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Velocidade que a poesia alcançou
Um átimo bastou pra ele acelerar e sem respeitar sinalização ou atentar pra limites, seguiu em velocidade assustadora
Por Mishael Mendes access_time 5 min. de leitura

Dirigia o carro o máximo que podia
Vendo se com isso conseguia seguir
Os pensamentos que perturbados
Não paravam de agitar e colapsar
Mas a tentativa se mostrava falha,
Pois, a mente desconhece qualquer

Limite de velocidade, assim dirige,
Segue caminhos tortos e tortuosos
Virando esquinas e encruzilhadas
Traçando pontos que, desconexos,
Se separam um do outro, de ideias,
Da realidade, sentimentos, da vida

O que parece restar é emaranhado
De palavras, decerto, leves ou soltas
Desapegadas de quaisquer emoções
Ou talvez carregadas até se arrastar
Ainda assim seguiam em velocidade
Que apenas a luz poderia alcançar

Nos recônditos do insólito isolamento
Tudo o que parecia era fazer chover
Escuridão cair, sem quaisquer nuvens
Negras a dissipar ou a verter lágrimas
Era tudo o que naquela oportunidade
Parecia arrancar de suas profundezas

Enquanto a velocidade fazia aumentar
Numa feroz e interminável correnteza
De pensamentos que ricocheteavam,
Saltando aos pulos em todas direções
Temeroso o Waze acabou emudecendo
Diante de um barulho ensurdecedor

A cantar e estalar os pneus sem pena
Marcas ia deixando, mas não no chão
Ficou sem, também se foi toda estrada
Poderia possuir ainda mais sinuosidade
Que aquilo apenas a arte que produzia
Com a ponta do lápis rabiscos tentando

Tirar ou talvez também buscando botar
Da eminência do caos até a existência,
Mas tudo passava rápido, num disparate,
Que conceitos, percepções e a realidade
Se perdiam na imprecisão encontrada
Pela fumaça, poluição sonora e visual

No teor de medida menor ao captado
Pensamentos embebes de sensações,
Conexões dispersas que nada anexam
A distopia que, aumentam mais a cada
Curva, lá se foi mais uma, duas, três e
A capacidade de contagem se perdeu

Pedindo carona na estrada
Devin Phaly/ Unsplash

Até pediu carona, e abandonada ficou
A sorte, sem ser vista, acabou ignorada
Naquele caos habitando a criatividade
Nevoeiro, bruma, cerração e o nublado
Eram altas em termos de concentração
A qual não dispunha naquele momento

De supetão embaraço chegava tapando
Os olhos, percepção, também a vontade
Realizar era tudo que lhe impulsionava
Mas as direções foram tantas, dispersas
Que se pegava caminhando em círculos
Ou pequenos movimentos excêntricos

Até que, estacionou o carro num lugar
Sem mais ter como ir a fundo naquela
Enxurrada de aprofundadas emoções
Teciam teias, ateias, dúvidas, emitindo,
Enquanto o carro jazia tácito e silente
Estacionado ao meio-fio do caminho

Seu maior desejo era mesmo paralisar
Interminável defluxão de pensamentos
Estancar ferida aberta, não enxergada
Botar ordem em toda aquela confusão
Sem ideia alguma que caos é princípio
Desordenado do que houve e se falou

Numa grande explosão tudo apareceu,
Intenso brilho capaz de cegar os olhos
Estacionando sem qualquer noção se
O veículo ou o corpo ao qual conduzia
Nem mesmo o ar soprado pelo vento
Parecia suficiente pra fazer alcançar

Os pulmões a eficácia iam perdendo
Puxavam ar, inspirando vida, sonhos,
Mas os frenéticos e vivos pensamentos
Já não deixavam mais nada ali adentrar
Asfixiando o peito, também o brilho no
Olhar parecia ser perder por completo

Pés cansados
Lucas Sankey/ Unsplash

Enquanto as pernas doloridas, cansadas
De, sem rumo, andar já não podia mais
Se ele precisou se deter a vida continuou
Deixando-o distante, ainda mais pra trás
Ficou no pit stop, onde está a diferença,
De ganhar velocidade ou ficar pela pista

Com tudo rodando, em alta velocidade,
A sua volta de forma alguma foi partida
Da largada ele nem mesmo sabe se saiu
Estrondoso o coração acelerado se fazia
Tentando acompanhar os pensamentos
Queria lacerar pele, músculos e os ossos

Talvez pular fora de toda aquela confusão
Que em si mesmo parecia achar moradia
Nem paisagem, ao norte, parecia encantar
Talvez a flauta é quem lhe impulsionasse
A se movimentar conforme a sua vontade
Atraindo pra longe toda aquela confusão

Quem sabe harpa, dele a podia expurgar?
Mas tocar não sabia, a não ser com o tato
Profundos e sensoriais prazeres despertar
Estacionado botou-se num canto a entoar
Gritos que mais ninguém conseguia ouvir,
Ecos do som a muito reverberando em si

Deixou escoar, escalando garganta afora
O que a sociedade de constante reprimiu
A altissonância acabou lhe atrapalhando
Velocidade, contínuo aumento, sem fim
Com violência chocando-se um no outro
Em conflito, ideias começam a colapsar

Serenidade surgiu do profundo respirar
Harmonia principiou o regresso a cada
Inspiração e expiração trouxe cadência
Dessa forma ele pode retornar a marcha
A lhe conduzir em um aceleramento que
Apenas a luz é quem o podia encontrar.


#papolivre

Surgido de madrugada, numa enxurrada de hiperatividade cerebral – a qual cedi aos apelos criativos – esse poema tomou forma em versos de significados concatenados. Não costumo compor textos intrincados assim e a experiência de seguir esse impulso rumo a um destino desconhecido, carregou os versos de profundas implicações.

Se você já ficou desperto devido ao fluxo de pensamentos, sabe que quanto mais tentamos aquietar a mente mais desdobramentos surgem em conexões de velocidade absurda. E se a experiência esporádica é desagradável, pior é quando isso se torna comum, por isso, se sua mente se mantém em êxtase mesmo durante a vigília é necessário buscar ajuda de um profissional da saúde. Isso porque o sintoma do pensamento acelerado, pode ocultar algo mais sério, como transtorno de ansiedade, bipolaridade, déficit de atenção, hiperatividade, dependência de drogas, abuso de medicamentos, entre outros.

Ósculos e amplexos,

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