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Interrompido – O direito de viver (Episódio 20)
Doutor Pedro Gonzaga toma uma decisão que muda o destino de sua eternidade, trazendo um bem que os prazeres nunca proporcionaram.
Mishael Mendes access_time 17 min. de leitura
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As descobertas de Luan o deixaram maravilhado, quando, então, percebe o que realmente aconteceu começa a dançar.

Depois de muita espera, finalmente, consegue contato com doutor Pedro Gonzaga, daí conhece a camada de profundidade na história de Socorro.

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O pedido, em aceitar a Jesus, feito pelo médico, transbordou felicidade em Lourdes – e ela não era a única a estar assim [Lucas 15.7,10]. Então o pediu pra repetir suas palavras.

— Pai, criador que tudo sustenta por sua infinita graça e vontade [Apocalipse 4.11], aceito o sacrifício de Jesus pra resgatar a humanidade e que nos devolveu o direito de viver novamente contigo [2 Coríntios 5.18-19]. Agradeço por meu nome estar no Livro da Vida, desde o princípio [Salmos 139.16] e por poder começar a viver em comunhão contigo ainda nessa vida [Tiago 4.8]. Amém!

Quando o médico terminou a singela oração de entrega, provou uma paz da qual só conhecia de ouvir, mas nunca experimentara durante sua busca de prazer e autorrealização. Tudo nele estava numa harmonia incrível [Salmos 16.8-9] que lhe faltaram palavras pra descrever o próprio estado [Filipenses 4.7] – ele finalmente atingira o nirvana, sem esforço algum.

— E se nossos saltos na ciência fossem apenas passos no escuro, rumo ao desconhecido, que nos atrai pra perdição? – O médico sorriu ao repetir a frase que o fez compreender que sua busca seguia na direção errada.

A manifestação do silêncio confirmou o fim do relato, mas antes de Luan dizer algo, Fabiana se adiantou e desligou. A atitude o frustrou, pois a história suscitou dúvidas que esperava ser respondidas pelo médico.

O dia estava pra terminar, já as perguntas em Luan só aumentavam, foi quando chegou mensagem de Fabiana. Tão emocionado ficou que precisou de um esforço maior pra manter o celular na mão, o danado pulava feito sabonete e, por pouco, não saltou num mergulho fatal, mas ele o segurou a tempo.

Na mensagem, a garota perguntava se podia ligar e bastou mandar um joinha pro celular chamar.

“Na hora de salvar vidas não existe essa coisa de uma profissão ser melhor ou mais importante que outra, todas são necessárias e caminham juntas.”

— Perdão desligar na sua cara, mais cedo. Isso não se faz!

— Ah! De boas. – Embora tivesse desdenhado, foi de boas coisa nenhuma.

Ela explicou que precisou fazer isso porque o vô não tinha lembranças dos acontecimentos após a conversão. Daí que entrar no assunto podia ser estressante, por isso o esperou dormir pra se retratar.

Tempos depois do reencontro, doutor Pedro Gonzaga começou a ficar esquecido, ele nunca foi bom em lembrar onde deixava as chaves, mas a memória foi dando sinais de desgaste. Ele passou a confundir as salas de cirurgias, trocar nomes de remédios – algo facilmente corrigido pela equipe – além de ficar impaciente.

Como andava trabalhando demais, as causas foram atribuídas a estafa, mas temendo esquecer ferramenta dentro de algum paciente, resolveu fazer um exame. O diagnóstico de Alzheimer o levou a se aposentar por invalidez – o que pareceu acelerar o processo de perca de memória.

Foi assim que, de maneira triste, se encerrou a carreira de um dos cirurgiões gerais mais brilhantes do país.

A última visita de Lourdes o marcou a ponto de contá-la diversas vezes pra neta, enquanto o resto, a partir disso, passou a não mais existir e ele ficou incapaz de reter novas informações.

— É desolador ver alguém tão genial e querido se perder assim. – A voz de Fabiana trazia pesar. – Às vezes ele nem se reconhece no espelho, em outras me mostra, orgulhoso, a foto de sua neta dizendo o quanto ela é esperta e que vai seguir na área da saúde, como ele.

Ao que ela respondia ter acontecido, mas que se tornou enfermeira, assim podia cuidar dele, e lhe beijava a testa.

— Por que você está triste? Não fica assim! A aflição dura apenas um instante e, em breve, toda tristeza vai terminar [2 Coríntios 4.17-18], então haverá descanso e paz. – Ele dizia quando parecia recobrar a lucidez.

“É normal sentir raiva, afinal, ela é uma reação natural a nossa percepção de impotência, o que não dá pra fazer é guardá-la, pois ela acaba se tornando um veneno mortal.”

