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Interrompido – Proposta indecente (Episódio 14)
Doutor Pedro Gonzaga é flagrado numa situação íntima. Lourdes faz uma proposta improvável e convence o diretor do hospital.
Mishael Mendes access_time 15 min. de leitura
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O médico dá uma notícia desagradável pro casal, mas ao invés de lamentar, Lourdes se recusa a receber a sentença e usa da fé pra profetizar que aquilo não se cumpriria na vida de seu filho, mas quando o tempo passou sem qualquer sinal de melhora, tudo que lhe restou foram lágrimas.

Não sendo isso suficiente, ainda teve que lidar com o nome de Nandinho sendo falado constantemente nos jornais, lhe fazendo o estômago revirar.

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É fato que doutor Pedro Gonzaga foi pego total de surpresa – chegou até a sentir uma pequena descarga elétrica se espalhar pelo corpo, devido à forma inesperada com que a porta de sua sala foi aberta e ainda mais por quem realizou tal ato.

— Me perdoa chegar assim, doutor, é que tenho algo muito importante pra dizer.

— Tudo bem, dona Lourdes. – Tomando mais pela curiosidade, ao vê-la com um semblante bem diferente que o de minutos atrás, jogou a irritação por ser flagrado num momento privado de escanteio e a convidou pra entrar.

Aproveitando a atenção, ela se ofereceu pra ajudar nos cuidados do filho, o médico negou com veemência, dizendo não ser essa a política do hospital, onde contavam com os melhores profissionais pra isso.

Incisiva, ela afirmou precisar fazer isso por Cadu, também por ela mesma e foi tão persuasiva que dobrou até mesmo o doutor Adriano da Cunha, conseguindo a autorização desejada – o que ela não tinha de tamanho, sobrava em persistência.

Precisando se certificar quanto aos melhores cuidados do filho, além de passar a maior parte do tempo ao lado dele, ela escolheu a opção mais desgastante por ser a mais eficaz.

Pra prestar uma melhor assistência a Cadu, o tempo passado fora do hospital, fosse em casa ou durante o trajeto de deslocamento, ia lendo e assistindo tudo que pudesse ser útil, além de grudar nas enfermeiras pra aprender práticas mais efetivas – a ponto de se tornar uma das “estagiárias” mais engajadas ali.

Daquele momento em diante, o tempo passou tão rápido que os dias pareciam ser arrancados violentamente do calendário, como se nem merecessem ser registrados e, de fato, talvez assim fosse melhor, pois o sofrimento contido neles, certamente, teria sido mais intenso, caso o tempo não tivesse sido abreviado [Mateus 24.22].

“As pessoas não precisam da certeza de uma ciência que é falha e mutável, o que realmente necessitam é de D-s.”

Ainda que tivesse vários pacientes sob a tutela, a passagem dos dias levou doutor Pedro Gonzaga a se apegar mais ao paciente 237, comovido pela garra de Lourdes, numa desgastante dedicação, por amor ao filho. Isso o tocou a ponto de mudar a própria mentalidade, fazendo-o concluir que as pessoas não precisam da certeza de uma ciência que é falha e mutável, o que realmente necessitam é de D-s.

Tamanha lucidez o fez rogar pela rápida melhora de Cadu, mesmo ante de um quadro com remotas chances disso acontecer e ele sendo ateu convicto.

Passados alguns meses, sem qualquer progressão no estado do paciente, o médico chamou seus pais pra uma conversa e questionou se Cadu tinha um último desejo.

— Tinha… – Marcos começou.

— O de continuar vivo! – Lourdes cortou o marido. – Porque essa pergunta, doutor? – Ela estava séria.

Aproveitando a deixa, o médico desenganou os dois, além de não haver melhora, a probabilidade era de Cadu vir a sofrer morte encefálica.

— Mediante a isso, gostaria de sugerir a vocês…

— Desligar os aparelhos? – Lourdes se adiantou. – Isso nunca! Só D-s tem direito sobre a vida! – Ela fez questão de frisar o direito inequívoco de D-s [1 Samuel 2.6].

