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Interrompido – Reaprendendo a viver (Episódio 21)
A entrevista se mostrou mais profunda do que Luan imaginou, ao ver desnuda uma alma carregada de sofrimento e dor.
Mishael Mendes access_time 22 min. de leitura
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Uma entrega verdadeira traz mais que arrepios, inunda corpo e mente de uma inexplicável e transbordante paz, mas havia muito mais a ser contado sobre perca, entrega e mudanças.

A entrevista teve o efeito desejado por Amanda – de elevar os índices de audiência – mas o processo estava sendo doloroso demais pra Lourdes.

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Lourdes recomeçou a entrevista, achando que após a pausa ia conseguir conter as emoções, mas bastou começar a falar pras lágrimas escorrerem, dificultando a fala.

— A gente… nunca espera… que uma coisa dessas… aconteça com a gente. – As palavras saíam baixas e entrecortadas, exigindo certo esforço pra respirar.

Aproveitando a atenção, falou do perigo em misturar drogas e direção, pois quando se dirige isso também é feito pelas outras pessoas, ou seja, a vida do outro passa a ser responsabilidade do condutor.

Mesmo se mostrando compreensiva, Amanda deu prosseguimento, apesar da dificuldade da entrevistada. Era como se o estado dela que lhe atiçasse a percorrer o mais profundo da alma humana, enquanto tentava mostrar a extensão de uma dor daquelas.

Com a audiência a vários pontos na frente, Amanda quis saber o estado de Cadu, mas o descontrole de Lourdes a surpreendeu. Como alguém que se expôs tanto podia ficar assim com uma simples pergunta?

“Quando se dirige isso também é feito pelas outras pessoas, ou seja, a vida do outro passa a ser responsabilidade do condutor.”

A real é que a falta de empatia vinha incomodando Lourdes, mas ela ignorou a percepção – bem como a sensação de estar perdida. E seguiu respondendo, como se não tivesse opção além de ter o íntimo desnudado ante as câmeras.

Acreditando no bem maior que podia alcançar – ao ter a voz amplificada pela mídia – ela se deixou conduzir pelo vale de sombra e dor, mesmo com uma dor pungente aumentando. Até a pergunta da repórter lhe transportar pro que fez pela manhã, fazendo-a se sentir uma mãe horrível por abandonar o próprio filho, e isso a fez descontrolar de vez.

Aproveitando a deixa pra intervir, Marcos resgatar a esposa, pois percebera o quanto aquela exposição estava fazendo mal a ele.

“Recomeçar não exige qualquer coisa além de atitude e pouco importa o tempo perdido, mas o que ainda se deseja viver.”

— Isso tudo é culpa daqueles inconsequentes! – Alterada, ela gritou, enquanto era carregada pra cozinha, ao se dar conta que os jovens irresponsáveis é que deixaram seu filho naquele estado.

Com a maior cara de compaixão, Amanda encerra a exclusiva, pois a mãe estava emocionada demais pra prosseguir. O vídeo finalizou exatamente nesse ponto.

Pensa num susto que Luan tomou, ao levantar os olhos e dar de cara com Lourdes surgida repentinamente – embora isso não sido desse jeito. Os earbuds com isolamento acústico – além da atenção vidrada no vídeo – impediram percebê-la chegar ou mesmo de a ouvir chamar diversas vezes.

Ele costumava ser distraído, fazendo recortes da realidade, além de editar e reinterpretar as interações e passagem dos dias à sua maneira inversível de ser. Às vezes mais disposto a confabular consigo mesmo, onde mantinha todos os movimentos friamente calculados – algo que também pode indicar da Síndrome de Peter Pan.

A enfermeira sorriu ao ver ter a atenção do garoto, desconcertado, Luan sorriu meio sem jeito. Ele já ia perguntar se ela dobrou o turno, mas quanto olhou pela janela o dia amanhecera sem ele, se quer, pregar o olho, então uma impressão surgiu, deixando-o cético, tamanha a claridez percebida.

— Bom dia, menino Luan, como você está hoje? – Ela perguntou com um belo sorriso.

“O conhecimento teórico precisa estar alinhado a humanidade, só assim é possível haver uma verdadeira entrega, ao oferecer a melhor técnica com o melhor que há em si.”

— Bom dia, Socorro! – Ele respondeu no mesmo tom de animação. – Bem demais e você?

— Podendo viver mais esse dia lindo que D-s nos deu? Só posso estar agradecia! – Seu rosto se iluminou. – Aproveita que hoje o café da manhã está caprichado.

