folder Arquivado em Contificando
Cigarra e Formiga – Uma reinterpretação atual
Cuidado com as aparências, julgar tendo isso como referência pode não ser uma boa e levar a uma fria, maior que o inverno lá fora.
Mishael Mendes access_time 17 min. de leitura

Sol 40º, pelo menos era essa a sensação térmica, animado o sol parecia disposto a esturricar quem ousasse se estender debaixo de seus raios – pobre de quem precisava trabalhar no tempo aberto.

Altivamente coroado no céu, o astro se encontrava no pico de sua atividade, ofertando os 60 minutos mais quentes do resto do dia. Por isso o período tenha sido escolhido como horário universal do almoço, assim é possível escapar quando o calor está demais.

O tempo costuma mudar durante o intercâmbio das estações, mas parece não haver muita precisão, isso porque as 4 divisões, adotadas a partir do século XVII, se baseiam no solstício e equinócio. Apesar de ambos indicarem corretamente a incidência de luz solar, não possuem precisão quando se trata de temperatura e fenômenos ambientais.

Se dependesse apenas de insolação, o correto seria o solstício marcar o meio, não o início do verão e inverno, até porque há atraso de algumas semanas devido o aquecimento e resfriamento dos oceanos.


Em países tropicais, onde há pouca variação de temperatura e o calor prevalece boa parte do ano, isso fica mais evidente. Dessa forma, no Brasil, onde o ideal seria ter duas estações, há uma inconstância tão perceptível, afinal, primavera e outono só surgiram por influência europeia. Aqui, o correto seria fazer igual os matamata, que possuem uma estação úmida, que vai de dezembro a março, e outra seca, durante o resto do ano.

“Perseverança no trabalho é a garantia de abastança em tempos ruins, enquanto o contrário só traz miséria.”

Pros romanos, que dividiram as estações através do clima, havia apenas 2 delas, veris, o “bom tempo”, de onde veio a palavra verão, época das flores e frutos. E o hiems, o “mau tempo”, onde aumentavam o volume de chuvas e o frio – por ser uma época que dificultava o plantio acabou nomeada com um antônimo.

Com os anos dividiu-se o “tempo bom” entre primavera, no original “princípio da boa estação”, atualmente correspondendo ao começo da primavera, o verão, que coincide com a primavera. Por fim, o estio, cujo significado é “tempo quente”, sendo a época de seca e sol forte, equivalendo ao nosso verão.

A parte fria fragmentou-se em outono, ou “tempo do ocaso”, cuja raiz, significa queda, declínio, ruína, fim – já que é quando o sol se esconde, a noite cai, o frio desce e as folhas caem no quintal. Além do inverno, o “tempo de hibernar” ou de entrar em estado de dormência.

Embora muitos países tenham adotado as 4 estações, na China ainda valem 5, cada uma associada um elemento básico, primavera a madeira, verão ao fogo, estio a terra, outono ao metal e inverno a água. Já na Índia, a maioria dos habitantes segue o calendário hindu que estabelece, além das quatro comumentes aceitas, mais 2 estações, monção, a época mais chuvosa, e a antessala do inverno.

Sabendo que o calor é mais abrasador próximo à linha do Equador, o sol continuava quente – a ponto de fazer qualquer um se desfazer em ensopado de suor. Sem que nada pudesse fugir de seu alcance, pois mesmo onde havia cobertura o mormaço tornava insuportável ficar em lugares fechados, enquanto o astro continuava em esplendor, do alto de seu domínio.

Felizmente uma brisa – traga pelo vento norte – começou a soprar, refrescando o clima sob a copa das árvores, o que fez desses os lugares ideais pra se estar naquele momento. Ainda mais de posse de uma nutritiva água de coco e na companhia de boa música.

“Nessa vida quem não dá duro não se prepara pro futuro.”

Desfrutar daquele pequeno paraíso sombreado era o que Cigarra fazia nesse exato momento, em quanto todo formigueiro labutava sob o escaldante sol, que nem a brisa parecia capaz de aliviar.

Com o suor a escorrer, carregavam objetos até 50 vezes mais pesados que elas mesmas, as mais fraquinhas levavam peso 30 vezes superior, mas tinha as que chegavam a arrastar algo 100 vezes maior. Mesmo sendo os insetos com um cérebro maior em relação ao tamanho do corpo, preferiam gastar a energia, diariamente, em atividades braçais.