— Nisso concordo com minha esposa. – Marcos fez coro, com o semblante preocupado.

— Antes ter meu filho vegetando, mas vivo, do que nunca mais sentir o calor dele em meus braços.

— Compreendo e jamais proporia nada desse tipo a vocês! – O médico os acalmou com isso.

— Então, o que o senhor queria dizer? – Lourdes se preocupou.

— Sei que falar de morte nunca é agradável, ainda mais num momento desses, mas vocês já pensaram no que fazer caso o Cadu nos deixe? – O médico começou, tentando ser o mais delicado possível.

“Misericórdia é tomar a angústia alheia e se responsabilizar por ela, tendo os mesmos sentimentos, mas enxergando além da aflição.”

— Não estou gostando nada do rumo dessa papo! – Ela logo avisou, já se impacientando.

— Gostaria apenas de propor uma conversa com um agente do CNCDO, afinal, seria bom saber que é possível doar os órgãos do Cadu e com isso…

— Doutor, meu filho está vivo, então não quero ter essa conversa! – Alterada, ela interrompeu.

— Tudo bem, respeito a opinião de vocês! Perdoem-me se minha sugestão pareceu ofensiva, pois não foi essa a intenção.

O médico suspirou, deixando transparecer puras intenções, mas Lourdes estava tão chocada com a ideia que não o viu com bons olhos e não percebeu o esforço dele pra tentar reduzir a dimensão daquela dor que também tinha se tornando sua – misericórdia é tomar a angústia alheia e se responsabilizar por ela, tendo os mesmos sentimentos, mas enxergando além da aflição.

— Sinto muito, doutor, mas temos que ir! – Lourdes levantou bruscamente, puxando Marcos.

— Não quero apressar as coisas, mas se vocês optarem por isso seria bom deixar tudo certo o mais rápido possível. – O médico tentou argumentar antes da porta ser fechada.

Incomodada com a proposta indecente, Lourdes resolveu ir pra casa com o marido pra arejar a cabeça. Ela não gostou nada do que ouviu, a sensação foi a mesma de evocar a própria morte pra vir buscar seu filho.

— Ele só pode estar louco! – Ela disparou.

— Querida, ele só disse aquilo…

— Quer dizer que você concorda Marcos Viana Mendez? – Ela encarou o marido chocada. – Você viu sobre o que aquele açougueiro queria falar, meu filho nem morreu e já querem esquartejá-lo!

— Não é isso querida! Acho que a gente devia, pelo menos, ouvir o que o agente lá tem a dizer.

“Mais conhecimento implica em mais responsabilidade, não em novas formas de se obter vantagens.”

— Não quero ouvir nada! Eles querem desmontar o Cadu igual Lego, como se nosso filho fosse apenas um objeto, não aquele ser incrível que saiu de mim. – Ela começou a chorar. – Tenho cuidado todos esses meses dele e você precisa ver como nosso Cadu está, ele parece perceber todo meu empenho e estar lutando pra voltar pra gente.

Em meio as lágrimas, um sorriso se formou no rosto de Lourdes, enternecido, Marcos estendeu o braço, puxando-a pra perto de si e lhe deu um beijo, sem perder a atenção na estrada.

— Mas, querida, nós fizemos uma promessa ao Cadu. – Ele relembrou a esposa [Salmos 15.4].

— Ele pode ter feito um pedido, mas quem decide agora é a gente e não quero ver meu filho despedaçado, é isso!

— Nós prometemos. – Ele reforçou [Eclesiastes 5.4-5], assim que desceram do carro.

— Sei bem, mas… preciso pensar, neguinho, preciso mesmo. – Ela abraçou-lhe o pescoço chorando copiosamente.

— Tudo bem, querida, me perdoe! – Ele tentou se retratar pela insistência. – Agora vamos entrar que você precisa de descanso.

