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Interrompido – Do jeito mais cruel (Episódio 18)
A visita com que Lourdes se depara não foi a última pessoa a esperar e esse encontro teve um profundo impacto sobre ambas.
Mishael Mendes access_time 22 min. de leitura
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Se o que Lourdes pensou ter visto já foi perturbador o suficiente pra deixá-la aflita, quanto mais a realidade com a qual topou, essa se mostrou ainda mais terrífica.

O fim inevitável chegou e dessa vez Cadu se foi sem qualquer chance de retorno, mas o pior era ter consciência de ser a responsável pela morte dele, caso não tivesse dito aquelas palavras, seu garotinho não a teria deixado pra sempre.

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Devagar, Lourdes ousou se aproximar, assim, caso não fosse quem pensava ser ainda tinha como disfarçar e evitar alguma cena constrangedora – ainda mais naquele momento tão delicado – só que antes de estar perto suficiente pra avaliar a fisionomia, a pessoa se virou e lhe deu um abraço inesperado.

Ao invés de ficar espantada ou se afastar, tudo o que ela pode fazer naquele instante foi chorar também, o abraço recebido foi tão real que uniu a alma de ambas num sentimento que levou-as as lágrimas.

Embora a imprudência do descendente da mulher apegada a si é que tivesse interrompido a vida de Cadu, ocasionado em lamento por uma perca irreparável, pelo menos ainda pode estar com Cadu até o último momento, já a outra teve o filho arrancado do jeito mais cruel possível: sem poder dizer adeus.

Não foram necessárias palavras, nem confirmar se Elis tinha mesmo estado no hospital, a ligação entre elas tornou todo resto desnecessário e o abraço possibilitou conforto e perdão. Mesmo restando incógnitas Lourdes deu o assunto por encerrado, afinal, não há necessidade de entender tudo pra aproveitar os mistérios da vida.

Quando se afastaram, Lourdes aproveitou pra enxugar o rosto, só aí percebeu que, da mesma forma que chegou – sem ser percebida por ninguém – Elis havia partido não deixando qualquer rastro ou migalhas de sua passagem por ali – e isso tudo num simples secar de lágrimas.

Rapidamente a atenção se voltou pro caixão, de onde tenebrosos tentáculos invisíveis lhe espremeram o corpo, querendo puxá-la pras entranhas da terra, obrigando-lhe a segurar com força na borda do esquife pra conseguir se manter em pé, enquanto as lágrimas voltaram a verter, aliviando o peso que tentava a por pra baixo.

“Não há necessidade de entender tudo pra aproveitar os mistérios da vida.”

Algo no qual sempre acreditou ser um dos princípios invioláveis da natureza é a ordem de partida, onde os pais deviam ir antes de suas crias, o contrário parecia tão antinatural – e de forma alguma era justo, ela já havia passado por isso quando teve de enterrar os pais.

Agora, lá estava ela novamente, prestes a sepultar o único filho – sofrimento demais a qual pai nenhum devia ter de passar, afinal, não existe dor mais excruciante que a perca de um filho, inclusive, especialista que trabalham com pessoas em luto são unânimes em concordar que, na escala de dor, essa é a pior de todas.

— Amor, a vida do Cadu não era responsabilidade sua, só D-s tem o dom da vida. Todo tempo que ele esteve vivo, foi porque D-s quis assim e se não fosse a hora de ir, nosso filho teria retornado pra gente.

Marcos pretendia apenas servir de apoio pra esposa e abraçá-la, mas as palavras ecoaram, vindas da conexão com a eternidade em si, ao perceber já as tinha dito. Quanto elas atingirem os ouvidos de Lourdes, o som reverberou por todo corpo e ela sentiu um imenso fardo ser retirado de si, pois até aquele momento achava ter total responsabilidade pela vida de Cadu.

— Foi isso que fez eu me tornar enfermeira. – E com essas palavras, Socorro fez as imagens do que se contou dispersar. – Menino Luan, a dor e a incerteza podem até nos machucar e deixar assustados, só não tem o direito de roubar nossa esperança.

A enfermeira chegou ao fim de um relato que até não durou mil e uma noites, mas se arrastou por um bom tempo, obtendo o mesmo efeito em mantê-lo cada vez mais interessado na continuação da história – era inegável o poder de encantamento possuído por ela.

