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Interrompido – Nada é absoluto (Episódio 17)
Buscando se localizar na escuridão, Lourdes se tranquiliza com a realidade, mas o real pode ser ainda mais assustador.
Mishael Mendes access_time 17 min. de leitura
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A terrível sensação de morte traz consigo uma visita inesperada e, não apenas surpreende, evoca sensações que deixam Lourdes em conflito, mas antes de ser devorada por aquilo ela toma uma decisão.

Entretanto, nada disso bastou pra prepará-la pra terrível visão que se desenrolou e, completamente imóvel, foi obrigada a assistir o crescente horror até, finalmente, despertar daquele pesadelo macabro.

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Só quando terminou de gritar, Lourdes se deu conta das palavras terem descolado da língua – se emaranhando umas nas outras, como se falasse um estranho idioma – saindo ininteligíveis e numa altura baixa demais pro grito que pensou ter dado.

Tão logo os olhos abriram, buscou se localizar na escuridão, sondando apressadamente o espaço em volta de si. Ao se dar conta de onde estava, o alívio de tudo não passar de um sonho ruim, fez a respiração voltar ao ritmo normal.

Precisando de sua âncora pra se sentir mais relaxada, colocou a mão de lado da cama onde o companheiro costumava dormir e percebeu o espaço vazio.

— Click! – Um aperto no interruptor fez a lâmpada iluminar o quarto e os olhos de Lourdes arderem.

— Está melhor, amor?

— Só tive um sonho ruim, mas estou bem. – Lourdes sorriu agradecida por estar na segurança e conforto de seu lar e foi correspondida pelo marido. – Que horas são, neguinho?

— Está cedo, ainda vai dar quatro horas. Aproveita pra descansar mais um pouco!

— Quatro horas! – Ela se espantou. – Marcos, por que não me chamou antes? Já estou atrasada pra cuidar do Cadu!

Ela foi se descobrindo, pronta pra sair da cama, botar a roupa e se mandar pro hospital, mas paralisou ao ver o semblante do marido transmutar numa expressão de pena e dor, claras o suficiente pra dispensar o uso de palavras.

“Nada é absoluto quando se trata de interpretação.”

Àquela hora, apenas a luz da residência Mendez se encontrava acesa na vizinhança, mas quando Lourdes compreendeu ser real a morte do filho, soltou um grito tão inesperado e condoído que as luzes nas outras casas começaram a brilhar também.

— O que você fez, Marcos? – Lourdes esmurrava o peito do esposo ao seu lado, na cama, enquanto chorava cabisbaixa, apoiada no ombro dele.

— Amor, calma! – Ele pediu pacientemente, a abraçando mais forte.

— Você não podia ter feito isso com o Cadu, não podia ter feito isso comigo! Marcos, você não podia ter feito isso com a gente! – Ela tentou continuar a esmurrá-lo, mas ele a manteve firme junto de si.

— Era o melhor a fazer, querida, mas você estava tão triste que não conseguiu perceber.

Após a abordagem inicial, Marcos procurou o médico e contou sobre o pedido de Cadu, então doutor Pedro Gonzaga resolveu falar novamente com Lourdes pra tentar sensibilizá-la sobre a importância da doação de órgãos, mas ela se mostrou ainda mais resistente. Dessa forma ele desistiu de tocar no assunto.

— Desistiu!? – Ela se afastou, indignada. – Ele continuou me perturbando com esse assunto tempo demais. – Ela se ressentia por ter sido incomodada tantas vezes.

— Não, amor, ele não insistiu!

O desgaste físico e emocional, somados ao temor de perder o filho, dos últimos dias, a fizeram ficar na defensiva, imaginando que qualquer aproximação do médico se devia a pressioná-la quando, na verdade, ele tentava conversar sobre outras coisas – nada é absoluto quando se trata de interpretação.

Sabendo do posicionamento do paciente e com a eminência de uma morte cerebral a qualquer instante, o médico conversou com Marcos sobre a oportunidade da morte de Cadu resultar em multiplicação de vida ao invés de findar numa subtração indesejada. A proposta foi aceita de prontidão, pois ele desejava muito cumprir o desejo do filho.

“Tudo tem seu tempo, o difícil é aceitar quando ele acaba pras pessoas que amamos.”

Por não querer fazer tudo escondido, tentou conversar com a esposa, mas irredutível, ela nem o permitiu tocar no assunto.

Decido a cumprir a vontade de Cadu – mesmo sem o apoio da esposa, por isso preferiu manter discrição – Marcos conversou com o agente da Equipe de Captação de Órgãos, onde foram feitos todos os esclarecimentos e dito que tudo precisava ser rápido, pois teriam pouco tempo, caso ocorresse a morte encefálica. Por fim, ele assinou o Termo de Doação de Órgãos e Tecidos, assim quando chegou o momento tudo foi realizado nos conformes.

