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Interrompido – Do jeito mais cruel (Episódio 18)
A visita com que Lourdes se depara não foi a última pessoa a esperar e esse encontro teve um profundo impacto sobre ambas.
Mishael Mendes access_time 21 min. de leitura
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Se o que Lourdes pensou ter visto já foi perturbador o suficiente pra deixá-la aflita, quanto mais a realidade com a qual topou, essa se mostrou ainda mais terrífica.

O fim inevitável chegou e dessa vez Cadu se foi sem qualquer chance de retorno, mas o pior era ter consciência de ser a responsável pela morte dele, caso não tivesse dito aquelas palavras, seu garotinho não a teria deixado pra sempre.

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Devagar, Lourdes ousou se aproximar, assim, caso não fosse quem pensava ser ainda tinha como disfarçar e evitar alguma cena constrangedora – ainda mais naquele momento tão delicado – só que antes de estar perto suficiente pra avaliar a fisionomia, a pessoa se virou e lhe deu um abraço inesperado.

Ao invés de ficar espantada ou se afastar, tudo o que ela pode fazer naquele instante foi chorar, o abraço recebido foi tão real que uniu a alma de ambas num sentimento que levou-as as lágrimas.

Embora a imprudência do descendente da mulher apegada a si é que tivesse interrompido a vida de Cadu, ocasionando numa perca irreparável, pelo menos ainda pode estar com Cadu até o último momento, já a outra teve o filho arrancado do jeito mais cruel possível: sem poder dizer adeus.

Não foram necessárias palavras, nem confirmar se Elis esteve no hospital, a ligação entre elas tornou todo resto desnecessário e o abraço possibilitou conforto e perdão. Mesmo restando incógnitas Lourdes deu o assunto por encerrado, afinal, não há necessidade de entender tudo pra aproveitar os mistérios da vida.

Quando se afastaram, Lourdes aproveitou pra enxugar o rosto, só aí percebeu que, da mesma forma que chegou – sem ser percebida por ninguém – Elis partiu sem deixar qualquer rastro ou migalhas de sua passagem por ali – num secar de lágrimas.

Rapidamente a atenção se voltou pro caixão, de onde tenebrosos tentáculos invisíveis lhe espremeram o corpo, querendo puxá-la pras entranhas da terra, obrigando-lhe a segurar com força na borda do esquife pra se manter em pé, enquanto as lágrimas voltaram a verter, aliviando o peso que a tentava por pra baixo.

“Não há necessidade de entender tudo pra aproveitar os mistérios da vida.”

Algo no qual sempre acreditou ser um dos princípios invioláveis da natureza é a ordem de partida, onde os pais deviam ir antes de suas crias, o contrário parecia antinatural – e de forma alguma era justo, ela já havia passado por isso quando teve de enterrar os pais.

Agora, lá estava ela novamente, prestes a sepultar o único filho – sofrimento demais a qual pai nenhum devia passar, afinal, não existe dor mais excruciante que a perca de um filho, inclusive, especialista que trabalham com pessoas em luto são unânimes em concordar que, na escala de dor, essa é a pior.

— Amor, a vida do Cadu não era responsabilidade sua, só D-s tem o dom da vida. Todo tempo que ele esteve vivo, foi porque D-s quis assim e se não fosse a hora de ir, nosso filho teria retornado pra gente.

Marcos pretendia apenas servir de apoio pra esposa e abraçá-la, mas as palavras ecoaram, vindas da conexão com a eternidade em si, ao perceber já as tinha dito. Quanto elas atingirem os ouvidos de Lourdes, o som reverberou por todo corpo e ela sentiu um imenso fardo ser retirado de si, pois até aquele momento achava ter total responsabilidade pela vida de Cadu.

— Foi isso que fez eu me tornar enfermeira. – E com essas palavras, Socorro fez as imagens da história dispersar. – Menino Luan, a dor e a incerteza podem até nos machucar e deixar assustados, só não tem o direito de roubar nossa esperança.

Socorro chegou ao fim de um relato que até não durou mil e uma noites, mas se arrastou por um bom tempo, obtendo o mesmo efeito em mantê-lo cada vez mais interessado na continuação – era inegável o poder de encantamento possuído por ela.