Tendo atuado em diferentes áreas – e se imaginado fazendo várias outras coisas – ela, se quer, cogitou trabalhar com saúde, até ser alcançada num momento difícil. O impacto foi tamanho, a ponto de fazê-la perceber a vida por outra perspectiva, então se deu conta de conseguir realizar tanto ou mais que aquela mulher [João 14.12].

Compelida pelo chamado da enfermagem, optou pela área, assim podia ajudar as pessoas a verem a vida pela ótica da esperança – que lhe resgatou [Romanos 8.24-25] – a encontrarem um recomeço através da ajuda que podia proporcionar.

“A dor e a incerteza podem até nos machucar e deixar assustados, só não tem o direito de roubar nossa esperança.”

Por ser a enfermagem uma área dinâmica e vital, precisou se empenhar pra dominar os protocolos e desenvolver as habilidades necessárias, pois desejava exercer um cuidado pautado na caridade – amor implica em dedicação, só assim é possível alcançar a excelência [Colossenses 3.23].

Afinal, assim como o amor exige diligência, resultando no despender de atenção, a enfermagem necessita de competências técnicas e práticas pra se obter qualidade e segurança no atendimento – o que não advém apenas da vontade de fazer o bem, pois desejo sem entrega é ineficaz, assim como a fé sem obras é morta, sendo incapaz de pode produzir qualquer efeito [Tiago 2.17].

Ainda assim não foi fácil, Socorro enfrentou dificuldades, teve de contornar empecilhos como a pouca valorização mesmo a profissão sendo essencial, além da falta de regularização da carga-horária de trabalho.

Mesmo focada, ainda precisou filtrar ou ignorar as opiniões – não solicitadas – dizendo não precisar fazer aquilo, pois era boa em outras coisas, que enfermagem exigia demais de si e, realmente, isso tudo era verdade. O mais difícil foi ter ouvido isso de pessoas próximas, parentes e até mesmo de profissionais os quais admirava, dizendo que talvez não tivesse feito a melhor escolha.

“Amor implica em dedicação, só assim é possível alcançar a excelência.”

Felizmente, pode contar com o apoio incondicional do marido, amigos e irmãos, além de encontrar forças em D-s [Neemias 8.10] – outro fator decisivo foi a percepção de onde podia chegar. Não espere que as pessoas celebrem seu sonho, apoiando suas escolhas, é difícil acreditar em algo que só você pode ver, admiração e respeito só costuma vir após muita persistência e trabalho duro, logo após se obter sucesso.

E foi a insistência quem provou a certeza de suas convicções. Ao servir ao próximo ela podia experimentar um bem-estar e satisfação mais amplos do que quando fazia algo prazeroso por si mesma – ao fazer o bem, sem interesses egoístas, voltamos a essência e nos tornamos mais próximos de D-s, desfrutando de uma sensação profunda plenidão e felicidade.

— Agora você precisa descansar um pouco, menino Luan. – Socorro o cobriu. – Depois a gente conversa mais. – Tendo dito isso, a enfermeira saiu, fechando a porta atrás de si.

Luan apenas permaneceu imóvel, felizmente a enfermeira foi mais rápida e saiu sem esperar qualquer resposta, até porque diante de tanta informação seria necessário um tempo pra processar tudo aquilo antes de poder dizer qualquer coisa, assim se sentiu grato pela sensibilidade de Socorro e pelo silêncio tão bem-vindo.

“Desejo sem entrega é ineficaz, assim como a fé sem obras é morta, sendo incapaz de pode produzir qualquer efeito”

Após um período rememorando os pixels daquele mosaico de fatos tão bem costurados pela narração de Socorro, uma inquietação – resultado da picada do bichinho do questionamento – o fez desconfiar haver mais coisas naquela história.

Mesmo sendo inspiradora, não era algo pra sair falando pra qualquer um, ainda assim a enfermeira lhe contou tudo em detalhes, exatamente aí que estava o problema, ela parecia conhecer tudo com muita precisão.

Que Socorro era uma excelente contadora de histórias isso deve ter ficado bem claro – você não concorda? – mas haviam nuances demais se misturando com profundidade no relato, contudo, sem qualquer incongruência e, além da seriedade, a enfermeira não precisava de fantasias pra se fazer importante, apenas a presença dela tornava o ambiente diferente e iluminado, o que o fez pensar se ela seria um anjo.

Se fosse seguir apenas sua percepção essa seria a resposta mais apropriada, afinal, anjos são mensageiros, às vezes divinos, em outras, humanos, enviados pra nos lembrar o que realmente é importante manter em nossas vidas.