— Como você pode fazer isso pelas minhas costas? – Lourdes se sentia traída. – Você vendeu a alma do nosso filho a troco de quê?

— Amor, a gente fez uma promessa.

— Que não fazia sentido cumprir! – Ela gritou. – Aquele povo só queria despedaçar nosso filho!

— Claro que não, amor! Eles queriam o Cadu vivo tanto quanto a gente.

— Será mesmo, Marcos!? Você só diz isso porque não viu o que eu vi! – Ela se indignou. – Se eles não estivessem interessados apenas em tirar os órgãos do nosso filho, o Cadu estaria vivo agora.

— Explica isso direito, amor! – A afirmação foi dita com tanta propriedade que Marcos até duvidou da certeza que acreditava ter e achou melhor entender os motivos pra tanta certeza.

Lourdes questionou a quanto tempo ocorreu a assinatura do termo e ao saber ter sido pouco antes de Cadu falecer, suas suspeitas se confirmaram. Então ela revelou ter recebido uma mensagem alertando de uma enfermeira que vinha matando pacientes.

Por esse motivo se voluntariou pra cuidar de Cadu, assim podia ter certeza dele estar seguro – também foi a causa de achar que o médico iria sugerir a eutanásia. De certa forma, tudo ia bem, até Marcos assinar a sentença de morte do próprio filho – a saber: o termo de doação de órgãos.

Lourdes explicou que, diferente de seriados, uma parada cardíaca não significa óbito, por ser o corpo um sistema, possui diferentes sinais vitais, todos averiguados pelo monitor multiparâmetro.

Quando o coração de Cadu parou, o monitor exibiu os demais sinais funcionando, ainda assim recostou o ouvido no peito dele pra confirmar a respiração, mas antes de poder fazer qualquer coisa, foi retirada às pressas do quarto, deixando o caminho livre pra garantir que ele morreria de vez.

— Vi tudo, neguinho, eles podiam ter salvo nosso filho, mas preferiram desligar os aparelhos.

Antes de continuar, Marcos pediu pra verificar a mensagem – tratava-se de um áudio compartilhado no grupo das irmãs da igreja. Nele, uma assistente de enfermagem, que trabalhava num grande hospital, alertava pra uma onda de pacientes falecendo misteriosamente e com certa frequência, mas, apesar do alto número de mortes, ninguém parecida estar dando a mínima.

Decidida a investigar o caso, a auxiliar percebeu que as mortes costumavam acontecer no plantão de determinada enfermeira – a qual ocultou a identidade pra evitar processos. Essa mulher convencia os pacientes a se tornar doadores de órgãos, afirmando ser um ato de compaixão e, tão logo conseguia as assinaturas, fazia a cabeça deles pra aceitar a eutanásia e depois arrancava os órgãos pra vender no mercado negro internacional – que paga muito bem, só um rim pode chegar a valer US$ 262 mil, o que dá quase R$ 1,5 milhão.

O horror mesmo foi descobrir o envolvimento de pessoas chaves do hospital, o que explicou o porquê de ninguém estar fazendo nada pra parar as mortes, afinal, além da grana alta, era vantajoso sempre ter leitos disponíveis, além de reduzir os gastos com pacientes que dispendiam muitos recursos. Horrorizada e sem ter pra quem denunciar a enfermeira, pois os próprios diretores estavam envolvidos, resolveu gravar o áudio, ao qual finalizava pedindo, pra todos que não compactuassem com isso, o enviassem pro máximo de pessoas possíveis, só assim podiam acabar com aquela trama macabra.

Quando terminou de ouvir, Marcos ficou estarrecido, apesar do conteúdo forte, a denúncia não era real. Começando pela falta de dados precisos, como data do ocorrido, nome completo da pessoa que fez a denúncia ou do hospital onde trabalhava, tudo era abrangente demais e podia ser aplicado a qualquer lugar onde a mensagem chegasse, deixando margem pros receptores interpretarem a que hospital a denúncia se tratava.

Assim a mensagem não passava de um hoax, um conteúdo incompleto e inverídico, feito com a intenção de causar dubiedade e levar ao engano, mas devido ao seu forte apelo emocional com características impressionantes, embora críveis, eram o suficiente pra torná-lo rapidamente compartilhável por pessoas desejosas de “ajudar” os mais próximos sem, contudo, terem a responsabilidade de validar tais informações.

“Seja sorrindo ou chorando cumpre a promessa feita no momento de alegria.”