Sem se importar com o sol, cujos raios aumentavam o pigmento que as tornava mais resistentes a altas temperaturas – enquanto lhes bronzeava a pele – seguiam na atividade. Mostrando que perseverança no trabalho é a garantia de abastança em tempos ruins, enquanto o contrário só traz miséria [Provérbios 6.6-11].

“Tempo é brevidade de um instante a escorrer, e que se esvai independente de qualquer esforço pra tentar contê-lo.”

Vendo a vida boa da Cigarra, Formiga questionou a amiga o motivo de estar tão a vontade enquanto a geral trabalhava arduamente, juntando alimento pro inverno.

— Relaxa, miga! A vida não é só trampar, também é diversão. É preciso saber viver! – Ela piscou, matreira. – Cês levam tudo muito a sério, talvez ficar de boas ajudasse a refrescar as ideias.

— Tá louca, é? Que ficar de boas o quê! – Formiga de indignou de ouvir tamanha sugestão absurda.

— Eita! Acho que o sol andou torrando teus miolos. – Cigarra riu, fazendo graça.

— No teu caso foi a memória! – A resposta saltou da ponta da língua. – Cê esqueceu que nessa vida quem não dá duro não se prepara pro futuro?

Formiga exaltou seu princípio de vida, consistindo em muito suor pra conquistar o pão-nosso de cada dia [Gênesis 3.19], mas pensou como seria prazeroso uma folga de vez em quando. Principalmente com uma sombra convidativa daquelas, mas antes de largar o trabalho, fez o José e se mandou, deixando toda tentação pra trás – o dia estava só na metade, havia muito a ser feito.

“Não é porque as pessoas têm um conceito formado sobre a gente que não podemos agir diferente.”

Tempo é brevidade de um instante a escorrer, e que se esvai independente de qualquer esforço pra tentar contê-lo, dessa forma se foram estações, ainda mais pra quem passou os dias curtindo. Cigarra só se deu conta do inverno, quando o manto frio estava sobre si.

— Poxa! Justo quando o sono tava tão bom. – Isso a deixou desapontada, mas antes de virar escultura de gelo, ainda que a mais bela de todas, deu um pulo e se pôs a caminhar.

Buscando encontrar abrigo e comida, os quais podia trocar por seus dons artísticos, Cigarra foi em direção à residência mais próxima. Ela só não esperava que fosse demorar tanto pra chegar ao destino, soprando forte, o vento frio exigiu bastante e canelas fortes pra não congelar, nem ser lançada longe.

“Tanto o desgaste físico como o mental é que resultam na construção de algo, pois o que realmente conta é o empenho, não a quantidade de exsudação expelida.

Tanto empenho não pareceu ser uma boa, ao bater na porta uma carranca terrível surgiu, feia a ponto dela dar um pular – a visão de uma assombração seria menos assustadora.

Como não havia opções, Cigarra se encheu de coragem e deu mais alguns passos, disposta a enfrentar o terror real, foi quando percebeu que a figura não terrível, só tinha uma careta feia na cara. O que lhe arrancou um sorriso sem graça – mas antes de poder ser desculpar e pedir ajuda, a mal-encarada fechou a portinhola, a ignorando total.

Sem ter pra aonde ir, aceitou o inevitável fim e, na companhia do frio glacial, sentou-se meio afastada da porta da imensa construção, entoando um lamento fúnebre com notas graves de profundo pesar.

Esperando ser tocada pela foice mortal – torceu pro encontro acontecer logo, antes de perder a sensibilidade até pra isso. Foi quando o som de festejo soou, uma forte luz a obrigou fechar os olhos e, interrompendo a cantoria, abriu os braços, se entregando ao sentir que seria recebida com alegria do outro lado da vida.

Após alguns segundos naquela posição a única coisa que sentiu foi o frio ficar mais intenso.

— E aí, dona Morte, dá pra agilizar a parada ou não? Tô já congelando aqui! – Ela quebrou o agonizante silêncio.

— Cigarra?

— Sim! Tô pronta, pode me levar! – E estendeu os braços pra frente, em sinal de rendição.

— Hey, Cigarra! Que cê faz brisando aí fora?

– Quê!? – Cigarra abriu um dos olhos, meio desorientada.

Pra sua sorte a acústica do Formigueiro era excelente e, mesmo com o barulho de conversa e risadas, Formiga a ouviu, reconhecendo seu timbre e sonoridade característicos. Então correu pra porta, ao abri-la se deparou com Cigarra com maior cara de tonta, diante de cena tão engraçado precisou de um tempo pra se recuperar, aí a convidou a entrar.

