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Cigarra e Formiga – Como você nunca viu
Uma reinterpretação atual da fábula mais conhecida por baixinhos e grandões, contada de diferentes formas, mas nenhuma assim.
Por Mishael Mendes access_time 14 min. de leitura

Sol 40 °C, pelo menos era essa a sensação térmica; animado o sol estava disposto a esturricar quem ousasse permanecer sob seus raios. Pobre de quem precisava trabalhar no tempo aberto.

Coroado no céu, o astro se encontrava no pico de maior atividade, ofertando os 60 minutos mais quentes do resto do dia. Por permitir escapar de tamanha empolgação aquele período acabou sendo adotado pro horário do almoço.

Sabendo que o calor é mais abrasador próximo à linha do Equador, o sol continuava quente a ponto de fazer qualquer um se desfazer num ensopado de suor. Em esplendor do alto de seu domínio, nada podia fugir de seu alcance, mesmo onde havia cobertura o mormaço tornava lugares fechados insuportáveis.

Antes de tudo se decompor em água uma brisa, traga pelo vento norte, começou a soprar, refrescando o clima sob a copa da árvore tornando esse o lugar ideal pra se estar. Ainda mais de posse de uma nutritiva água de coco, razão suficiente pra entoar uma música de ritmo suave, justo o que Cigarra fazia naquele momento e enquanto desfrutava do paraíso sombreado o formigueiro labutava sob o sol que nem a brisa aliviava.

“Perseverança no trabalho é a garantia de abastança em tempos ruins, enquanto o contrário só traz miséria.”

Com o suor a escorrer, carregavam objetos até 50 vezes mais pesados que elas mesmas, as mais fraquinhas levavam peso 30 vezes superior, mas tinha as que chegavam a transportar algo 100 vezes maior. Mesmo sendo os insetos com um cérebro maior em relação ao tamanho do corpo, preferiam gastar a energia diária em atividades braçais.

Sem se importar com o sol, cujos raios aumentavam o pigmento que as tornava mais resistentes a altas temperaturas – enquanto lhes bronzeava a pele – seguiam na atividade. Mostrando que perseverança no trabalho é a garantia de abastança em tempos ruins, enquanto o contrário só traz miséria [Provérbios 6.6-11].

“Nessa vida quem não dá duro não se prepara pro futuro.”

— Cê não acha que tá à vontade demais, enquanto geral dá duro, Cigarra? – Formiga quis saber ao ver a vida boa da amiga enquanto ela e as companheiras juntavam alimento pro inverno [Provérbios 30.24-25].

— Relaxa, miga! A vida não é só trampar, também é diversão. É preciso saber viver! – Ela piscou, matreira. – Cês levam tudo muito a sério, talvez ficar de boas ajudasse a refrescar as ideias.

— Tá pinel? Que ficar de boas o quê! – Formiga se indignou de ouvir tamanha sugestão absurda.

— Eita! Parece que o sol torrou os miolos de alguém. – Cigarra riu, fazendo graça.

— No teu caso foi a memória! – A resposta saltou da ponta da língua. – Cê esqueceu que nessa vida quem não dá duro não se prepara pro futuro?

Formiga exaltou seu princípio de vida, consistindo em muito suor pra conquistar o pão nosso de cada dia [Gênesis 3.19], mas pensou como seria prazeroso uma folga de vez em quando – ainda mais diante de uma sombra convidativa daquelas. Antes de largar o trabalho e se jogar no descanso, fez o José e se mandou, deixando a tentação pra trás; era só metade do dia e ainda havia muito a ser feito.

“Não é porque as pessoas têm um conceito formado sobre a gente que não podemos agir diferente.”

Tempo é brevidade de um instante a escorrer; que esvai independente dos esforços pra contê-lo, dessa forma se foram estações, ainda mais pra quem passou os dias curtindo. Cigarra só se deu conta do inverno, quando o manto frio estava sobre si.

— Poxa! Justo quando o sono tava tão bom. – Isso a deixou desapontada. Antes de virar escultura de gelo, ainda que a mais bela, deu um pulo e se pôs a caminhar.

Buscando encontrar abrigo e comida, os quais podia trocar por seus dons artísticos, Cigarra foi em direção à residência mais próxima. Só não esperou que fosse demorar pra chegar ao destino; soprando com violência, o vento frio exigiu força nas canelas pra não ser lançada longe, enquanto tentava não congelar.

“O sustento pelo suor do rosto não consiste em trabalho duro, mas em esforço. Afinal, o desgaste, seja ele físico ou mental, é que resulta na construção de algo, porque o que conta é o empenho, não a quantidade de exsudação expelida.”

Ao bater na porta, seu empenho mostrou-se não ter sido uma boa, feito visão aterradora uma carranca surgiu fazendo-a tremer mais de medo que de frio e ela acabou dando um pulo pra trás.