Tendo atuado em diferentes áreas – e se imaginado fazendo várias coisas – ela, se quer, cogitou trabalhar com saúde, até ser alcançada num momento delicado. O impacto foi tamanho, a ponto de fazê-la perceber a vida por outra perspectiva, então se deu conta de conseguir realizar tanto ou mais que aquela mulher [João 14.12].

Compelida pelo chamado da enfermagem, optou pela área, assim podia ajudar as pessoas a verem a vida pela ótica da esperança – que lhe resgatou [Romanos 8.24-25] – a encontrarem um recomeço através da ajuda que podia proporcionar.

“A dor e a incerteza podem até nos machucar e deixar assustados, só não tem o direito de roubar nossa esperança.”

Por ser a enfermagem uma área dinâmica e vital, precisou se empenhar pra dominar os protocolos e desenvolver as habilidades necessárias, pois desejava exercer um cuidado pautado na caridade – amor implica em dedicação, só assim é possível alcançar a excelência [Colossenses 3.23].

Afinal, assim como o amor exige diligência, resultando em despender atenção, a enfermagem necessita de competências técnicas e práticas pra se obter qualidade e segurança no atendimento – o que não advém apenas da vontade de fazer o bem, pois desejo sem entrega é ineficaz, assim como a fé sem obras é morta, sendo incapaz de produzir qualquer efeito [Tiago 2.17].

Ainda assim não foi fácil, Socorro enfrentou dificuldades, teve de contornar empecilhos, como a pouca valorização – mesmo a profissão sendo essencial – além da falta de regularização da carga-horária do trabalho.

Mesmo focada, ainda precisou filtrar ou ignorar as opiniões – não solicitadas – dizendo não precisar fazer aquilo, pois era boa em outras coisas, que enfermagem exigia demais de si e, realmente, isso tudo era verdade. O mais difícil foi ter ouvido isso de pessoas próximas, parentes e até mesmo de profissionais os quais admirava, dizendo que talvez não tivesse feito a melhor escolha.

“Amor implica em dedicação, só assim é possível alcançar a excelência.”

Felizmente, pode contar com o apoio incondicional do marido, amigos e irmãos, além de encontrar forças em D-s [Neemias 8.10] – outro fator decisivo foi a percepção de onde podia chegar. Não espere que as pessoas celebrem seu sonho, apoiando suas escolhas, é difícil acreditar em algo que só você pode ver, admiração e respeito só costuma vir após muita persistência e trabalho duro, logo após se obter sucesso.

E foi a insistência quem provou a certeza de suas convicções. Ao servir ao próximo ela podia experimentar um bem-estar e satisfação mais amplos do que quando fazia algo prazeroso por si mesma – ao fazer o bem, sem interesses egoístas, voltamos a essência e nos tornamos mais próximos de D-s, desfrutando de uma sensação profunda de plenidão e felicidade.

— Agora você precisa descansar um pouco, menino Luan. – Socorro o cobriu. – Depois a gente conversa mais. – Tendo dito isso, a enfermeira saiu, fechando a porta atrás de si.

Luan apenas permaneceu imóvel, felizmente a enfermeira foi mais rápida e saiu sem esperar qualquer resposta, até porque diante de tanta informação seria necessário um tempo antes de poder dizer qualquer coisa, assim se sentiu grato pela sensibilidade de Socorro e pelo silêncio tão bem-vindo.

“Desejo sem entrega é ineficaz, assim como a fé sem obras é morta, sendo incapaz de pode produzir qualquer efeito”

Após um período rememorando os pixels do mosaico de fatos bem costurados pela narração de Socorro, uma inquietação – resultado da picada do bichinho do questionamento – o fez desconfiar haver mais coisas naquela história.

Impulsionando pela certeza de haver algo a mais por baixo daquela camada de complexidade, sentiu a necessidade de descobrir as respostas que podiam provir dessa agitação.

Mesmo sendo um relato inspirador, não era algo pra sair falando pra qualquer um, ainda assim a enfermeira lhe contou tudo em detalhes. Exatamente aí que estava o problema, ela parecia conhecer tudo com muita precisão.

Que Socorro era uma excelente contadora de histórias isso deve ter ficado bem claro – você não concorda? – mas haviam nuances demais se misturando com profundidade no relato. Contudo, sem qualquer incongruência e, além da seriedade, a enfermeira não precisava de fantasias pra se fazer importante, apenas a presença dela tornava o ambiente diferente e iluminado, o que o fez pensar se ela seria um anjo.

