#episodioanterior

Nandinho e os amigos partiram pra uma longa viagem, mas o sol – que costumava estimular – acabou derretendo os garotos, tudo porque alguém esqueceu de arrumar o ar-condicionado.

Depois de alguns briguinhas, muita zoeira e várias horas na direção, eles chegaram a Belo Horizonte e quando a noite cobriu tudo com seu manto e o som dominou o ar, a vibe boa o fez lembrar o motivo de insistir em todo aquele trabalho.

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Aviso: Esse episódio contém descrições reais que podem ferir sua sensibilidade!

Mesmo famosinho, Nandinho gostava de transitar entre a galera, pra ver o quanto estavam curtindo, era legal ser puxado pra alguma foto ou Stories, daí já aproveitava pra fazer uns também, que logo ganhavam milhares de visualizações – além de verificar se estava tudo funcionando direitinho.

Foi quando, do meio da alegria pocando ali, uma sensação ruim, saracoteando feito lacraia, se aproximou sem ser notada, chegando até estar perto suficiente pra dar uma ferroada dolorosa, quando o veneno se espalhou por Nandinho, ele começou a se sentir péssimo – e, como se tivesse transtorno bipolar, ele foi do céu só inferno, de si mesmo.

Aquela negra percepção costumava intensificar até ele se perder nos pensamentos, ficando sem reação e com o corpo descontrolado. A sensação costumava ser disparado por diversos gatilhos como, por exemplo, uma prova da facu ou a preocupação com a próxima rave.

A ostentação, popularidade e grandiosidade dos atos de Nandinho, costumavam dar um ar de felicidade que eram constantemente compartilhados nas redes sociais, onde seguidores se amontoavam em números pra curtir e acompanhar tudo que ele postava, mas tantos momentos de descontração e alegria só serviam mesmo pra ocultar a vida corrida, desgastante e cheia de trabalho que ele costumava ter.

“É difícil manter o coração aquecido quando tudo a volta perdeu cor, sentido, destoou.”

Fazendo passar batido o trampo pra construir e manter empolgante tudo aquilo, além de conectar a geral a uma experiência exclusiva pra continuar gerando interesse. Uma das formas de garantir que as raves estivessem sempre lotadas estava no valor da entrada, existiam três faixas de preço, duas incluindo consumação, mas todas em conta – ganhando assim na quantidade – além de ter algumas gratuitas pra quem fosse mais rápido, botando nome na lista, e conseguisse chegar até às duas da manhã.

Só que a verdadeira causa, daquela sensação, surgiu a tempo suficiente dele nem lembrar quando foi que apareceu, ou seja, o exato momento em que deixou de se apropriar de si mesmo, perdendo-se nos pensamentos que sussurravam o tamanho de sua solidão, lembrando que, na real, os pais não o amavam, que ninguém ia conseguir fazer isso e ele acabaria só – é difícil manter o coração aquecido quando tudo a volta perdeu cor, sentido, destoou.

O tempo lhe fez entender que, independente do que iniciava aquilo, o vazio ia se aprofundando até se tornar físico, fazendo surgir uma dor a lhe consumir o peito – como se um buraco negro surgisse e sugasse todo seus sentimentos bons e a luz que havia em si. Daí o corpo ficava mais lento, enquanto a energia parecia convergir unicamente pro cérebro, deixando todo resto enfraquecido.

Era ruim demais ficar assim, mas ele já sabia como dar jeito – ou pelo menos como contornar a situação. Algo que descobriu aos doze anos, quando começou a frequentar os bailes perto de onde morava.

Rapidamente saiu a caça de Lucas, se arrastando por entre a multidão que, eriçada como estava, não tinham pressa alguma, assim ninguém notou como ele estava – nem tinha como fazer isso. Enquanto isso o coração pulava feito doido, foi quando conseguiu avistar o amigo e o puxou de lado.

Na hora Lucas soube do que se tratava e foi logo pegando o Key e fez uma carreirinha espessa que lhe deu pra cheirar – aproveitando pra fazer o mesmo. O pó adentrou as vias aéreas e quando chegou aos pulmões, entrou na corrente sanguínea e seguiu até alcançar o cérebro, onde liberou, através dos hormônios, uma sensação de calma e relaxamento que fez o coração desacelerar e um grande sorriso se formar no rosto.

— Peraí! – Lucas gritou próximo ao ouvido do amigo.