Como não havia opção, Cigarra se encheu de coragem e deu mais alguns passos, disposta a enfrentar o terror real, foi quando percebeu que a figura não oferecia risco, apenas possuía uma careta no meio da cara, o que lhe arrancou um sorriso sem graça. Antes de poder ser desculpar e pedir ajuda, a mal-encarada fechou a portinhola, a ignorando total.

Sem ter pra aonde ir, aceitou o inevitável fim e, na companhia do frio glacial, sentou-se meio afastada da construção de imensas proporções, entoando um lamento fúnebre com notas graves de pesar.

Esperando a foice mortal tocá-la, torceu pro encontro acontecer antes de perder a sensibilidade até pra isso. Foi quando o som de festejo soou, uma forte luz a obrigou a fechar os olhos e, interrompendo a cantoria, abriu os braços, se entregando a alegria e as delícias que a aguardava do outro lado da vida. Após um tempo naquela posição a única resposta foi o frio ficar mais intenso.

— E aí, dona Morte, dá pra agilizar? Tô congelando aqui já! – Ela quebrou o agonizante silêncio.

— Cigarra?

— Sim? Tô pronta, pode me levar! – E estendeu as patinhas, em sinal de rendição.

— Hey, Cigarra! Que cê faz brisando aí fora?

— Quê!? – Cigarra abriu um dos olhos, ainda desorientada.

A acústica da casa era boa

Pra sua sorte a acústica do formigueiro era excelente e, mesmo com o barulho de conversa e risadas, Formiga a ouviu, reconhecendo seu timbre e sonoridade característicos. E correu pra porta, ao abri-la se deparou com Cigarra com cara de tonta, diante de cena tão engraçado, precisou de um tempo pra se recuperar, aí a convidou a entrar.

— Achei que não me queriam por aqui. – Ela estava confusa.

— Jamais! É que Ranzinza é meio impaciente. Com tanta felicidade circulando por aí, antes dele se invocar e acabar tendo alergia, a gente botou ele de guarda. Ele é meio ogro, mas não morde. – Seu tom abrandou. – Só às vezes… quando esquecemos de alimentar ele. – Após confessar num sussurro, ela apertou os passos.

— AAAH! – Cigarra deu um pulo ao ver Ranzinza surgir com sua carantonha de zanga. – Beleza!? – Ela deu uma risadinha que não cotinha uma grama de graça, tentando fazer a simpática, ao ver a cara ficar mais feia também andou mais rápido.

Falante, Formiga batia maior papo, já Cigarra só conseguia prestar atenção a grandeza da construção. Por fora ela não parecia possuir toda aquela proporção – nem ser tão escura – cheio de túneis e cavernas pra tudo que é lado.

À medida que avançavam, Cigarra foi tomando um susto atrás do outro devido aos pares de olhos brilhantes surgindo do escuro, sem serem esperados.

Um fraco, porém, desagradável aroma, se dispersou no ar, e apesar de não identificar do que se tratava, desencadeou pavor. Somando isso ao fato do ambiente ficar mais e mais escuro, enquanto iam ao encontro do mundo dos mortos, a afligiu.

O medo opressor nem vinha do visível – ela acostumou aos sustos – mas do que não podia ver. Do que se movia nas sombras, captado apenas pela visão periférica, desaparecendo quando olhava diretamente.

“Ter um ritmo diferente não significa ociosidade, assim, julgar pautado pelo que se vê pode incorrer em erros crassos.”

Pra aumentar o terror, a memória resgatou uma conversa que julgava esquecida, onde Mosca, fofoqueira de tudo, lhe alertou sobre os hábitos alimentares carnívoros das formigas.

— Fica esperta! Cê dá um caldo bom pra elas. – A voz agudo-metálica de Mosca, falando em tom superior, soou em seus ouvidos e lhe arrepiou todinha.

Uma comichão foi espalhando pelo corpo, a impulsionando a correr dali, mas cada brecha parecia muito bem vigiada.

Conforme desciam, mais denso e carregado ficava o ar, e seus nervos abalados, tornando até mesmo o som do vento motivo pro coração querer saltar boca afora. Presa a um trem-fantasma da vida real, ela seguia pra um trágico fim que nada tinha de diversão.

“Não se deve dar crédito ao que qualquer um diz, antes é preciso verificar os fatos pra não se equivocar.”

“É sorte demais pra um inseto só! Fugi do frio pra virar refeição.” – Cigarra não conseguiu evitar pensar na ironia da situação, enquanto pingava de suor, mesmo nem estudando calor ali.

Ao chegar no salão principal, uma chama, no meio do antro, proporcionava iluminação suficiente pra deixar aterradoras as figuras na penumbra, com figuras que se deformavam em proporções gigantes a se mover pelas paredes. Ao verem Cigarra entrar, geral silenciou e toda atenção se voltou pra ela, mesmo com metade das faces sombreadas, ela viu as mandíbulas tremerem de felicidade, algumas até salivavam.

No mesmo instante ela olhou por onde entrara pra ver se ainda conseguia escapar do terrível fim prestes a se desvelar ante os olhos. Ao invés disso o que enxergou foi a cara assustadora de Ranzinza, com um sorriso maquiavélico e a visão da cabeça suspensa no escuro foi a gota pra ceder à pressão dos nervos em frangalhos.

