado de uma sensação inexplicavelmente boa, doutor Pedro disse que, no caso de Cadu, foi utilizado o coma induzido pra evitar dor ou desconforto, além do organismo dele poupar energia pra se recuperar mais rápido, só que mesmo após interromper a administração dos remédios ele não despertou.

— A gente não sabe quando isso vai acontecer, mas o Cadu está sendo monitorado e recebendo todos os cuidados necessários. Não há com o que se preocupar.

— Mesmo? Então, porque ele não acorda?

— O organismo dele está levando mais tempo que o necessário pra metabolizar a medicação.

— Se isso podia acontecer, por que vocês colocaram ele em coma?

— É que o quadro dele era tão grave que o risco da sedação era menor que operá-lo naquele estado.

Entretanto, o doutor garantiu que não haveria sequelas do coma induzido, talvez do acidente, mas pra determinar isso eram necessários exames mais detalhados, a serem realizados quando ele acordasse. Ainda assim, o médico se mostrou otimista que isso fosse ocorrer logo, aí poderiam determinar qual o melhor tratamento a ser utilizado.

Independente disso, Cadu teria acompanhamento dos melhores profissionais, como neurologista, ortopedista, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional e mesmo que precisasse se readaptar as atividades diárias, receberia todo suporte pra manter o máximo de independência possível.

“Felicidade consiste em várias doses de perdão e um bocado de amnésia.”

— Caso seja necessário, o Cadu terá ajuda psicológica, pois a perda da capacidade física pode alterar a autoestima e até causar depressão, mas mesmo que seja constatado tetraplegia, ainda há chance de recuperação total ou parcial dos movimentos, claro que tudo depende da gravidade das lesões e da velocidade do organismo dele em se recuperar.

— Preciso ver meu filho, agora! – Lourdes estava aflita.

— A senhora não quer um esperar mais um pouco, dona Lourdes?

— E quanto tempo seria? – Ele ficou desconfiada.

— Só mais uns dias.

— Doutor, preciso ver meu filho agora. – Lourdes falou numa calma tão grande que até ela mesma se espantou.

Pedro olhou pra Marcos, de soslaio, que assentiu com a cabeça.

— Vamos, então? – Lourdes nem esperou o médico terminar de falar e já estava de prontidão. – Mas devo alertar a senhora que, apesar do estado dele ser melhor, talvez possa parecer o contrário.

— Tudo bem, estou preparada! Só preciso ver meu Cadu.

— Me acompanhem, então, por favor! – Padro abriu a porta e saiu andando.

Logo atrás dele, seguiam os pais. Como Marcos já tinha tido a chance de acompanhar Cadu algumas vezes permaneceu sério, já Lourdes não conseguia esconder a felicidade de, finalmente, poder ver seu filho.

Cada passo parecia aumentar mais o calor em seu coração, enquanto o sorriso se espalhava intenso os olhos brilhavam, tamanha era a felicidade daquela mãe.

Eles pegaram o elevador e subiram um, dois, três, quatro, cinco, seis andares, quando Lourdes pensou que iam continuar nessa até chegar ao topo do prédio, a cabine parou e as portas se abriram, empolgada, ela saiu rapidamente, mas Marcos a puxou pro lado contrário, então eles caminharam até o quinto quarto.

Na parede do quarto havia um vidro que permitia uma visão completa de seu interior, sem que necessitar entrar, conforme Lourdes se aproximou, sentiu o coração prestes a saltar pela boca – ela nunca tinha estado tão nervosa assim antes, nem mesmo no dia do casamento.

“Prosperidade não se resume a riquezas ou posses, mas aos momentos que passamos com quem nos faz feliz”

Quando chegou perto o suficiente pra ver lá dentro, os olhos captaram alguém inerte, em cima do leito, todo enfeixado e com gesso nos braços e pernas, além do rosto todo machucado, instantaneamente o sorriso se perdeu numa face sem expressão. Lourdes ficou em choque, a múmia ali em nada lembrava o garoto atlético e lindo que fazia sucesso com as garotas, não podia ser Cadu, ele tinha saído de casa tão arrumadinho e cheiroso.

Com os olhos carregados de dor, Lourdes virou na direção do marido, o rosto impassível dele a fez perceber de que eles não estavam no quarto errado, isso a deixou estarrecida, só aí ela percebeu que não estava pronta pra ver o filho daquele jeito – pelo menos não ainda.