No móvel, ao lado da cama, havia torradas integrais com patê de atum e suco de mamão, além de salada de fruta com iogurte, aveia e semente de chia. Mesmo com a cara apetitosa, Luan agradeceu e disse que antes precisava terminar algo.

— Só não vai demorar, porque do jeito que está gostoso é capaz das formigas deixarem só as migalhas pra você. – O gracejo o fez rir.

“Quando a gente se abre pra vida e deixa-se amar, ela nos mostra que até os espinhos da rosa servem para lhe enobrecer a beleza.”

“Tá parecendo mamãe falando assim.” – Entretanto a graça logo deu lugar a vontade de chorar, traga pela lembrança, mas ele a fungou de volta.

— Pode deixar! – Fingindo dar atenção pro iPad, ele desviou os olhos enquanto assentia e bastou Socorro se retirar pra voltar as pesquisas.

Mais determinado que nunca em encontrar a ligação da história – ou pelo menos era no que acreditava – Luan iniciou uma busca frenética. Os resultados surgidos serviram pra deixá-lo embasbacado.

Após Lourdes confrontar os próprios sentimentos e D-s falar consigo – lhe inundado de paz – se deu conta que sua caminhada com o Eterno até ali foi tão rasa. Então passou a buscar mais, se dedicando a leitura da Bíblia e a se consagrar, pois, queria um viver diário de comunhão, não apenas boas sensações.

Iniciou-se aí um processo onde ela foi reaprendendo a viver, mas mesmo seguindo nessa nova direção, um vazio começou crescer a medida que se passavam os dias. Algo lhe faltava e a ausência não era de Cadu, pois, apesar da cicatriz profunda, não havia mais dor.

“Tirar os olhos dos espinhos faz enxergar quão bela a rosa é e que uma ferida não é capaz de reduzir seu encanto.”

A inquietação continuou até retornar pra agradecer a equipe hospitalar. Ela transitava pelos corredores da UTI quando se deu conta que, após tanto tempo passado ali, o ritmo se tornou parte de sua rotina. Além disso, foi onde descobriu poder realizar mais do que sua frágil aparência fazia parecer [Filipenses 4.12] e, sentindo um chamado [Isaías 60.1] resolveu se graduar em enfermagem.

Mesmo sendo velha, ela viu que recomeçar não exige qualquer coisa além de atitude e pouco importa o tempo perdido, mas o que ainda se deseja viver. A partir disso, sua vida ganhou maior significado e profundidade.

Não foi surpresa procurar o hospital onde o filho ficou internado, sendo admitida com prazer pelo doutor Adriano da Cunha e pela equipe, ela ganhara bastante notoriedade devido a todo seu zelo.

“Se tuas intenções forem puras, transbordarão em fulgor e você brilhará como o sol em seu esplendor.”

Cada vez mais entusiasmada, se especializou e, devido ao compromisso firmado consigo mesma de seguir na busca da excelência, se dedicou, desenvolvendo um olhar atento diariamente. Passou a frequentar diversos congressos e até palestrou num evento internacional e, apesar dos convites pra seguir na educação, preferiu continuar na enfermagem assistencial, pois se sentia realizada.

Até porque a prática diária mostrou que, mesmo sabendo tudo sobre determinada doença ou condição, cada paciente possuía sua individualidade, e isso lhe proporcionava novas formas de aprendizado. Dessa forma ela nunca saía da condição de aluna, mantendo a humildade necessária pra um cuidado humano e eficaz.

Foram muitas experiências marcantes, embora algumas vezes os cuidados levassem a exposição de doenças contagiosas, onde se corria riscos pra salvar ou garantir boas condições aos pacientes.

A experiência lhe ensinou que o conhecimento teórico precisa estar alinhado a humanidade, só assim é possível haver uma verdadeira entrega, ao oferecer a melhor técnica com o melhor que há em si.

O carinho e respeito recebidos, além do sono tranquilo, certificaram estar numa das profissões mais honradas – embora pouco valorizada. Onde a execução, procedimentos e protocolos repetidos a exaustão necessitam de mais do que eficácia, mas ser aplicados com amor.

Apesar de não esquecer Cadu – como olvidar o fruto que carregou no ventre ao qual nutriu, cuidou e tanto amou? – Lourdes descobriu que quando a gente se abre pra vida e deixa-se amar, ela nos mostra que até os espinhos da rosa servem para lhe enobrecer a beleza.

“Todos os dias a gente corre riscos que nem vê, por que não fazer isso por algo que valha a pena?”