Quando Nandinho o olhou, ele passou a mão em seu nariz, retirando o pó que tinha ficado grudado nele.

— Pra garantir que essa noite seja inesquecível! – Lucas gritou, novamente, enquanto depositava, sorrateiramente, um saquinho na mão de Nandinho.

— Valeu, pai! – Ele aproveitou pra abraçar o amigo que logo se escafedeu na multidão.

“O corpo a gente transforma, o espírito se enobrece e o coração dispara a cada momento de prazer.”

Na semana, Lucas não costumava trampar muito, afinal, a parte dele consistia apenas em verificar a quantidade de insumos e solicitar abastecimento aos fornecedores, por isso acabava ajudando na divulgação. O máximo que fazia era cozinhar os vidros de Key por uns quatro minutos no micro-ondas, num prato com outro por cima, pra não vazar – algo que todo mundo queria ajudar, pra poder rapar as sobras – depois era só pesar e empacotar a mercadoria.

Já nos dias de rave, era difícil parar, fornecendo a viagem da galera – por baixo dos panos, claro – e mesmo contando com ajuda de distribuidores a procura acabava sendo maior, elevando, assim, os preços, ainda mais com uma mercadoria de qualidade. Antes da chegada de Lucas não se encontrava mais coisa boa e o que tinha em BH não dava onda nenhuma, então o sucesso foi instantâneo.

Sentindo-se mais leve, Nandinho voltou a observar a galera se divertindo, era gostosa aquela visão, ainda mais por saber que era responsável por proporcionar momentos assim. Ele, melhor que ninguém, conhecia o lado obscuro da vida, sabia o que era viver numa corda bamba, tentando equilibrar emoções, enquanto os sentimentos afloravam na pele, ameaçando implodir e levar tudo abismo abaixo.

Talvez, se conhecesse Dostoiévski, até concordasse que “existe no homem um vazio do tamanho de Deus”, mas como nunca tinha ouvido falar do cara, sabia apenas que havia uma imensa necessidade de busca [Eclesiastes 3.11] que precisava ser suprida, foi quando descobriu as drogas.

Ter uma válvula de escape era algo realmente necessário, no mundo existe tanta coisa ruim [João 16.33], como ganância, inveja e tristeza, e as drogas eram o jeito rápido de dar um cala-boca em tudo aquilo e apenas curtir a vida [Provérbios 14.12].

A real é que geral ali estava mais perdida que ele e só queria sentir algo, procurando um jeito de ser normal, ou menos estranho consigo mesmo – de alguma forma só queriam fazer a diferença, sem importar como [Romanos 12.2]. Todos buscavam curtir o melhor modo possível, ele e os amigos também – até porque era humanamente impossível dançar durante doze horas ou mais sem algo pra manter a disposição – então, por que não proporcionar uma diversão completa?

Até porque as mercadorias é que proporcionava os maiores ganhos – cujos melhores dividendos ficavam pra Lucas, Nandinho e Tiago, que arrecadavam uma grana monstro a cada rave, o problema é que ela escoava tão rápido quanto vinha [Provérbios 13.11], fazendo Nandinho reavaliar a verdadeira métrica do sucesso.

“O que importa não é a quantidade de momentos prazerosos, mas saber que nas adversidades não estamos só.”

Com a brisa boa que espantou a letargia que o puxava pra baixo, Nandinho relaxou a ponto de flutuar com a música até se tornar parte de uma onda sonora que vibrava prazer, aí aproveitou pra tomar bala.

Quando começou, meia bastava, agora precisava de uma, isso porque sabia usar, mas conhecia uns caras que exageraram tanto que tiveram que apelar pra coisas mais pesadas – alguns dos quais acabavam fazendo viagem sem volta – já ele, o máximo que teve foi bad trippy, porque usou bala ruim. Em questão de segundos as vistas ficaram turvas, a energia esvaiu e, enquanto uma tristeza densa se apossava de si, uma sensação horrível lhe apertou o coração, como se estivesse prestes a morrer, ele caiu no buraco, onde viu coisas das quais apenas ele tinha ciência.

Depois disso pegou o costume de lamber a bala e esperar meia hora, caso desse onda boa, nem houvesse reação alérgica, ele usava – isso até conhecer Lucas, daí não teve mais necessidade de fazer isso, pois os produtos dele eram de primeira.