“Não espere que as pessoas celebrem seu sonho, apoiando suas escolhas, é difícil acreditar em algo que só você pode ver, admiração e respeito só costuma vir após muita persistência e trabalho duro, logo após se obter sucesso.”

Acostumado ao método científico, ao invés de se prender apenas as implicações da percepção, além de suposições, resolveu pesquisar a história afundo e descobrir de uma vez por todas se havia mesmo algo detrás de tudo aquilo. Caso a resposta fosse negativa pelo menos ia poder aquietar as perguntas que não paravam de lhe brotar na mente.

Sem se conter, Luan se ajeitou leito, pegou o iPad e, utilizando o MindMeister, criou um mapa mental, traçando o que precisava descobrir, daí iniciou as pesquisas. Até conseguir concluir as buscas, obtendo as respostas necessárias, foram necessários alguns dias – já que não pode se dedicar integralmente a tarefa pra não levantar suspeitas, além de estar reescrevendo a série que havia sido retomada, pelo menos no que se referia ao roteiro.

Como a memória costuma não apresentar informações com a mesma exatidão em que os fatos ocorreram ou foram percebidos, ele fez igual aos investidores e criou um painel semântico – mais conhecido como quadro de evidências ou painel de investigação – assim, além de facilitar visualizar tudo aquilo, evitava misturar os insights das pesquisas aos da escrita.

Só que, pra não ser visto por ninguém, inclusive Socorro – a quem investigava – ao invés de utilizar a parede pra isso, lançou mão do Miro – um app de quadro branco que costumava usar pra lhe direcionar a escrita, com características dos personagens, amostra de cores pra cenários e roupas, fotos de lugares e coisas, flores, perfumes, símbolos, frases, versos e tudo mais que pudesse lhe despertar a criatividade.

“Ao fazer o bem, sem interesses egoístas, voltamos a essência e nos tornamos mais próximos de D-s, desfrutando de uma sensação profunda plenidão e felicidade.”

Já no painel de investigação, foi adicionando imagens, palavras-chave, trechos importantes e até vídeos encontrados pra facilitar ver o plano geral e as possíveis relações, enquanto elaborava, testava hipóteses e verificava as possíveis lacunas nos dados ou mesmo em seu raciocínio, conseguindo organizar as ideias de maneira mais clara e estruturada, afinal, nada como algo mais visual pra sintetizar o espírito da coisa.

E, em meio as investigações, acabou encontrando além do que se dispôs a buscar, descobriu mais sobre si mesmo e o motivo de estar naquele hospital. Ele sabia que a internação se deu devido ao acidente sofrido – isso a memória não lhe deixava esquecer – mas a razão envolvida no que o levou a tamanha fatalidade era bem mais complexa.

Antes mesmo de saber da morte da mãe, ele já não andava se sentido bem, o relacionamento com o pai e a irmã não eram tão bons, daí vieram as restrições pra evitar a disseminação do COVID-19 que o forçaram a ficar preso em casa sem poder, se quer, fazer os passeios noturnos com Kiron, um akita inu muito dócil, leal e bastante ciumento, o único com quem Luan sentia ter uma conexão real naquela casa – um verdadeiro raio de sol, conforme seu nome em sânscrito.

“Anjos são mensageiros, às vezes divinos, em outras, humanos, enviados pra nos lembrar o que realmente é importante manter em nossas vidas.”

Nesse ambiente, ele começou a ser sufocado por um peso que, mesmo respirando fundo não conseguia dispersar. Nem os banhos gelados foram capazes de retirar aquela coisa que parecia grudada, aumentando-lhe a temperatura até ficar completamente encharcado.

Ainda assim foi levando como deu, se tivesse mudado antes talvez as coisas estivessem menos conflitantes, mas a real é que mesmo já tendo idade pra ter o próprio apê, além de independência financeira pra isso, ele tinha medo de acabar sozinho, então preferiu continuar como estava – afinal, já estava acostumado mesmo.

Pra tornar a situação menos insuportável resolveu trocar o dia pela madrugada, o que acabou se mostrando mais produtivo, pois o silêncio somado ao refrescante vento da madrugada eram ótimos companheiros, enquanto as músicas nos earbuds estéreos o transportavam pra onde a criatividade desejasse ir.