— Será, neguinho!? – Lourdes ainda estava desconfiada, a descrição parecia apontar diretamente pro hospital onde Cadu esteve.

Ele explicou que no Brasil, eutanásia é considerada crime de homicídio, com pena de reclusão de 6 a 20 anos, pois a Constituição entende que a vida é um direito inviolável e, mesmo em atenuante, quando há o pedido de um paciente pra alívio de sofrimento latente e inevitável, o ato é considerado homicídio privilegiado, resultando ainda em reclusão de um sexto ou um terço da sentença, conforme decisão do juiz.

— Essa denúncia aí, tem cara de ter sido traduzida de algum país onde a eutanásia é permitida por lei, já que aqui essa opção não é legal.

— Nossa! – Lourdes se deu conta do tamanho da bobagem em que acreditou. – Você tem toda razão, amor! E quando foi que meu neguinho ficou tão entendido dessas coisas? – Ela estava toda orgulhosa.

— Ah! A gente aprende. – Ele ficou sem jeito. – Tem um blog legal que acompanho, o E-farsas, onde eles desmitificam histórias e correntes antes mesmo delas serem chamadas de fakenews. – Quanto a equipe ter deixado o Cadu morrer, acho que você entendeu errado, amor.

— Como assim!? – Lourdes tinha bem claro na memória o momento em que um dos enfermeiros desligou os aparelhos, a mando da enfermeira.

— Isso aconteceu mesmo, querida, mas não da forma que você está achando.

Tão logo Lourdes foi retirada do quarto, a equipe iniciou a massagem cardíaca, com a maior dedicação possível, não apenas por se tratar de uma vida que tentavam resgatar das garras da morte sempre tão faminta [Provérbios 20.27], mas porque acompanharam toda luta e dedicação daquela mãe pra fazer garoto se recuperar, além de terem se afeiçoado a Cadu como parte da família.

Porém, mesmo com todo esforço nas compressões, antes mesmo de usar o desfibrilador, o cérebro dele entrou em falência, então Dolores ordenou desligar os aparelhos às pressas.

Correndo contra o tempo, foi iniciado o protocolo de retirada e armazenamento dos órgãos, e Cadu foi levado pra sala de cirurgia, onde teve os órgãos removidos. Pouco depois o helicóptero do CNCDO pousou e os agentes recolheram as maletas que já tinham destino certo.

Antes de partirem, o agente com quem Marcos conversou, se aproximou pra parabenizá-lo pela coragem e pelo gesto altruísta.

— Então não foi tudo um complô pra retirar os órgãos do Cadu? – Ela ainda se sentia perdida, talvez a ânsia por se eximir da culpa que sabia ter, somada ao áudio assustador, a tivesse feito interpretar as coisas da pior forma possível.

— Não, querida! – Com pesar, Marcos afirmou.

— Mas não era pra isso ter acontecido, neguinho… pareceu muito… errado… – Lourdes foi caçando as palavras enquanto decidida se contava ou não a visão horrenda tida enquanto todo processo ocorria.

“Será que foi uma visão?” – Ela se questionou se aquilo tinha sido uma experiência sobrenatural a qual lhe tinha revelado o estado do mundo espiritual naquele exato momento.

Desviando os olhos do marido, viu sobre o criado mudo uma cartela de Zolpidem. Como ultimamente o sono fugia de seus olhos, ela começou a tomar o remédio pra descansar um pouco e um de seus efeitos adversos era causar alucinação caso o sono fosse protelado.

Sem a certeza de ter ou não ingerido a pílula no dia anterior, achou melhor deixar pra lá, afinal, aquilo era tenebroso demais pra compartilhar com quem quer que fosse, além disso, tudo já estava esclarecido. Conforme o marido falava, as lembranças foram surgindo em flashs, enquanto a visão aterradora ficava se interpondo entre elas, ainda assim foi suficiente pra atestar a realidade dos fatos ocorridos.

Quando olhou Marcos de volta, ele a encarava, esperando-a concluir a fala.

— Acho que ainda não era hora do Cadu partir!

— Amor, tudo tem seu tempo, o difícil é aceitar quando ele acaba pras pessoas que amamos.

— Talvez… eu tenha adiantado isso… – Após confessar, Lourdes começou a chorar.

— Não diz essas coisas, querida! – Ele a envolveu nos braços, triste por ouvir uma coisa daquelas depois de tanta dedicação por parte dela.

— Foi sim, neguinho… – O choro intensificou.

Enquanto era escoltada pra fora do quarto 705, Lourdes viu – com a nitidez de um close – uma lágrima galgar rosto abaixo de Cadu.