Se fosse seguir apenas a percepção essa seria a resposta mais apropriada, afinal, anjos são mensageiros, às vezes divinos, em outras, humanos, enviados pra nos lembrar o que realmente é importante manter em nossas vidas.

“Não espere que as pessoas celebrem seu sonho, apoiando suas escolhas, é difícil acreditar em algo que só você pode ver, admiração e respeito só costuma vir após muita persistência e trabalho duro, logo após se obter sucesso.”

Acostumado ao método científico, ao invés de se prender apenas as implicações da percepção, além de suposições, resolveu pesquisar a história afundo e descobrir de uma vez por todas se havia mesmo algo detrás de tudo aquilo. Caso a resposta fosse negativa pelo menos ia poder aquietar as perguntas que não paravam de lhe brotar na mente.

Sem se conter, Luan se ajeitou leito, pegou o iPad e, utilizando o MindMeister, criou um mapa mental, traçando o que precisava descobrir, daí iniciou as pesquisas. Até conseguir concluir as buscas, obtendo as respostas necessárias, foram necessários alguns dias – já que não pode se dedicar integralmente a tarefa pra não levantar suspeitas, além de estar reescrevendo a série que havia sido retomada, pelo menos no que se referia ao roteiro.

Como a memória costuma não apresentar informações com a mesma exatidão em que os fatos ocorreram ou foram percebidos, ele fez igual investigadores e criou um painel semântico – mais conhecido como quadro de evidências ou painel de investigação – assim, além de facilitar visualizar tudo aquilo, evitava misturar os insights das pesquisas aos da escrita.

Só que, pra não ser visto por ninguém, inclusive Socorro – a quem investigava – ao invés de utilizar a parede pra isso, lançou mão do Miro – um app de quadro branco que costumava usar pra lhe direcionar a escrita, com características dos personagens, amostra de cores pra cenários e roupas, fotos de lugares e coisas, flores, perfumes, símbolos, frases, versos e tudo mais que pudesse lhe despertar a criatividade.

“Ao fazer o bem, sem interesses egoístas, voltamos a essência e nos tornamos mais próximos de D-s, desfrutando de uma sensação profunda de plenidão e felicidade.”

Já no painel de investigação, foi adicionando imagens, palavras-chave, trechos importantes e até vídeos encontrados pra facilitar ver o plano geral e as possíveis relações, enquanto elaborava, testava hipóteses e verificava possíveis lacunas nos dados ou mesmo no raciocínio, conseguindo organizar as ideias de maneira mais clara e estruturada, afinal, nada como algo mais visual pra sintetizar o espírito da coisa.

Foram necessários vários dias de muita pesquisa e resultados supreendentes e, ao final, acabou encontrando além do que se dispôs a buscar, descobriu mais sobre si mesmo e o motivo de estar no hospital. Ele sabia que a internação se deu devido ao acidente sofrido – isso a memória não lhe deixava esquecer – mas a razão envolvida no que o levou a tamanha fatalidade era mais complexa.

Antes mesmo de saber da morte da mãe, ele já não andava se sentido bem, o relacionamento com o pai e a irmã não eram tão bons, daí vieram as restrições pra evitar a disseminação do COVID-19 que o forçaram a ficar preso em casa sem poder, se quer, fazer os passeios noturnos com Kiron, um akita inu muito dócil, leal e bastante ciumento, o único com quem Luan sentia ter uma conexão real naquela casa – um verdadeiro raio de sol, conforme seu nome em sânscrito.

“Anjos são mensageiros, às vezes divinos, em outras, humanos, enviados pra nos lembrar o que realmente é importante manter em nossas vidas.”

Nesse ambiente, ele começou a ser sufocado por um peso que, mesmo respirando fundo não conseguia dispersar. Nem os banhos gelados foram capazes de retirar aquela coisa que parecia grudada, aumentando-lhe a temperatura até ficar completamente encharcado.

Ainda assim foi levando como deu, se tivesse mudado antes talvez as coisas estivessem menos conflitantes, mas a real é que mesmo já tendo idade pra ter o próprio apê, além de independência financeira pra isso, ele tinha medo de acabar sozinho, então preferiu continuar como estava – afinal, já estava acostumado mesmo.