— Achei que não em queriam por aqui. – Ela estava sem entender.

— Jamais! É que o Ranzinza tava de guarda. Como o bicho se irrita com tudo a gente mandou ele ficar de guarda antes de ter alergia por causa da tanta felicidade. Ele é meio ogro, mas não morde. – Ela falou num tom mais brando. – Só às vezes… quando a gente esquece de alimentar ele. – Ela confessou num sussurro e apertou os passos.

— AAAH! – Cigarra deu um pulo ao ver Ranzinza surgir com aquela carantonha de zanga. – Beleza!? – Ela deu uma risadinha amarela, tentando fazer a simpática, mas ao ver a cara ficar mais feia apressou os passos também.

Formiga estava toda falante e foi batendo maior papo, já Cigarra só conseguia prestar atenção a grandeza da construção. Por fora ela não parecia ser tão imensa assim – nem tão escura – cheio de túneis e com cavernas pra tudo que é lado.

A medida que avançavam, Cigarra foi tomando vários sustos devido aos pares de olhos brilhantes surgindo do escuro, sem ser esperados.

Um fraco, porém desagradável aroma, se dispersou no ar, e apesar de não identificar do que se tratava, desencadeou lembranças de pavor. Somando isso ao fato do ambiente ficar mais e mais escuro, enquanto pareciam se aproximar do centro da Terra, a deixou aflita.

Talvez, o medo opressor nem viesse do visto – ela já estava acostumando aos sustos – mas do que não podia ver. Do que se movia nas sombras, visto apenas pela visão periférica e que desaparecia quando olhava diretamente.

“Ter um ritmo diferente não significa ociosidade, por isso julgar pautado pelo que se vê pode incorrer em erros crassos.”

Pra aumentar o terror, a memória resgatou uma conversa que julgava esquecida, onde Mosca, fofoqueira de tudo, lhe alertou sobre os hábitos alimentares carnívoros das formigas.

— Ficar esperta! Cê dá um banquete bom pra elas. – A voz agudo-metálica de Mosca, sempre falando num tom superior, soou em seus ouvidos e lhe arrepiou todinha.

Um comichão foi espalhando pelo corpo, a impulsionando a correr dali, mas cada brecha parecia muito bem vigiada.

Conforme desciam, mais denso e carregado ficava o ar, e seus nervos abalados, tornando até mesmo o som do vento motivo suficiente pro coração querer saltar pela boca. Ela se sentia num verdadeiro trem fantasma, com a diferença que aquele não tinha a menor graça e seu destino era nada cômico, mas trágico mesmo.

“Não se deve dar crédito ao que qualquer um diz, antes é preciso verificar os fatos pra não se equivocar.”

“É sorte demais pra uma pessoa só! Fugi do frio pra virar refeição.” – Cigarra não conseguiu evitar pensar na ironia da situação, enquanto pingava de suor, mesmo nem estudando tão quente.

Ao chegar no salão principal, uma chama, no meio do antro, proporcionava iluminação suficiente pra deixar aterradoras as figuras na penumbra, com imensas e deformadas sombras a se mover pelas paredes. Ao verem Cigarra entrar, geral ficou em silêncio e toda atenção se voltou pra ela, mas mesmo com metade das faces sombreadas, ela viu as mandíbulas tremerem de felicidade, algumas até salivavam.

No mesmo instante ela olhou por onde entrara pra ver se ainda conseguia escapar do terrível fim prestes a se desvelar ante seus olhos. Ao invés disso o que enxergou foi a cara assustadora de Ranzinza, com um sorriso maquiavélico e a visão da cabeça suspensa no escuro foi a gota pra ceder a pressão dos nervos já em frangalhos.

— Tá bem! Sei que mereço isso! – Cigarra se jogou de joelhos, com as patinhas em posição de súplica. – Só não bota salsa em mim que isso vai estragar meu gosto bom.

— Miga, levanta daí! – Formiga colocou a mão no ombro dela e cochichou.

— Ué! Cês não vão me devorar? – Ela olhou a amiga com olhos pidões.

— Que nojo, miga! – Ela botou a língua pra fora. – A gente é vegana, só come planta!

— Poxa! – Cigarra ficou surpresa. – Mas sou tão gostosinha. – Ela se decepcionou.

— PAFF! – Formiga bateu na testa.