Exausta, Lourdes se deixou conduzir pra dentro, ela estava precisando mesmo de uma pausa, tanta dedicação somada a conversa com o médico acabou sendo demais e seu corpo sentiu o peso do estresse físico e emocional.

— TOC! TOC! TOC! – A porta se abriu logo após as batidas, Lourdes apenas virou a cabeça e viu ser doutor Pedro Gonzaga.

— Licença, posso entrar?

— Claro doutor, como não? – Ela disse impávida, enquanto segurava a mão de Cadu.

— Gostaria de falar algo importante.

— Se é sobre…? – Ela já foi levantando da cadeira, pronta pra deixar o médico falando com as paredes.

— É sobre o pedido do seu filho…

“Perdoar é entregar a si mesmo a chave da liberdade.”

— Não acredito que o Marcos falou disso pro senhor!? – Lourdes ficou chocada por ser traída desse jeito pelo próprio marido.

— Dona Lurdes, pode até não ser na mesma escala, mas compreendo sua dor. Existe uma imensa fila de pessoas precisando de transplante e, devido à demora, algumas acabam vindo a óbito enquanto esperam, por isso doar órgãos é tão importante, além disso, o Cadu pode salvar até sete vidas, o que seria um grande ato de generosidade e amor ao próximo.

— E meu filho vai ficar todo despedaçado? – Enquanto ouvia, Lourdes permaneceu de cabeça baixa, ao levantá-la estava com o rosto banhado em lágrimas.

— Isso não vai acontecer! Nove em cada dez pessoas têm o mesmo receio que a senhora até entender que a retirada dos órgãos é feita através de cirurgia que procura reconstituir o corpo após finalizado o processo. – Ouvir aquilo a tranquilizou. – O corpo do Cadu ficará como antes, sem que dê pra perceber nada visualmente, a senhora até poderá fazer o funeral de forma normal.

— Funeral nada! – A palavra serviu de gatilho pra fazê-la se alterar novamente. – Meu filho ainda está vivo, o senhor não percebe?

— Sim, mas ele… – O médico tentou lembrar que Cadu podia ter uma morte cerebral a qualquer momento, por isso precisavam estar preparados pra que isso não invalidasse a captação dos órgãos, já que o processo precisava ser realizado com urgência.

— Chega, doutor! – Ela respirou fundo. – O senhor pode nos deixar a sós?

— Tudo bem, dona Lourdes! Peço apenas que considere a questão, já que esse era o desejo do Cadu.

Daquele ponto em diante, os dias passaram se arrastando feito lesma, e nada da morte cerebral aparecer, apenas surgiu como possibilidade nos exames, de alguma forma o garoto seguia resistindo. Temendo uma eutanásia enquanto estivesse fora, Lourdes passou a ficar cada vez mais tempo na UTI.

Tamanha dedicação exigia sair de casa cada vez mais cedo, voltando já tarde da noite, a ponto de ter de abandonar as encomendas. Como os vizinhos não a viam mais, em qualquer lugar que fosse, acreditaram que ela também estivesse internada – o que, por outro ângulo, não deixava de ser verdade.

Além de Marcos, o médico e as enfermeiras aconselhando pra evitar tanto desgaste, Fábio e Beatriz ainda tentaram convencê-la, mas Lourdes se mostrou irredutível. Após muito insistir e ver que não tinha jeito de demover uma mãe de seu zelo, geral deixou de lembrar ir mais devagar, embora ela estivesse visivelmente exaurida.

Talvez o que mais estivesse pesando fosse o fato do médico insistir no assunto da doação de órgãos, bastava vê-lo pra o cortar, ela nem o deixava falar, pois já sabia do que se tratava mesmo, isso quando não o largava falando só.

A insistência no assunto foi gerando certa desconfiança, devia haver algum ganho pro doutor Pedro Gonzaga com aquilo. Cansada do assunto, ela aproveitou o conhecimento que agora possuía pra tentar mudar de médico – mais conhecimento implica em mais responsabilidade, não em novas formas de se obter vantagens – assim o denunciou, ao conselho do hospital, sob acusação de quebra do juramento hipocrático.