Ela então vacilou, como se fosse cair, na mesma hora Marcos a segurou.

— Você está bem, querida? – Ele estava todo preocupado.

— Sim, só preciso de um pouco de ar. – Lourdes respirou fundo, enquanto se apoiava no esposo.

Já do lado de fora do prédio, ele perguntou se ela se sentia bem e a esposa afirmou que sim, então se sentaram no banco de pedra, que ficava perto da entrada principal.

— Por isso não queria que você soubesse ou visse o Cadu assim, querida! Sabia que não ia te fazer bem.

— Tudo bem, amor, foi só um susto. – Ela olhou o relógio. – É melhor você ir, se não vai se atrasar pro serviço.

— Certeza que você está bem? – Marcos perguntou olhando fundo nos olhos da esposa.

— Sim, pode ir! A gente se encontra em casa. – Ela sorriu. – Trabalhador amigo. – Lourdes puxou.

— Na paz e no perigo! – Marcos continuou.

— Jesus está contigo! – Ela concluiu os versinhos.

Aquela era uma benção em forma de saudação que eles repetiam toda vez que Marcos ia trabalhar, um costume tão antigo que mal lembravam mais como tinha começado, apenas que as palavras saíam automaticamente.

— Fica com D-s, querida! Até mais tarde. – E com um beijo ele se foi.

Lourdes não lembra bem o que aconteceu depois disso, apenas de ter acordado no hospital e estar recebendo soro. O doutor Pedro lhe disse que assim que Marcos partiu ela acabou desmaiando, felizmente os guardas a viram e ela foi levada pra dentro bem a tempo.

O médico alertou que ela estava novamente com hipoglicemia e Lourdes disse que eles tinham saído com tanta pressa, pra ver Cadu, que nem deu tempo de tomar o café da manhã.

— Aposto que a senhora também não comeu nada quando chegou ontem, acertei?

— Não, doutor! – Ela respondeu com um sorriso amarelo.

— Dona Lourdes, compreendo a agitação da senhora, mas se quiser continuar inteira até o Cadu melhorar, precisa se cuidar ou seu marido vai ter que aguentar ver vocês dois internados.

Ouvir isso num momento daqueles foi o mesmo que levar um violento tapa na cara, mas apesar de ter doído o choque de realidade a deixou mais consciente e, reconhecendo que o médico estava certo, ela agradeceu.

Lourdes seguia pra casa, quando o ônibus se aproximou da praça central, então ela desceu pra espairecer. Se sentindo um pouco zonza, aproveitou pra comprar um hot dog prensado e pegou o mais completo – o cheiro sentido, durante o tempo que aguardou na fila pra fazer o pedido, a fez perceber o quanto realmente estava com fome.

Pra comer, ela sentou num dos bancos de pedra, sempre bem asseados, aquela hora a praça ainda estava vazia, com exceção de algumas pessoas fazendo cooper, ainda assim era um sossego só. Lourdes aproveitou pra curtir o sol que, embora fraco, chegou espantando o frio com um calor agradável, além de dar uma bonita tonalidade ao ambiente – o céu estava de um azul bonito, com alguns traços alaranjados e outros mais rosáceos.

A grama da praça estava de um verde profundo e bem aparada, sobre a qual ela, Marcos e Cadu tinham feitos diversos piqueniques, além de jogar dominó – agora Lourdes não tinha mais ninguém pra brincar consigo. No meio da praça havia um grande chafariz, onde Cadu tantas vezes entrou quando esquentava demais – ali era a diversão das crianças.

Mais à esquerda havia um coreto, em volta do qual eles se reuniam aos domingos pra acompanhar as apresentações realizadas ali – embaixo dele é que ficavam os banheiros públicos.

Sem esperar, um pombo pousou próximo aos seus pés, fazendo Lourdes lembrar que outra das diversões prediletas de Cadu era perseguir os pássaros. Ela foi jogar um pedaço do pão pro bicho, que parecia faminto, só aí se deu conta de que já tinha devorado todo lanche.

— Desculpe! – Ela riu. – Acho que estava com mais fome que você, amiguinho.

O pássaro a olhou sem entender, virando a cabeça de um lado pro outro, até levantar voo porque alguém passou fazendo cooper perto deles.