As cicatrizes resultantes de sua maior perca – e as demais que foram surgindo – passaram a servir pra mostrar a obra de D-s em sua vida [Gálatas 6.17], tornando marcos de esperança.

Quando Cadu morreu, ela não queria saber de coisa de doação nenhuma, tudo o que lhe interessava era tê-lo de volta. Mas o tempo passou e os pacientes foram se tornando seus filhos – aos quais prestava os mesmos cuidados e até melhores, pois agora vivia completamente feliz, realizada e cheia de luz.

A sombra da morte ou dor [Salmos 23.4] não tinham mais poder algum sobre ela – tirar os olhos dos espinhos faz enxergar quão bela a rosa é e que uma ferida não é capaz de reduzir seu encanto.

“Nem tudo precisa ser respondido, pois o incrível habita o imaginativo do ‘e se’.”

A passagem dos anos se encarregou de levar pra longe os colegas que conheciam sua história – alguns acabaram mesmo por deixar o plano terrestre. O primeiro a sair foi doutor Pedro Gonzaga, partindo antes mesmo dela chegar.

O motivo da saída lhe trouxe pesar, pois além de perder o contato e a oportunidade de atuar com um excelente profissional, também se sentia responsável, após a conversão dele.

O tempo também se encarregou de trazer mudanças na aparência de Lourdes, a ponto de Luan mal a reconhecer durante a entrevista. Até porque suas feições não traziam marcas tão acentuadas de sofrimento, como as do vídeo.

Apenas quando Socorro brotou em sua frente ele pode comparar ambas as faces e ver a semelhança nas feições e traços das duas. A percepção adquirida o levou a desconfiança que lhe trouxe as respostas, confirmando suas suspeitas.

Ao retornar ao hospital Lourdes mudou o nome, mas diferente de Noemi que fez isso pra expressar amargura [Rute 1.1-6,14,19-21], ela o fez por desejar ser o socorro durante a necessidade dos pacientes [Salmos 46.1]. Essa era a causa dela possuir tanta luz habitando em si – se tuas intenções forem puras, transbordarão em fulgor e você brilhará como o sol em seu esplendor [Juízes 5.31].

Luan mal podia dizer quão surpreso ficou com a descoberta e após ter todas as dúvidas esclarecidas, sem restar alguma ponta solta, se perguntou o que fazer com a descoberta.

“Verdade alguma jamais terá efeito a não ser que você acredite.”

A primeira coisa a lhe vir a mente foi contar pra enfermeira, ele estava empolgado demais, mas como fazer isso sem parecer leviano?

Devia haver algum motivo pra enfermeira – que compartilhou tantos detalhes pessoais – se eximir de dizer ser a personagem principal do relato. Talvez pra evitar burburinho já que ele costumava atrair atenção, além de transformar as interações em conteúdos pra minisséries.

Quando a enfermeira veio recolher a bandeja o encontrou reflexivo e meio inquieto, mas a comida permaneceu intocada. Ao perguntar se estava tudo bem, ele afirmou que sim, disse apenas estar sem fome.

“Muitas vezes a vida pode até ser injusta, mas ela ensina a gente a ser forte.”

Com a mente cheia de gratidão pela confiança, também pelo cuidado e carinho dispensados por ela a si, Luan ficou receoso de contar a descoberta, pois não queria, de forma alguma, ser invasivo. A situação gerou alguns embates internos, onde calculou a melhor forma de abordar o assunto.

Foi aí que se deu conta que, independentemente, do motivo dela não lhe dizer narrar a própria história, o melhor era não comentar nada. Saber a verdade já era suficiente pra ele admirá-la.

Em meio as reflexões, se deu conta que o tempo a mais passado no hospital, mesmo recebendo alta, não foi apenas pra ouvir toda história e saber onde ia desembocar o emaranhado de fatos.

Havia uma razão maior que o manteve ali, mesmo sendo avisado ser melhor partir. O risco de contrair coronavírus, pareceu não importar, afinal, todos os dias a gente corre riscos que nem vê, por que não fazer isso por algo que valha a pena?

Então as coisas começaram a clarear e ele acabou por se encontrar. Isso o fez entender o motivo de Socorro exercer tamanha atração sobre si, ele precisava encontrar o caminho da mudança, mas isso só podia acontecer com a ajuda de um ser cheio de luz.

Após Luan sentir a felicidade se espalhar pelo corpo e dançar pelo quarto, comunicou sua partida a Socorro.

“Escolhas nos moldam e mesmo optando por não se envolver, a escolhe já foi feita.”