Nandinho só usava balinha em rave, mas tinha um conhecido que chegou ao ponto de usar bala em pagode, já ele preferia aproveitar até a onda passar – o segredo era não ficar misturando brisa – daí ia de Calvin, Space, Michael Douglas, Tina, Gina ou lança, tudo dependia do momento. Só não dava pra ficar sem nada, se não a balada perdia a graça e ele acabava não curtindo [Jeremias 17.9] – ele só não curtia poppers porque a onda passava rápido demais, já Tiago era fissurado no incenso líquido.

O erro da galera é ignorar que entorpecente não produz bem-estar ou euforia, apenas forçam o cérebro a liberar os neurotransmissores responsáveis por essas sensações, daí que quem exagera faz o estoque esgotar, por isso, além de praticar musculação e aeróbio, ele tinha uma alimentação balanceada pra ajudar na reposição, garantindo uma onda prazerosa sem precisar abusar de nada – afinal, o corpo a gente transforma, o espírito se enobrece e o coração dispara a cada momento de prazer.

Lucas costumava dizer que só não se diverte quem ainda não encontrou a onda certa e Nandinho concordava [Romanos 1.28], a balinha o deixava elétrico – tinha o doce também, mas ela era alucinógena demais, da vez que ele usou viu bicho mesmo depois da balada. O problema mesmo é que no dia posterior a rave batia uma deprê meio chata, mas eles contornavam com Key ou dando uns tragos na Mary Jane [Salmos 42.7] – o Narguilé era mais pra fazer média mesmo.

“É através de boas experiências que se modela e introjeta hábitos e crenças.”

Por mais que fazer a colocação permitisse dissipar a dor, proporcionando alívio e prazer imediatos, aquilo durava até a má gestão das emoções acentuar o vazio novamente, principalmente quando se pegava a toa, por isso procurava se manter ocupado, assim, sempre precisava de mais doses [Romanos 6.16].

Mais do que prazer, Nandinho queria é deixar de sentir o vazio abismal dentro de si, ele trocaria tudo pra dissipar a solidão que incomodava mesmo estando rodeado de gente legal – o que importa não é a quantidade de momentos prazerosos, mas saber que nas adversidades não estamos só [João 14.23].

Um pouco mais afastado dali, num ponto mais elevado, Tiago, Dani, outros amigos e mais alguns felizardos curtiam reservadamente na área VIP. Toda rave alguns participantes, dentre os mais frequentes, eram escolhidos pra desfrutar do lugar que, além de ter espaço de descanso, ainda contava com consumação livre, tanto de bebida, como de comida – esse era mais um dos atrativos pra fidelizar a galera, afinal, é através de boas experiências que se modela e introjeta hábitos e crenças.

Por mais que os sortudos da vez estivessem aproveitando, Dani era o mais empolgado ali, essa era a primeira balada da qual participava, então tinha razão de sobras pra estar deslumbrado. Com uma população composta majoritariamente por aposentados, a cidade de onde veio era sossegado até de mais – o pai só descobriu ela por causa de um amigo que o convidou pra cuidar de sua fazenda, assim ele largou tudo, emprego, casa e parentes, se mudando com a família pra lá.

Sem ter muito o que opinar, Dani foi morar em outro estado, mas logo gostou da mudança, lá tinha riacho, onde podia pescar, cachoeira, uma pá de bichos e diversas frutas. Mesmo quando ajudava os pais, ainda sobrava bastante tempo pra curtir e correr livre pelo terreno que parecia não ter fim, diferente do centro de onde viva antes, ali o tempo ali passava mais devagar – só pra aproveitar a paisagem, belamente pintada de verde e salpicada de árvores frondosas.

“Quando sua essência é maior que suas necessidades, nem a influência dos queridos é capaz de te corromper.”

Toda quietude e isolamento social – o centro comercial ficava a vários quilômetros dali – deixavam Nandinho inquieto e frustrado. Acostumado a viver solto pela cidade, frequentando os bailes, acabava se entediando com tanta calmaria, sendo o oposto do primo, mais sossegado e caseiro – Dani suspeitava que se os dois não tivessem sido criados juntos, talvez Nandinho nem fosse lhe dar moral.

O engraçado é que, mesmo reclamando, todo final de semana lá estava Nandinho, como a cidade de ambos eram próximas, dava pra ver direto o primo, com quem tinha uma amizade fraternal [Provérbios 18.24]. Toda vez que aparecia, ao cair da noite, convidava Dani pra escapar e ir nos bailes, mas o garoto sempre recusava, com medo de ser descoberto pelos pais.