Depois que Cadu cresceu eles voltaram poucas vezes ali, o filho sempre estava ocupado, mas aqueles instantes haviam ficado registrados, não apenas nas fotos, mas também nas recordações que a faziam entender que prosperidade não se resume a riquezas ou posses, mas aos momentos que passamos com quem nos faz feliz – quanto a isso havia motivos de sobra pra ser grata a D-s [1 Tessalonicenses 5.18] por tanta felicidade e uma família que a amava demais.

Depois de um bom tempo de reflexão misturada a lembranças – bem quando o sol começou a arder – ela resolveu ir pra casa. Chegando lá, tudo estava como tinha sido deixado, a mesa continuava fartamente disposta, mas agora nada daquilo a atraía. Apesar de não gostar de desperdício, Lourdes se sentiu obrigada a jogar tudo fora – só o fato de olhar lhe causava certo asco.

Por volta das cinco da tarde chega Marcos, mas quase que não consegue entrar em casa, o lugar estava cercado pela imprensa, ele precisou desviar de vários repórteres que avançavam sobre si – todos querendo uma exclusiva.

Lá dentro, apesar das luzes acesas não encontrou a esposa, então começou a chamar por ela, mas não houve resposta, quando entrou na cozinha a achou agachada, perto do fogão.

Ao perguntar o que estava acontecendo, Lourdes falou que tinha ido pra casa descansar um pouco, mas quem disse que deu? Assim que a imprensa soube, os repórteres chegaram aos montes, insistindo pra falar com ela, mesmo trancando portas e fechando janelas, eles continuaram, ela até precisou desligar a campainha e o telefone, nem assim eles se desistiram, assustada e sem ter como os expulsar, ela se escondeu ali.

Marcos disse pra esposa não se preocupar que ia dar um jeito naquilo, então saiu pela porta da frente, disposto a enfrentar toda aquela corja que se amontoou querendo ouvir o que ele tinha a dizer.

Pouco depois ele retorna, o silêncio delatava que ele tinha obtido sucesso, mas quando entrou, encontrou a esposa sentada à mesa, com os olhos a verter lágrimas. Daí ele contou que pra dispersar o bando prometeu exclusiva pra uma das emissoras.

— Acho que isso não foi uma boa ideia, melhor cancelar a entrevista! – Marcos decidiu ao ver o estado de sua amada.

— Tudo bem, amor, precisamos falar. – A resposta inusitada o deixou surpreso, então ele convidou a equipe pra entrar e eles prepararam tudo.

A última coisa que Lourdes queria fazer naquele momento era aparecer diante das câmeras só pra relembrar o quanto tudo aquilo doía, ainda mais com o coração pesado como estava, mas se viu obrigada a encarar a mídia que não os deixaria em paz até se manifestarem e já que não tinha como escapar, ia aproveitar pra tentar conscientizar os jovens.

De princípio, Marcos concordou, mas ao ver esposa aflita, soluçando e falando com dificuldade, ainda assim insistindo em narrar o acontecido, achou que não tinha sido mesmo uma boa ideia.

Suzana, a repórter que conduzia a entrevista, ia fazendo as perguntas, enquanto Lourdes narrava os fatos, falando de como aquilo trouxe uma dor imensa pra eles. Quando Suzana questionou sobre o estado de Cadu, ela não aguentou e desandou a chorar, tão emocionada estava precisou da ajuda de Marcos pra ser retirada.

A entrevista acabou não saindo como Lourdes tinha planejado, ela se descontrolou e só ficou na defensiva – também, exaurida como estava e depois de ter que encarar perguntas que mexia em feridas recém abertas, a impressão foi de estar numa entrevista com o vampiro, onde foi sugada até a alma.

— Isso tudo é culpa daqueles jovens inconsequentes! – Ela gritou enquanto era carregada pra cozinha.


#proximoepisodio

Toda aquela barra que o casal vinha enfrentando havia sido causada por pura imprudência, talvez se Nandinho não tivesse insistido em sair antes da balada acabar e nem naquelas condições tudo podia ter sido evitado.

Mas a mistura de pensamentos ruins com entorpecentes acabou resultando numa decisão infeliz que retirou a vida dele e mais três amigos.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

Mishael Mendes

Um cara apaixonado por música, se deixar ele não faz nada sem uma boa trilha sonora. Amante de fotografia, livros, animais e comida boa – principalmente a da mãezona. Criou o blog e o canal pra compartilhar sua visão inversível da vida.