Momentos assim eram raros e a pegavam total de surpresa, comovendo-lhe – ainda mais devido à segurança demonstrada pelo vô [Salmos 16.10-11]. Então, ela se punha a admirá-lo, até ele retornar a condição de esquecimento e perguntar o motivo de ser encarado.

Por viver ocupado, quando mais novo, o tempo livre do vô era usado pra curtir. Ele nunca quis relacionamento, acreditando que isso fosse atrapalhar a carreira, até receber uma ligação.

Nela a vó avisava estar grávida, ao que vovô não deu o menor crédito, dizendo não ser dele, entre outros argumentos. Não satisfeita, ela começou a ligar insistentemente, como ele não atendia, as chamadas começaram a vir de diferentes números, contendo ameaças.

Sem saber de onde viria a próxima ligação – que podia surgir até mesmo de madrugada – ele trocou de número. O problema é que ela deu um jeito de descobrir, mesmo o trocando diversas vezes.

Durante anos ele renegou mamãe, até a vó emitir a sentença final, aparecer no emprego dele. O vô não deu a menor bola, até avisarem que alguém o procurava.

— O que está fazendo aqui, ficou louca!? – Embranquecido pelo susto, ele recriminou baixinho pra não chamar atenção.

— Te avisei que ia vir! – Ela respondeu afrontosa.

Insistindo que a filha não era sua, pediu pra ser deixado em paz, a vó concordou desde que ele fizesse o teste de paternidade. Como esse era um pequeno preço a pagar pelo sossego – até porque conseguia o teste na faixa – aceitou numa boa.

Mas, mesmo após o teste dar positivo, ainda tentou escapar, pois o interesse da vó era só a grana dele, até ser obrigado pela justiça a pagar pensão.

Anos depois mamãe apareceu na casa dele, pedindo abrigo porque engravidou de mim e o pai não quis me assumir e, como a vó, disse pra abortar. Decidida a me ter, ela fugiu de casa, afinal, a vó nunca se importou com ela, só fazia gastar o dinheiro da pensão, com o bêbado do companheiro dela.

“A aflição dura apenas um instante e, em breve, toda tristeza vai terminar, então haverá descanso e paz.”

Sem ter aonde ir, o que lhe restou foi apelar pro vô que, mesmo comovido, ponderou. Ele nunca cuidara de criança, aí aparecia uma adolescente desconhecida o chamando de pai – ainda por cima grávida.

Ele tentou argumentar que não tinha o menor talento pra cuidar de um ser vivo, ainda mais uma garota em condições que exigiria atenção. E propôs arrumar um lugar pra mamãe ficar, além de entrar na justiça pros pagamentos serem feitos direito pra ela.

Ao ouvir a sugestão, mamãe pediu pra não fazer isso, pois seria levada pelo conselho tutelar e, se pudesse ficar, ele não teria tantos gastos. Ela comia pouco, além de poder cozinhar e limpar a casa, o que reduziria gastos com diarista.

Tocado pela forma humilde de mamãe suplicar uma pequena parte do que era seu por direito – além de considerar a economia resultante disso – ele assentiu. Com isso ganhou o melhor abraço que já recebera, quando, empolgada, ela saltou em seu pescoço.

Compartilhar a casa com uma garota resultou na perca de parte da privacidade, mas com uma companhia atenciosa e dedicada ele logo acostumou. Era bom demais encontrar uma comidinha fresca e deliciosa lhe esperando ao chegar do trabalho.

Quem não gostou nada foi a vó que entrou na justiça alegando negligência nos pagamentos, além de sequestro. Mas após o conselho tutelar verificar a forma degradante que viviam os irmãos mais novos de mamãe ela perdeu a guarda deles.

Tendo que responder por abandono de incapaz, ela só não foi parar na cadeia porque alegou problemas com drogas. Já o companheiro dela fugiu sem nunca ser encontrado, alguns acreditam que ele vacilou com o tráfico e acabou desovado no Tietê.

Diferente das desculpas, quando nasci, vovô se mostrou atencioso e cuidadoso, principalmente quando mamãe estava na faculdade. Se apegando ainda mais quando ela – que já tinha a saúde debilitada – faleceu de pneumonia.

Mamãe fez falta, mas eu era pequena demais pra entender a dimensão da morte, também vovô sempre me mantinha entretida com as histórias do trabalho, só conseguia pensar “Uáu! O vô é super-herói. Quero ser legal assim também!”.

Optei por medicina, mas no meio do curso mudei pra enfermagem, porque vovô foi diagnosticado com Alzheimer. Alguns colegas acharam um disparate rebaixar minha formação, ainda mais sendo tão talentosa.