A ciência até podia não saber explicar a razão disso acontecer com o garoto em estado de inconsciência profunda, mas ela soube na hora o real significado.

A teimosia em resistir tanto tempo – mesmo ante um diagnóstico irreversível – se deu por Cadu perceber todo sacrifício realizado por si. Até a ela lhe dizer aquelas palavras, aí ele desistiu do que o prendia ao corpo paralisado e o prateado fio da vida rompeu [Eclesiastes 12.6-7].

“Nesse plano existe um desfecho pra cada coisa que se principiou, chamamos de vida os acontecimentos ocorridos no intervalo entre esses extremos.”

Na mesma hora, Lourdes se soltou dos enfermeiros e tentou voltar pra explicar que não queria se livrar dele, só chegou a exaustão, mas foi arrastada pra fora – ficando mais desesperada, pois sabia restar pouco tempo pra desfazer o mal-entendido.

Agitada como estava, fazendo escândalo, acabaram lhe aplicando calmante, sem ela nem se dar conta, então as coisas foram ficando confusas e suas palavras saíram gemidas – num rosto carregado de caretas – não como os berros emitidos por ela.

— Amor, não foi culpa sua, o falecimento cerebral já era esperado! – Marcos disse cheio de compaixão, compartilhando da dor que a esposa sentia ao se impor tamanho jugo, o mesmo que havia posto a si mesmo quando sua mãe faleceu.

— Pode ser! – Ela aceitou, mas sem se dar por vencida. – Mas eles foram apressados, neguinho! Quando uma criança falece, o protocolo é manter os aparelhos ligados até os pais se despedirem e se esse fosse o tempo necessário pra um milagre acontecer? – A ideia de ter sido furtada de Cadu a última oportunidade de vive a deixou agitada. – Se tivessem esperado um pouco o Cadu podia ter ressuscitado, mas gora ele está despedaçado e não tem mais conserto! – Ela se angustiou novamente.

— Todo processo precisava ser feito com urgência, caso contrário a gente ia perder o Cadu sem, se quer, realizar o desejo dele de salvar outras vidas. – Carinhoso, ele afagou o rosto da esposa, enquanto falava afetuosamente. – Nosso filho se foi porque chegou a hora dele. Quanto tempo mais você aguentaria vê-lo naquele estado?

— Pelo resto dos meus dias! Antes isso que não ter mais nosso bebê. – Ao se dar conta do que disse, Lourdes caiu no choro novamente.

Naquele instante tudo que Marcos conseguiu fazer foi ficar abraçado a esposa, partilhando de suas lágrimas, afinal, já havia sido forte demais e aquele era o momento de extravasar [Eclesiastes 3.1,4].

— Seja sorrindo ou chorando cumpre a promessa feita no momento de alegria… – Ele se pegou sussurrando.

O peso das palavras bastou pra Lourdes se dar conta que podia ter compartilhado os cuidados do filho, afinal, aquela dor também pertencia ao esposo.

Marcos havia vibrado tanto ao saber da vinda de Cadu – é sonho de qualquer homem ter um herdeiro – e mesmo com todo cuidado com o filho, foi ele quem presenciou o atropelamento, tudo suportando pra ela poder desabar.

O casal ficou ali, abraçado, dividindo lágrimas, sentimentos e força. Num mesmo espírito permaneceram unidos, expurgando a dor que tanto os havia assolado. Nesse plano existe um desfecho pra cada coisa que se principiou [Eclesiastes 3.1-2], chamamos de vida os acontecimentos ocorridos no intervalo entre esses extremos.

Pela manhã, tão logo se anunciou o velório no jornal local, os vizinhos entenderam o grito que os despertou na madrugada e saber isso tornou o som mais aterrador.

Naquele dia a manhã não pareceu muito disposta a aparecer, o céu, tomando de nuvens, fez o funeral e o enterro ficar acinzentado, ainda assim a cerimônia emanou paz. A expressão serena de Cadu o fazia parecer sorrir, além de seu corpo não mostrar qualquer traço dos órgãos terem sido removidos.

Na cerimônia havia diversas pessoas, entretanto, uma, estática ao lado do caixão, lhe chamou a atenção. Lourdes ficou na dúvida se realmente era quem parecia, até porque não percebeu a visita em qualquer outro momento além daquele.


#proximoepisodio

Afinal de contas, quem foi que Lourdes avistou e qual a importância disso pra fazê-la se aproximar com tanto cuidado?

Depois de saber o que motivou Socorro a entrar na enfermagem, Luan percebe ter sido necessária muita força pra ela seguir nessa carreira. Mesmo depois de uma narração apaixonada, o garoto percebe ainda restar importantes perguntas sem respostas.

Ósculos e amplexos,

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