Até que o primo partiu de vez, mas mesmo separados por diversas milhas, continuaram mantendo contato, ainda assim quando Nandinho lhe enviou uma passagem pra ele vir pra São Paulo, Dani desacreditou, ele achou que o primo estava brincado quando disse, pouco antes de partir, que o levaria consigo.

Logo que chegou, estava bastante empolgado, agora que não precisava mais se preocupar com o que os pais iam achar queria é mais aproveitar tudo que não deu antes, ainda mais porque o primo sempre contava tantas coisas legais das raves, mas Nandinho disse pra esperar que primeiro ele tinha que acostumar um pouco – nisso passou um mês e ele foi acostumando com a rotina dos garotos.

Dani viu que eles se divertiam pakas, apesar de trampar bastante, não tinham regras, dormiam e acordavam tarde, e ele podia comer o tanto de besteira que quisesse, passar o dia todo na piscina ou no videogame. Desse jeito, logo se sentiu em casa – difícil seria não se acostumar rápido com um vidão desses.

A única coisa que não quis aproveitar foi o tal do Key, e outras coisas, que o primo e os amigos viviam cheirando, mesmo eles dizendo o quanto era bom e relaxante. Ele até aprendeu a cozinhar o produto, ainda assim não teve curiosidade de provar, ele já era sossegado demais pra usar daquilo – quando sua essência é maior que suas necessidades, nem a influência dos queridos é capaz de te corromper.

O som, num volume que fazia cada parte do corpo vibrar, deixou Dani todo arrepiado. Ele já tinha visto alguns vídeos da rave no canal do primo e achou louco demais, mas ao vivo tudo a sensação era ainda melhor da que Nandinho havia dito, sem falar que o lugar estava lotado de gente bonita, tanto que ele nem sabia pra onde olhar.

Vendo-o sem jeito, Tiago se aproximou, lhe disse pra relaxar e tirar a camiseta, pois assim seria melhor. Dani falou que não precisava, mas o amigo insistiu, então percebeu que ele estava todo envergonhado.

— Por que cê tá com vergonha? – Tiago gritou, erguendo a sobrancelha.

— É que sou mó magrelo. – Dani falou, encabulado.

— Deixa eu ver! – Ele disse já levantando a camiseta do amigo.

— Ah! Para garoto, todo trincado você!

— Tô é magrelo demais! – Dani puxou a camiseta novamente pra baixo, já sentindo a bochecha corar.

— Para de ser bobo, garoto, com um shape desses, cê vai fazer maior sucesso! – E piscou puxando a camiseta dele novamente, mesmo meio sem jeito, Dani acabou por ceder e não ofereceu resistência.

Encantado com toda aquela vibe, as músicas, o show de luzes e a galera na maior ferveção, Dani levou um tempo pra perceber que não sabia dançar, como Lucas e Nandinho estavam longe, tentou ir copiando Tiago que, diferente de si, tinha ótimo gingado, o problema é que o garoto não parava, parecia pipoca, pulando de um lado pro outro, sempre atracado com alguém. A área VIP estava bem frequentada, mas como era tímido e não conhecia ninguém, ele se sentiu deslocado.

Foi quando alguém lhe passou uma latinha de referi, no calor que estava o impulso foi levar o recipiente a boca e dar maior golada. Quando o líquido lhe tocou a boca a sensação foi bem ruim, ainda assim, ele tentou engolir, mas quando sentiu a garganta queimar, acabou cuspindo o resto daquilo.


#proximoepisodio

O que será que Dani bebeu e será que foi isso que o deixou inconsciente? Independente, ele devia mesmo é ficar mais experto e deixar de ser tão inocente de confiar a própria sanidade aos outros, talvez assim tivesse evitado daquilo acontecer e estragar a noite da geral.

Tão preocupado Nandinho ficou que nem conseguiu curtir direito depois do acontecido e, cheio de culpa, acabou indo embora bem mais cedo do que tinha planejado, arrastando os amigos consigo.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

Mishael Mendes

Um cara apaixonado por música, se deixar ele não faz nada sem uma boa trilha sonora. Amante de fotografia, livros, animais e comida boa – principalmente a da mãezona. Criou o blog e o canal pra compartilhar sua visão inversível da vida.