— Na hora de salvar vidas não existe essa coisa de uma profissão ser melhor ou mais importante que outra, todas são necessárias e caminham juntas. – Indignada por ouvir aquilo de futuros profissionais da saúde, lhes disse na lata.

O que chateou mesmo foi ouvir da minha professora favorita que, seria melhor reconsiderar a decisão. Médicos ganham mais, às vezes, fazendo menos, enquanto enfermeiros se dividem em vários turnos pra complementar a renda, então agradeci ao conselho, mas continuei firme.

Após me formar fiz residência – algo novo pra enfermagem naquele tempo. Me especializei em Trauma, Urgência/Emergência e Terapia Intensiva, além de Segurança do Paciente, Assistência Domiciliar e em Saúde do Idoso, enquanto cuidava do vovô.

Isso era o mínimo a fazer, pois meu destino podia ser outro, não fosse vovô, talvez eu não tivesse nascido, fosse dada ou lançada aos porcos – vai saber. A vó não queria mais uma boca pra alimentar, embora usasse as que tinha apenas pra receber auxílio do governo, enquanto as largava a própria sorte.

Mesmo ela sendo ruim, além de nunca procurar saber de mim, não guardei mágoa. Vovô ensinou que é normal sentir raiva, afinal, ela é uma reação natural a nossa percepção de impotência, o que não dá pra fazer é guardá-la, pois ela acaba se tornando um veneno mortal.

— Independente das mudanças no percurso, inda vou fazer medicina. Quero atuar no Médicos sem Fronteiras ou na Cruz Vermelha. – Do outro lado da ligação foi possível percebê-la resplandecer, tamanho o entusiasmo.

Durante toda conversa, Luan ouviu interessado, afinal, Fabiana precisava disso. Suas interações foram apenas com “aham”, “continue” ou fazendo perguntas pra ajudar a esclarecer alguns pontos da história.

Embora não tivesse sanado todas as dúvidas, teve muito o que pensar ao finalizar a ligação. Fabiana pareceu mais interessante e simpática e, além da admiração, passou a sentir uma conexão – não por menos, após ouvir tanto sobre dela.

Na manhã seguinte, ele acordou mais disposto, embora intrigado com as peças que ainda faltavam no quebra-cabeças. Sem esperar pelo café, foi dando início as pesquisas.

Sentindo-se inspirado, usou as palavras-chave que fez o Google lhe entregar o perfil de Socorro no Lattes. Passando os olhos, desceu rapidamente pra seção onde informava os lugares que atuou.

— Será que foi lá onde a Socorro conheceu a Lourdes? – Afoito, interrompeu a leitura ao ver que ela atuara no hospital onde Cadu foi internado. – Não pode ser! Ela ainda não era enfermeira.

A data de atuação confirmou sua suspeita, ela iniciara carreira posteriormente – de onde saiu, anos depois, indo pra um hospital referência em trauma. Um fato curioso é que o falecimento de Cadu ocorreu no mesmo ano de seu transplante de coração.

Como se as pesquisas fossem direcionadas, ele foi compelido a prosseguir, até o mais além da história começar descortinar o véu que a ocultava. Nisso, encontrou a seguinte reportagem: “Trágico acidente, no interior de São Paulo, fere gravemente um jovem e deixa mortos outros quatro”.

— Meu filho… voltava do trabalho… quando um carro… acertou ele… – Falar estava sendo mais difícil do que Lourdes imaginou. Cada palavra parecia marretar mais fundo um afiado cravo em seu coração.

— Esse é um momento delicado, afinal, não é fácil pra uma mãe recordar tudo isso.

— É tanta dor que parece que não vai parar!

— Embora só dê pra ter uma vaga noção, a gente compreende, dona Lourdes. – Transmitindo forças, Amanda lhe segurou as mãos. – Só a senhora é capaz de saber o tamanho dessa dor. – E ela virou pra câmera. – Vamos acompanhar agora a reportagem sobre esse trágico acidente, enquanto essa mãe, abalada, respira.

— Na manhã da última segunda-feira, por volta das sete horas, um trágico acidente chocou os moradores de Araraquara, uma cidade do interior de São Paulo, acostumada ao sossego e tranquilidade. – Na reportagem, Amanda narrava os fatos na frente de um veículo totalmente destruído.

Após a introdução, alguns vizinhos surgiram falando sobre a quietude do local e o quanto ficaram impressionadas com a violência do acidente.