Além de uma boa trilha sonora – que lhe arrancava os sentimentos necessários a serem eternizados em sua arte – pra focar na escrita, costumava ficar a sós, não apenas fisicamente, mas também das interações virtuais, desativando todas notificações e programando o iPhone pra rejeitar qualquer ligação que não estivesse na lista de prioridades.

“A memória costuma não apresentar informações com a mesma exatidão em que os fatos ocorreram ou foram percebidos.”

Um ambiente organizado também era essencial, por isso mantinha o quarto sempre bem asseado, apenas com o Mac e um vasinho de suculentas – presente da mãe – sobre a mesa e na parede um painel de cortiça onde estava sua versão física do painel semântico, dividido entre as atuais criações.

Como a mente costumava ir longe quando no estado de flow, antes de escrever fazia os apontamentos no mapa mental ou no painel semântico, daí desconectava a internet, voltando a ligá-la em busca de informações pra embasar algo, apenas no momento de revisão. Dessa forma impedia o senso crítico – responsável pela estrutura e coesão – de mutilar seu espírito criativo, despojado e sem qualquer noção de gramática ou regras de escrita, mas que possibilitava uma profundidade e lirismo sem precedentes, impregnando de verdade sua escrita.

Mesmo incomodado e sentindo se perder de si a cada dia, ainda teria conseguido ficar assim por um bom tempo, até saber da morte da mãe. Ao receber a notícia, sentiu que a mão a qual o mantinha suspenso na beirada do arranha-céu estava prestes a se soltar, depois de tanto esforço pra evitar cair e virar molho.

“Ficar assustado faz parte, tudo que a gente percebe não poder controlar causa medo.”

Tentando fugir de todo aquele estresse, pegou a BMW e se mandou, mesmo o pai tendo aconselhado a ficar em casa e esperar um pouco mais, pelo menos até as coisas melhorarem, mas ele já não tinha medo de nada, nem mesmo de contrair o coronavírus.

Luan já esperara demais e agora o que restava era apenas tocar o corpo sem vida da mãe – o qual já não lhe daria mais abraços tão aconchegantes – isso se saísse logo dali.

Antes das memórias prosseguirem e ele compreender mais de si, a mente foi tomada de nuvens negras e o olhar se perdeu – aqueles sentimentos revirados eram densos demais pra serem perscrutados.

Tudo escureceu, a ponto de não dar pra saber se era dia ou noite, Luan lembrava apenas de ter saído de casa pouco depois das seis da manhã.

Enquanto a moto seguia em alta velocidade, uma chuva torrencial começou a cair, o tempo, deprimente e opressivo, despertou nele uma série de sentimentos que achou estar enterrados e ele se viu obrigado a arrancar tudo aquilo de dentro de si.

Com o aguaceiro, caindo feito cachoeira, a visibilidade ficava cada vez mais comprometida até estar quase nula, mas nem assim ele reduziu a velocidade. Através das soturnas trevas sentiu-se observado e quanto mais rápido avançava maior se tornava a sensação de estar sendo vigiado bem de perto, olhando ao redor, buscou a direção de onde vinha a sensação, mas não havia mais nada a não ser a pista e a mata lhe cercando.

Ao voltar a atenção pra frente, um par de olhos, ávidos por serem notados, o encarando fixamente, toda estrada pareceu convergir pra eles, o vento, a chuva e o tempo desacelerou e uma presença tenebrosa encheu o ambiente, o incendiando de pavor. Mesmo tremendo, tanto de medo quanto pelo frio congelante a lhe rasgar a pele – que transpassou o macacão térmico como se constituído de papel de seda – ele seguiu na velocidade máxima pra escapar o quanto antes daquela visão, quando deu por si, se espantou ao ver que tinha acabado de entrar na Curva da Onça.

A exitação de surpresa fez os olhos aterradores se encher da mais pura e visceral maldade, tamanho prazer a percepção lhe deu que ambos expeliram faíscas de fogo, enquanto isso quatro presas salivantes surgiram bem na frente dele.

Dominado por um medo abismal e inoculante, sentiu a mordida mais poderosa dentre os felinos, quando os caninos lhe perfuraram o crânio a força da mandíbula os empurrou até atingir o cérebro, no mesmo instante, Luan se deu conta que a tempos o felino o rondava [1 Pedro 5.8], mas camuflado pela ansiedade pode se aproximar silenciosamente. Sem ser percebido, se preparou pra dar o bote no momento em que o garoto se encontrou mais vulnerável, então o devorou completamente.