Pra tornar a situação menos insuportável resolveu trocar o dia pela madrugada, o que acabou se mostrando mais produtivo, pois o silêncio somado ao refrescante vento da madrugada eram ótimos companheiros, enquanto as músicas nos earbuds estéreos o transportavam pra onde a criatividade desejasse ir.

Além de uma boa trilha sonora – que lhe arrancava os sentimentos necessários a serem eternizados em sua arte – pra focar na escrita, costumava ficar a sós, não apenas fisicamente, mas também das interações virtuais, desativando todas notificações e programando o iPhone pra rejeitar qualquer ligação que não estivesse na lista de prioritárias.

“A memória costuma não apresentar informações com a mesma exatidão em que os fatos ocorreram ou foram percebidos.”

Um ambiente organizado também era essencial, por isso mantinha o quarto sempre asseado, apenas com o Mac e um vasinho de suculentas – presente da mãe – sobre a mesa e na parede um painel de cortiça onde estava a versão física do painel semântico, dividido entre as atuais criações.

Como a mente costumava ir longe no estado de flow, antes de escrever fazia os apontamentos no mapa mental ou no painel semântico, daí desconectava a internet, voltando a ligá-la em busca de informações pra embasar algo, apenas no momento de revisão. Dessa forma impedia o senso crítico – responsável pela estrutura e coesão – de mutilar seu espírito criativo, despojado e sem qualquer noção de gramática ou regras de escrita, mas que possibilitava uma profundidade e lirismo sem precedentes, impregnando de verdade a escrita.

Mesmo incomodado e sentindo se perder de si a cada dia, ainda teria conseguido ficar assim por um bom tempo, até saber da morte da mãe. Ao receber a notícia, sentiu que a mão a qual o mantinha suspenso na beirada do arranha-céu estava prestes a seder, depois de tanto esforço pra não cair do precipício.

“Ficar assustado faz parte, tudo que a gente percebe não poder controlar causa medo.”

Tentando fugir de todo aquele estresse, pegou a BMW e se mandou, mesmo o pai tendo aconselhado a ficar em casa e esperar um pouco mais, pelo menos até as coisas melhorarem, mas ele já não tinha medo de nada, nem mesmo de contrair coronavírus.

Luan já esperara demais e agora o que restava era apenas tocar o corpo sem vida da mãe – o qual já não lhe daria mais os abraços aconchegantes – isso se saísse logo dali.

Antes das memórias prosseguirem e ele compreender mais de si, a mente foi tomada de nuvens negras e o olhar se perdeu – aqueles sentimentos revirados eram densos demais pra se prescrutar.

Tudo escureceu, a ponto de não dar pra saber se era dia ou noite, Luan lembrava apenas de ter saído de casa pouco depois das seis da manhã.

Enquanto a moto seguia em alta velocidade, uma chuva torrencial começou a cair, o tempo, deprimente e opressivo, despertou nele uma série de sentimentos que achou estar enterrados e ele se viu obrigado a arrancar tudo aquilo de dentro de si.

Com o aguaceiro, caindo feito cachoeira, a visibilidade ficava cada vez mais comprometida até estar quase nula, mas nem assim reduziu a velocidade. Através das soturnas trevas sentiu-se observado e quanto mais rápido avançava maior se tornava a sensação de estar sendo vigiado bem de perto, olhando ao redor, buscou a direção de onde vinha a sensação, mas não havia nada além da pista e a mata a lhe cercar.

Ao voltar a atenção pra frente, um par de olhos, ávidos por serem notados, o encaravam fixamente, toda estrada pareceu convergir pra eles, o vento, a chuva e o tempo desacelerou e uma presença tenebrosa encheu o ambiente, o incendiando de pavor. Mesmo tremendo, tanto de medo quanto pelo frio congelante a lhe rasgar a pele – que transpassou o macacão térmico como se fosse constituído de papel de seda – ele seguiu na velocidade máxima pra escapar o quanto antes daquela visão, quando deu por si, se espantou ao ver que tinha acabado de entrar na Curva da Onça.