— Tá bem! Sei que mereço isso! – Cigarra se jogou de joelhos, com as patinhas em posição de súplica. – Só não bota salsa em mim que isso vai estragar meu gosto bom.

— Miga, levanta daí! – Formiga colocou a mão no ombro dela e cochichou.

— Ué! Cês não vão me devorar? – Ela olhou a amiga com olhos pidões.

— Que nojo, miga! – Ela botou a língua pra fora. – A gente é vegana, só come planta!

— Poxa…! – Por essa Cigarra não esperava. – Mas sou tão apetitosa. – Ela se decepcionou.

— PAFF! – Formiga bateu na testa.

— Miga, levanta logo que tá até faltando cabide de tanta vergonha que cê já passou. – Ela pediu em tom de confissão.

— Ah, é, né!? – Cigarra riu, meio sem graça, enquanto levantava.

No fim, ninguém queria devorá-la, pelo contrário, estavam felizes com sua chegada. Formiga explicou que após a conversa delas, ficou incomodada com aquilo, sindicalista como era, saiu compartilhando suas ideias, conseguindo convencer as companheiras em revezar o trabalho.

Dessa forma, cada uma podia descansar, além de realocaram algumas pra ficar de reserva pro caso de acidente, essas se revezavam pra cuidar da limpeza interna e do preparo da comida.

— Miga, tô passada e engomada! Isso sim, é pensar diferente, aposto que cês começaram uma revolução.

— Não é porque as pessoas têm um conceito formado sobre a gente que não podemos agir diferente.

— Falou tudo! – Cigarra bateu palminhas, num orgulho só.

Formiga contou que o dia de descanso lhe dava mais vontade de trabalhar, além de fazê-la perceber o quanto gostava daquilo que fazia.

Fora as mudanças, geral entendeu que o sustento pelo suor do rosto não consiste em trabalho duro, mas em esforço. Afinal, o desgaste, seja ele físico ou mental, é que resulta na construção de algo, pois o que conta é o empenho, não a quantidade de exsudação expelida.

Graças a nova percepção, todos entenderam a importância de Cigarra durante o árduo trabalho no verão, pois suas canções amenizavam a labuta, além de motivar.

Passado o susto, Cigarra viu que a multidão de olhos em si não possuíam nada além de admiração e respeito.

E foi maior festança quando topou fazer um acústico ao vivo pra comemorar a chegada do inverno e o início de um longo tempo de união.

“Plantar boas ações é uma ótima forma de fazer o futuro render abundância e fartura.”

Daquele dia em diante, as noites passaram a ser mais aconchegantes e animadas com apresentações que levavam a galera ao delírio, ovacionando cheia de animação.

A experiência ensinou ao formigueiro que ter um ritmo diferente não significa ociosidade. Assim, julgar pautado pelo que se vê pode incorrer em erros crassos, além de aprenderem a importância do descanso. [Êxodo 20.9-11]

Já Cigarra adquiriu o entendimento de que não se deve dar crédito a tudo que é dito [Provérbios 14.15], antes é preciso verificar os fatos pra não se equivocar com fake news. Também que plantar boas ações é uma ótima forma de fazer o futuro render abundância e fartura [Eclesiastes 11.1].


#papolivre

A fábula da Cigarra e a Formiga, de Esopo, é uma das mais conhecidas e contadas em diversos meios – já foi usada até na publicidade espanhola pra divulgar previdência privada. Ainda assim, não reflete com exatidão a realidade.
Buscando dar uma interpretação mais profunda e ajustada decidi reescrevê-la. Necessidade essa, surgida do inconformismo com valores que representavam uma sociedade capitalista que exaltava o acúmulo de bens, ao invés do repartir o pão [Provérbios 22.9].

Tendo a ideia surgido quando tinha uma troupe de contação de histórias – as quais apresentávamos pro primário da escola perto de casa. Busquei enriquecer o que originalmente tratava-se de um curto poema, inserido algumas curiosidades, como o comportamento das formigas.

Desde a infância, quando tive contato com a fábula, parecia injusta a forma dos artistas serem representados – que no original tratava-se de um gafanhoto, substituído pela cigarra por La Fontaine, na versão mais famosa. Entretanto, antes de mim, alguns escritores perceberam as incongruências na história original a ponto de alterá-la – algo que descobri enquanto pesquisava pra escrever esse posfácio.

Em Fábulas, de 1922, Monteiro Lobato a reescreveu fazendo uma crítica a falta de misericórdia da formiga, na década de 60, a Coleção Disquinho lançou uma das mais belas reinterpretações, além do poeta José Paulo Paes, que no ano de 1989 lhe deu um fim mais reflexivo. Já Millôr Fernandes, em 2002, parodia a famosa fábula mostrando a Cigarra como VJ, cheia de shows agendados.

Ósculos e amplexos,

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