— Mas já, menino Luan? – A enfermeira se surpreendeu, embora soubesse que não se deve apegar a pacientes, acabou acostumando com aquele garoto que tanto lhe lembrava Cadu.

— Sim, tô bem já! Melhor liberar a vaga pra alguém mais necessitado.

— Está certo! – Ela sorriu admirada, então o deixou pra ele poder arrumar as coisas.

Assim que organizou tudo e se despediu da equipe, foi falar com Socorro, mas empolgado por voltar a andar e estar livre de todo fardo acabou cometendo a gafe de chamá-la de Lourdes.

“Escrever sobre o que se vive ajuda a imprimir profundidade e verdade ao que se conta, ainda mais que recursos, estilos e técnicas de escrita.”

Como já escapara mesmo, aproveitou pra agradecê-la pelo que fez e pelas palavras de sabedoria e conforto, emocionada, Socorro o abraçou mais forte.

A enfermeira sabia da transfusão pela qual Luan passou quando criança – algo ocorrido no mesmo tempo em que os órgãos de Cadu foram doados. Porém, se quer cogitou que o garoto pudesse ter recebido o coração de seu filho, exatamente por ser coincidência demais.

Tantas vezes se perguntou o que aconteceu aos órgãos doados, sem qualquer possibilidade de resposta e agora a oportunidade se mostrava a sua frente. Se os outros serviram pra permitir a continuidade de pessoas incríveis como Luan, sua perca havia mesmo multiplicado num bem maior [Romanos 8.28].

A necessidade de obter alguma confirmação se desfez, pois nem tudo precisa ser respondido, pois o incrível habita o imaginativo do ‘e se’. Como resposta ela deu mais um abraço emocionado – gesto esse que ele nunca mais esqueceria devido a forte sensação maternal emanada.

Com os meses que passou internado, Luan imaginou que sua saída se daria após a COVID-19 ser erradicada, mas não foi o que aconteceu e pelo visto seria necessário um longo tempo até isso se suceder. Ainda assim, estava contente de retornar pra casa e pro convívio da família.

“Fácil é julgar a falta de nexo das decisões alheias, mas usar o filtro da misericórdia pode ajudar quanto você agir por impulso ante algo que lhe custe.”

Mesmo o ambiente em casa não sendo dos melhores quando de lá saiu, se deu conta de que tudo pelo que passou não era a realidade em si, apenas uma pequena fração dela. O pai possuía um gênio mais fleumático que tendia a insensibilidade, mas esse era o jeito dele, ou seja, Luan não precisava agir do mesmo jeito.

Cheio de esperança, saiu acreditando que as coisas seriam diferentes e foi exatamente isso que aconteceu. Verdade alguma jamais terá efeito a não ser que você acredite.

O relacionamento com o pai se tornou melhor, após fazer sua parte e largar a bagagem de mágoas que costumava depositar sobre ele. Por consequente, a convivência com a irmã ficou agradável e os três passaram a desfrutar de bons momentos juntos.

Por sentir o desprezo dele pelo pai, a irmã acabou se apegando mais a figura paterna pra o fazer se sentir amado e saber que não era excluído na própria casa. Foi dessa forma que uma barreira invisível se formou e acabou por afastar os irmãos – algo que passou a fazer parte de uma distante lembrança.

“Costumamos achar que sucesso em algo significa que todo resto é incrível, mas as coisas só começam a dar certo quando se encontra o caminho.”

Vendo que muitas vezes a vida pode até ser injusta, mas ela ensina a gente a ser forte, se deu conta que durante muitos anos esteve perdido em si. Algo que acabou por se acentuar quando buscou ajuda e pode conhecer o lado obscuro de algumas pessoas [Jeremias 17.5] – enquanto mais distante ficava de se encontrar.

Ninguém parecia compreender o que lhe acontecia – se bem que era difícil até mesmo pra ele o fazer – mesmo sentindo ter algo quebrado em si. Tantos foram os esforços tentando escalar pra fora da vala onde se encontrava preso emocionalmente, quando só precisava conhecer o caminho [João 14.6] e saber em quem confiar [Salmos 118.8].

O melhor em tudo isso é que além de se encontrar e ter o ambiente familiar que tanto desejou, acabou achando uma garota incrível [Provérbios 18.20].

No dia seguinte, a saída do hospital, Luan resolveu ligar pra Fabiana e os dois conversaram bastante – o papo foi tão agradável que o fez ter certeza que a conexão sentida era recíproca. Após mais uns longos FaceTimes os dois tiveram um encontro inesquecível e a química foi tão boa que bastou mais alguns dias pra engataram um namoro – dessa forma ele foi redescobrindo o prazer de viver.