A exitação de surpresa fez os olhos aterradores se encher da mais pura e visceral maldade, tamanho prazer a percepção lhe deu que ambos expeliram faíscas de fogo, enquanto isso quatro presas salivantes surgiram bem na frente dele.

Dominado por um medo abismal e inoculante, sentiu a mordida mais poderosa dentre os felinos, quando os caninos lhe perfuraram o crânio a força da mandíbula os empurrou até atingir o cérebro, no mesmo instante, Luan se deu conta que a tempos o felino o rondava [1 Pedro 5.8], mas camuflado pela ansiedade pode se aproximar silenciosamente. Sem ser percebido, se preparou pra dar o bote no momento em que o garoto se encontrou mais vulnerável, então o devorou completamente.

Tão profundas foram as sensações que Luan despertou com o coração prestes a rasgar o peito, além do corpo embebe de suor. Ele se pegou respirando profundamente, como se estivesse sem ar, enquanto tentava manter a calma.

— Ficar assustado faz parte, tudo que a gente percebe não poder controlar causa medo. – A voz de Socorro aconselhou, dizendo exatamente o necessário pra respiração abrandar, embora parecesse sugerir algo que ele é quem devia saber.

Nisso, Luan olhou pra fora e contemplou o horizonte, com o dia despontando atrás das árvores numa faixa esverdeada – resultado da interação entre o azul do céu e o amarelo do sol que surgia radiante. Ao olhar pra porta a enfermeira não estava mais lá, ela havia saído sem nem ser percebida.

Atraído novamente pra janela, os olhos contemplaram o sol a raiar e, conforme avançava no céu, foi lhe dissipando a escuridão e o medo que haviam em seu coração [Malaquias 4.2]. Quando a mente foi renovada de luz, ele recobrou a memória da motivação de tanta pressa – algo que estava ligado aos pesadelos tão vívidos a lhe atormentar durante as noites.

— Eu queria morrer! – Ele se pegou dizendo, ainda assim sem conseguir acreditar na percepção tão clara proferida pela boca.

Por esse motivo a mente vinha reproduzindo o acidente de forma tão violenta e assustadora, pra mostrar o tamanho da dor e sofrimento que esteve prestes a causar a si mesmo e aos demais que lhe amavam – tudo isso sem lhe dizer diretamente, até ele estar pronto pra entender o que, de fato, tinha acontecido.

Ao se dar conta disso, a ideia lhe pareceu um imenso desvairo, mas quando saiu de casa, estava tão farto de tudo, e saber que não teria mais o refúgio onde se esconder, o fez querer aumentar a velocidade, enquanto ia mais e mais fundo naquele mar de sentimentos desoladores, até estar disposto a dar um fim em tudo aquilo. Quem sabe assim, podia reencontrar a mãe e ter de volta a segurança de seus braços?

Mas antes de se precipitar pelo despenhadeiro, logo após a perigosa Curva da Onça, foi atropelado e, além de perder a moto, perdeu a lembrança do motivo por seguir em alta velocidade num dos trechos mais perigosos e com altos índices de acidente do Sistema Anchieta-Imigrantes.

Ainda incrédulo do que pretendia – até o acidente o impedir de cometer ato tão hediondo contra si mesmo – pegou as muletas e se arrastou até o espelho. Depositando-as do lado, ficou um longo tempo, apenas observando a si mesmo, vendo o quão privilegiado era, ele não possuía qualquer problema físico, era bonito, tinha um lar e família pros quais voltar, além de recursos financeiros e a admiração e reconhecimento por um trabalho que tanto prazer lhe dava.

Tamanha percepção lhe roubou as palavras, o deixando sem ter o que dizer – algo irônico já que ele vivia da escrita – se quer coragem pra isso teve, o reflexo a encará-lo mostrava o tamanho da barbaridade que queria cometer ao destruir aquela casa – onde tanto tempo e investimento foram necessários pra chegar a tal estatura – enterrando diversos sonhos e realizações antes mesmo de poderem florescer.


#proximoepisodio

A descoberta de Luan tem um efeito surpreendente sobre si, assim como sobre seu corpo e, após ficar tanto tempo no mesmo lugar, tudo o que mais desejava era sair, voltar pra casa e pro convivo da família.

Finalmente chega o momento de deixar o hospital e ele se despede de Socorro, mas emocionado acabou se atrapalhando – será mesmo?

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

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