— Carlos Eduardo Mendez, de 21 anos, voltava do trabalho quando foi atingido na porta de casa. O veículo, um BMW X6M Black, era conduzido por Fernando Montes, o Nandinho Baladas, de 20, famoso produtor de eventos de música eletrônica. – Imagens do rastro da morte, exibiram a rua com sangue e cacos de vidro. Amassado, serrado e de ponta cabeça, o carro parecia saído de um processo de compreensão de ferro-velho tamanho o estrago. – Voltando da rave que costumava realizar em Belo Horizonte, a terceira maior aglomeração urbana do Brasil, com o primo Daniel Montes, de 17, e os amigos Tiago Nerez, de 19, e Lucas Rufino, de 23. Nandinho dirigia em alta velocidade, quando perdeu o controle da direção, atropelando violentamente Cadu. Depois de passar por cima dele, o carro capotou, ao atingir um poste que acabou tombando sobre o veículo.

Stories dos garotos se divertindo na festa – com luzes coloridas piscando forte, enquanto o som alto dominava – inclusive de Nandinho zoando o primo, foram exibidas.

— O laudo do IML apontou uso de psicotrópicos em todos os passageiros, inclusive no motorista, o que pode ter sido a causa do acidente. Segundo postagem do perfil do evento, a rave, que se iniciou às 23 horas de domingo, se encerraria as 12 horas do dia seguinte, aproveitando um feriado em Minas. Só que Nandinho resolveu sair mais cedo, retornando pra Araraquara, onde todos residiam.

— O Nandinho tava bolado porque o Dani, primo dele, ficou buracado, mas depois o garoto voltou. Daí quando tava tudo de boas ele quis ir, do nada. – Monica relatou o ocorrido por telefone, após ser localizada pelas fotos onde seu perfil foi marcado.

— Quer dizer que ele estava mais estranho que o normal? – Amanda especulou.

— Na verdade, não! – Ela corrigiu. – O Nandinho era um cara bem good vibes e divertido, mas quando cismava com algo era melhor não contrariar.

— Cadu, como Carlos Eduardo é tratado pelos familiares e amigos, trabalhava no Centro Industrial de Araraquara e era um garoto tranquilo que amava os pais. – Comentários dos vizinhos, falando o quanto ele era espontâneo, respeitador e querido pela comunidade local, evidenciou ser alguém marcante, que não passava despercebido. – Nesse momento, Cadu se encontra em estado grave na UTI, já os quatro rapazes não sobreviveram ao impacto. Pela serenidade no rosto dos passageiros, eles deviam dormir quando ocorreu o acidente, enquanto Nandinho foi encontrado com os olhos abertos e uma expressão de terror. A remoção dos corpos, realizada pelos bombeiros, levou quase o dia todo, pois estavam misturados as ferragens do veículo.

Pra deixar tudo mais aterrador, foi exibido um vídeo amador mostrando, a distância, os bombeiros serrando partes do carro, enquanto um bando de curiosos se aglomerava em volta da fita de isolamento.

— Segundo o departamento de entorpecentes da polícia, drogas como LSD e ecstasy ou balinha e doce, como são conhecidas nas raves, têm uso indiscriminado nessas festas, como recreação. Já que permitem viajar ao som de músicas psicodélicas, pior ainda quando combinadas, pois causam efeitos psíquico-físicos intensos.

— O LSD é uma droga forte, ela altera a percepção visual e sonora, permitindo ver cores mais vibrantes e sons envolventes, durando de 8 a 12 horas. Já o Ecstasy deixa o corpo leve, dando a sensação que todos são amigos e desperta uma forte atração física, além de causar euforia que leva a dançar a noite toda, seu efeito dura de 4 a 8 horas. – O delegado da Delegacia de Repressão a Entorpecentes esclareceu. – Apesar de não viciarem, elas causam náuseas, desidratação, hipertermia, hipertensão, paranoia, alteração da noção temporal e espacial, confusão, despersonalização e perda do controle emocional. Além disso, os efeitos podem se repetir até três horas ou mesmo um ano depois do uso.

— O delegado informou ainda que até 1995 não constava nas estatísticas da PF uma única apreensão de ecstasy em todo o território nacional. – A âncora complementou assim que a reportagem terminou. – Agora voltamos ao vivo, com a repórter Amanda Alves, direto da casa dos pais de Cadu, que enfrentam um momento delicado, já que o único filho se encontra na UTI, em coma induzido.

— Meu Deus… por quê?… – O desespero era patente em sua voz.


#proximoepisodio

Em meio a uma entrevista conturbada, Lourdes tenta usar a oportunidade pra alertar sobre o perigo de misturar drogas com direção, mas um mal-estar lhe faz perder o controle e a transmissão precisa ser encerrada.

O final da entrevista traz uma revelação surpreendente, deixando Luan, sem mesmo, ter como reagir ante tal descortinar.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

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