Apesar de não obter o resultado esperado, pelo menos conseguiu manter o médico mais distante, assim pode ter um pouco mais de alívio, o assunto era angustiante pra ela, pois sugestionava não haver mais jeito pra Cadu, quando ela sentia o contrário.

Quando finalmente conseguiu desligar a insistência do doutor Pedro Gonzaga, quem começou a pesar o assunto foi o marido, dizendo precisar doar os órgãos do filho.

— Mas que coisa, Marcos! Não bastava aquele médico me perturbando no hospital, agora você também, será que não posso ter descanso em minha própria casa?

— Mas esse era o desejo dele… – Ele começou, mas foi interrompido.

— Marcos, se você não quiser me fazer ter um AVC, faça o favor de não tocar mais nesse assunto!

— Tudo bem, querida! – Ele, então se afastou.

Na companhia do silêncio, a respiração de Lourdes foi ficando menos densa, o sangue voltou ao fluxo rotineiro e ela se deu conta de que havia sido enérgica sem qualquer necessidade, como se as palavras e o drama não fossem suficientes pra tentar barrar o assunto proibido, então, foi atrás do marido [Provérbios 15.1].

Marcos estava na cozinha e acabara de preparar café, naqueles dias frios não havia nada melhor do que uma boa xícara da bebida revigorante servida bem quentinha. Lourdes o surpreendeu dando uma golada e aproveitou pra se desculpar pela forma bruta que falou com ele.

— Não tem problema, amor! Sei que isso ainda é bem difícil pra você. – Compreensivo, como sempre, Marcos soprou a fumaça da xícara que foi na direção de Lourdes, carregando o aroma do café ainda fresquinho.

— Acho que também vou querer um pouco, neguinho! – Lourdes ficou atiçada com o cheiro e pediu toda animada.

O esposo pegou uma xícara, encheu o com o líquido e entregou pra ela que deu uma boa golada, o café estava bem quente, do jeito que Lourdes gostava e tão logo chegou ao organismo a deixou mais desperta, tanto que começou a notar que Marcos diferente, suas passadas pareciam destoar, assim como os gestos e o olhar, ela questionou se estava tudo bem, mas ele insistiu que sim.

Observando o esposo com mais atenção, notou que ele parecia carregar um peso, provavelmente seria essa a causa dos passos mais lentos, assim como da expressão de cansaço, até a fumaça advinda da xícara dele parecia acentuar a separação entre os dois.

Acostumada a ter no esposo seu porto seguro, era estranho ter essa percepção de Marcos, ele sempre foi mais reservado quanto aos sentimentos, só que sua reticência e paciência não significavam já ter se conformado com a ideia de perder o filho. O silêncio era sua forma de demonstrar o quanto sofria, pois, havia desejado demais aquele herdeiro e se o perdesse não tinha como o substituir de forma alguma.

Dando-se conta disso, Lourdes se aproximou do marido e, o olhando penetrantemente, pediu perdão por estar tão mergulhada na própria dor a ponto de, se quer, se dar conta do quanto ele sofria também, Marcos disse que isso não era problema, pois havia casado com ela pra lhe fazer feliz, não o contrário e que a promessa que fez foi estar junto tanto na felicidade, quanto na dor.

— Amor, você pode falar comigo, dizer o que está sentindo. – Ela insistiu, mas o esposo permaneceu de cabeça baixa, sem ter como encará-la.


#proximoepisodio

Lourdes acertou, Marcos não estava bem e isso não tinha relação apenas com Cadu, mas com algo enraizado a ponto de o impedir externar os sentimentos, assim ele preferia o silêncio a perder o controle e demonstrar fraqueza.

Quando consegue falar, a esposa percebe que ele vinha carregando um fardo pesado demais, apenas pra evitar fazê-la sofrer e em meio aos desabafos Marcos descobrirá que perdoar é entregar a si mesmo a chave da liberdade [Marcos 11.25-26].

Ósculos e amplexos,

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