“Quando se fala de pessoas não dá só pra citá-las, pois ainda que não aparente existe uma complexidade por trás de cada decisão.”

Tudo que experienciou – desde o momento que conheceu Socorro – o impactou de tal forma que, mesmo sabendo usar bem as palavras, elas se fizeram insuficientes pra expressar como foi afetado.

Mas uma coisa era certa, Luan se tornou menos ignorante do que quando iniciou sua jornada, agora restava decidir como proceder a partir do ponto em que chegou. Afinal, escolhas nos moldam e mesmo optando por não se envolver, a escolhe já foi feita.

Desde aquele dia, nunca mais encontrei aquela enfermeira tão especial, mesmo voltando outras vezes ao hospital – até porque optei por não a stalkear pra descobrir onde ela foi parar. Independente disso, seja onde estiver sei que está iluminando outras vidas com todo aquele brilho que carrega em si.

Escrevi o que aconteceu, pois, por ser a palavra meu domínio, essa foi a melhor forma de homenagear Socorro e, através dela, mamãe e os demais seres maternos que se dão sem medir consequências. Afinal, escrever sobre o que se vive ajuda a imprimir profundidade e verdade ao que se conta, ainda mais que recursos, estilos e técnicas de escrita.

“Talvez, nosso maior problema com a ansiedade seja a mania de controle, daí quando algo parece fugir do planejado, começa a incomodar.”

Locais e nomes podem ter sido alterados, não como medida de proteção ou pra evitar processo por uso de imagem indevida, mas porque minha memória é horrível mesmo. Sempre tive dificuldade em guardar nomes – talvez ninguém percebeu antes porque usava técnicas pra me ajudar com essa deficiência, mas durante o processo ao qual passei se quer lembrei de usá-las.

Essa história que ousei contar pode até parecer dramática, a ponto de alguns não acreditarem ser real. Antes de apontar o que é descabido lembre que fácil é julgar a falta de nexo das decisões alheias, mas usar o filtro da misericórdia pode ajudar quanto você agir por impulso ante algo que lhe custe.

Minhas experiências podem parecer irreais, pois costumamos achar que sucesso em algo significa que todo resto é incrível, mas as coisas só começam a dar certo quando se encontra o caminho [João 14.6]. Mas, independente de crenças ou descrenças, sei o que vivi e isso acabou por influenciar minha obra, ainda que ela possua notas de melodrama acentuadas.

“Ao tratar de pessoas, cada um tem seu próprio universo a ser contado, ninguém é apenas um número que se descarta pra obter o próximo.”

Concordo que em alguns pontos até lembram novela mexicana, mas o que posso fazer? Desde que iniciei na escrita, carrego essa influência, resultado das tardes, passadas com mamãe, assistindo esse estilo de contar história – elas me recordam dos melhores momentos da minha infância.

Gostaria de me desculpar, pois acabei me estendendo na minissérie. É que quando se fala de pessoas não dá só pra citá-las, pois ainda que não aparente existe uma complexidade por trás de cada decisão.

Talvez, nosso maior problema com a ansiedade seja a mania de controle, daí quando algo parece fugir do planejado, começa a incomodar. Só que ao tratar de pessoas, cada um tem seu próprio universo a ser contado, ninguém é apenas um número que se descarta pra obter o próximo, exatamente por isso é que me permiti viajar.

“Muitas vezes perdemos toda a diversão por nos preocupar mais em chegar a determinado ponto ou obter algum resultado que esquecemos de aproveitamos a vista e experiências proporcionadas pela caminhada.”

Muitas vezes perdemos toda a diversão por nos preocupar mais em chegar a determinado ponto ou obter algum resultado que esquecemos de aproveitamos a vista e experiências proporcionadas pela caminhada.


#proximaminissérie

Em 64 o Brasil sofreu um golpe de Estado que maculou a história da nação com sangue, cárcere e muita opressão – algo que jamais seria esquecido.

O que ninguém podia imaginar é que em pleno século 21 – num país aberto e republicano – haveria outro golpe. Dessa vez, orquestrado pra se aproveitar da terrível pandemia, que vinha assolando o mundo, pra um tirano tomar a força a liderança da nação.

É justamente os horrores físico-psicológicos, intolerância e irresponsabilidades da realidade desse novo normal que Hecatombe – a próxima minissérie a estrear semana que vem – irá prenunciar.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

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