— Miga, levanta logo daí que tá até faltando cabide tanta vergonha que cê já passou. – Ela pediu em tom de confissão.

— Ah, é, né!? – Cigarra riu, meio sem graça, enquanto levantava.

No fim, ninguém queria devorá-la, pelo contrário, estavam todos felizes com sua chegada. Formiga explicou que após a conversa delas, ficou incomodada com aquilo e, sindicalista como era, saiu compartilhando suas ideias, conseguindo com isso convencer as companheiras a revezar o trabalho.

Dessa forma, cada uma podia descansar um pouco, além disso, realocaram algumas pra ficar de reserva, caso houvesse acidente e essas se revezavam pra cuidar da limpeza interna e de preparar a comida.

— Miga, tô passada e engomada! Isso sim é pensar diferente, aposto que cês começaram uma revolução.

— Não é porque as pessoas têm um conceito formado sobre a gente que não podemos agir diferente.

— Falou tudo! – Cigarra bateu palminhas, num orgulho só.

Formiga contou que o dia de descanso lhe dava mais vontade de trabalhar, além de a fazer sentir o quanto gostava daquilo que fazia.

Fora as mudanças, geral entendeu que o sustento pelo suor do rosto não consiste em trabalho duro, mas em esforço. Afinal, tanto o desgaste físico como o mental é que resultam na construção de algo, pois o que realmente conta é o empenho, não a quantidade de exsudação expelida.

Graças a nova percepção, todos entenderam a importância de Cigarra durante o árduo trabalho no verão, pois suas canções tornavam a labuta mais amena, além de os motivar.

Passado o susto, Cigarra viu que todos os pares de olhos em si não possuíam nada além de admiração e respeito.

E foi maior festa quando topou fazer um acústico ao vivo pra comemorar a chegada do inverno e o início de um longo tempo de união.

“Plantar boas ações é uma ótima forma de fazer o futuro render abundância e fartura.”

Daquele dia em diante, as noites passaram a ser mais aconchegantes e animadas com apresentações que levavam a galera ao delírio, ovacionando cheias de animação.

A experiência ensinou ao formigueiro que ter um ritmo diferente não significa ociosidade. Por isso julgar pautado pelo que se vê pode incorrer em erros crassos, além de aprenderem a importância do descanso [Êxodo 20.9-11].

Já Cigarra adquiriu o entendimento de que não se deve dar crédito ao que qualquer um diz, antes é preciso verificar os fatos pra não se equivocar. Bem como, plantar boas ações é uma ótima forma de fazer o futuro render abundância e fartura [Eclesiastes 11.1].


#freetalk

A fábula da Cigarra e a Formiga, de Esopo, é uma das mais conhecidas e contadas em diversos meios – já foi usada até na publicidade espanhola pra divulgar previdência privada. Ainda assim, ela não reflete com exatidão as camadas da complexidade humana.

A reescrevi buscando dar uma interpretação mais profunda e torná-la mais atual e ajustada, além de imbuída de novos ensinamentos e levar ao debate.

A ideia me surgiu quando ainda tinha uma troupe de contação de histórias – as quais apresentávamos pro primário da escola perto de casa. Achava injusta a forma dos artistas serem representados na fábula que, no original trata-se de um gafanhoto – substituído pela cigarra na versão francesa de La Fontaine.

Entretanto, não fui o primeiro a perceber incongruências na estrutura original a ponto de querer alterá-la.

Monteiro Lobato fez uma séria crítica a falta de misericórdia da formiga, em sua obra Fábulas, de 1922, já Millor Fernandes mostrou a Cigarra como VJ, com diversos shows agendados. Na década de 60, a Coleção Disquinho fez uma das mais belas reinterpretações, que aparentemente inspirou o poeta José Paulo Paes, no ano de 1989, a dar um fim mais reflexivo a fábula.

Com tanto conteúdo reflexivo, não é estranho o intento em querer reescrever esse clássico, porém, confesso não ter visto qualquer uma dessas versões supracitadas até este conto estar finalizado.

A necessidade da reescrita veio do inconformismo com valores que representavam uma sociedade onde a aristocracia capitalista exaltava o acúmulo de bens, ao invés de repartir o pão [Provérbios 22.9]. Também aproveitei pra apontar um erro quanto ao comportamento das formigas, além de revelar a farsa das estações, dando uma riqueza maior ao que originalmente tratava-se de um curto poema.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

a cigarra e a formiga conto conto infantil esopo fábula fábula adulta la fontaine moral soundtrack