Tão profundas foram as sensações que Luan despertou com o coração prestes a rasgar o peito, além do corpo embebe de suor. Ele se pegou respirando profundamente, como se estivesse sem ar, enquanto tentava manter a calma.

— Ficar assustado faz parte, tudo que a gente percebe não poder controlar causa medo. – A voz de Socorro aconselhou, dizendo exatamente o que necessário pra respiração abrandar, embora parecesse sugerir algo que ele é quem devia saber.

Nisso, Luan olhou pra fora e contemplou o horizonte, com o dia despontando atrás das árvores numa faixa esverdeada – resultado da interação entre o azul do céu e o amarelo do sol que surgia radiante. Ao olhar pra porta a enfermeira não estava mais lá, ela havia saído sem nem ser percebida.

Atraído novamente pra janela, os olhos contemplaram o sol a raiar e, conforme avançava no céu, foi lhe dissipando a escuridão e o medo que haviam em seu coração [Malaquias 4.2]. Quando a mente foi renovada de luz, ele recobrou a memória da motivação por tanta pressa – algo que estava ligado aos pesadelos tão vívidos a lhe atormentar durante as noites.

— Eu queria morrer! – Ele se pegou dizendo, ainda assim sem conseguir acreditar na percepção tão clara proferida pela boca.

Por esse motivo a mente vinha reproduzindo o acidente de forma tão violenta e assustadora, pra mostrar o tamanho da dor e sofrimento que esteve prestes a causar a si mesmo e aos demais que lhe amavam – tudo isso sem lhe dizer diretamente, até ele estar pronto pra entender o que, de fato, tinha acontecido.

Ao se dar conta disso, a ideia lhe pareceu um imenso desvairo, mas quando saiu de casa, estava tão farto de tudo, e saber que não teria mais o refúgio onde se esconder, o fez querer aumentar a velocidade, enquanto ia mais e mais fundo naquele mar de sentimentos desoladores, até estar disposto a dar um fim em tudo aquilo. Quem sabe assim, podia reencontrar a mãe e ter de volta a segurança de seus braços?

Mas antes de se precipitar pelo despenhadeiro, logo após a perigosa Curva da Onça, foi atropelado e, além de perder a moto, perdeu a lembrança do motivo por seguir em alta velocidade num dos trechos mais perigosos e com altos índices de acidente do Sistema Anchieta-Imigrantes.

Ainda incrédulo do que pretendia – até o acidente o impedir de cometer ato tão hediondo contra si mesmo – pegou as muletas e se arrastou até o espelho. Depositando-as ficando um longo tempo, apenas observando a de lado, ficou estático, vendo o quão privilegiado era, ele não possuía qualquer problema físico, era bonito, tinha um lar e família pros quais voltar, além de recursos financeiros e a admiração e reconhecimento por um trabalho que tanto prazer lhe dava.

Tamanha percepção lhe roubou as palavras, o deixando sem ter o que dizer – algo bem irônico, pois ele vivia da escrita – se quer coragem pra isso teve, o reflexo a encará-lo mostrava o tamanho da barbaridade que queria cometer ao destruir aquela casa – onde tanto tempo e investimento foram necessários pra chegar a tal estatura – enterrando diversos sonhos e realizações antes mesmo de poderem florescer.

“Todos os dias a gente corre riscos que nem vê, por que não fazer isso por algo que valha a pena?”

Luan se deu conta de que o tempo passado a mais no hospital, mesmo já tendo recebido alta, não foi apenas pra poder ouvir toda história de Socorro, mas por uma razão maior que o fez querer ficar mesmo sendo avisado ser melhor partir pra evitar contrair COVID-19, ainda assim decidiu ficar, afinal, todos os dias a gente corre riscos que nem vê, por que não fazer isso por algo que valha a pena?

Agora ele entendia com exatidão o motivo de toda atração que Socorro exercia sobre si, pois havia algo a mudar, o qual ele só podia alcançar com a ajuda de algo tão cheio de luz, como um anjo.


#proximoepisodio

A descoberta de Luan tem um efeito surpreendente sobre si, assim como sobre seu corpo e, após ficar tanto tempo no mesmo lugar, tudo o que mais desejava era sair, voltar pra casa e pro convivo da família.

Finalmente chega o momento de deixar o hospital e ele se despede de Socorro, mas emocionado acabou se atrapalhando – será mesmo?

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

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