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Não faça como Romeu e Julieta
Somos dopas de amor, diluído em comédia romântica, romances, até em gêneros de ação e drama porque o amor vende
Por Mishael Mendes access_time 15 min. de leitura

“Amar, mais que confissão de lábios é entrega completa.”

Mishael Mendes [Marcos 12.29-31]

Cartas pra Julieta

Após conhecer uma novinha no baile da família dela, um garoto se apaixona perdidamente, o problema é que a família de ambos é tretada e ela está comprometida. Como o amor entre os dois cresce de forma avassaladora, eles decidem ficar juntos pra sempre, mas o destino atrapalha e causa a morte de ambos. Assim termina uma das mais famosas e trágicas histórias de amor.

Escrita por Shakespeare no início de sua carreira, entre 1591 e 1595, a tragédia de “Romeu e Julieta” (“Romeo and Juliet“) vem tocando pessoas desde então, atraindo casais pra Verona, na Itália. E inspirando apaixonados a enviar cartas endereçadas a Julieta, atrás de conselhos em  diferentes idiomas, conforme podemos ver no livro “Cartas para Julieta” (“Letters to Juliet“, de 2006), de Lise e Ceil Friedman, que inspirou o filme de mesmo nome, de 2010. Todas as cartas são respondidas por voluntários do Juliet Club que, no “Dia dos Namorados”, entrega o prêmio “Cara Giulietta” ao autor da carta de amor mais tocante.

Faça amor, não faça guerra

Será que realmente sabemos o que é o amor? Cada vez mais temos nomeado diferentes experiências como amor, até utilizando o termo “fazer amor” não só pra suavizar a prática sexual – como se ela fosse suja – mas pra mascarar um envolvimento sem compromisso e qualquer interesse além do prazer – como vimos por aqui. Popularizada em 1965 através dos ativistas radicais Penelope, Franklin Rosemont e Tor Faegre, a frase “faça amor, não faça guerra” serviu de slogan antiguerra da contracultura americana pra influenciar o “amor livre” e exterminar o casamento, já que as pessoas desse grupo apoiavam a guerra e favoreciam o capitalismo – que depois eles mesmos ajudaram a empoderar e a enriquecer, sendo Steve Jobs a maior referência no assunto.

De lá pra cá, a força desse sentimento foi banalizada, a gente acaba dizendo mais “eu te amo” ou “amo você” que ursinho de R$ 1,99 e com menos efeito – é preciso fazer mais que mostrar, como exposto aqui. Segundo Zygmunt Bauman, em “Amor Líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos” (“Liquid Love – On the Frailty of Human Bonds“, de 2003), isso faz o relacionamento atual não ser o último e expõe nossa ânsia de viver outras experiências grandiosas, conforme vemos romanticamente retratado na mídia e nas artes. Só que essa desvalorização vem de séculos atrás, algo denunciado por Shakespeare em “Romeu e Julieta”.

Ai de mim que sou romântico

Apesar das diversas adaptações e de sua imensa influência – que nomeou uma mistura que atinge o grau de perfeição: queijo com goiabada – o que Shakespeare narrou não foi um amor grandioso com sua força inevitável, mas que se entregar as paixões [1 João 2.16] pode ser destrutivo. Como mostra “Paixões Perigosas” (“Silk Stalkings”, de 1991) ou a série documental “Paixões Perigosas” (“Deadly Affairs”, de 2012). Porém, após uma obra ser lapidada por uma artista, ganha vida própria e cada um lhe atribui o sentido desejado – ainda mais quando adaptações a mutilam – e foi o que houve com “Romeu e Julieta”. O que vemos não é o relato de um romance de tirar o fôlego, mas a descrição de um relacionamento tóxico. A instabilidade de Romeu fica clara pela inclusão de Rosalina, como aponta Charles Dibdin, em “Shakespearean Criticism” (em livre pt-BR: “Crítica Shakespeareana”), a qual ele gostava a ponto de estar na bad por não ser correspondido, até ver sua prima e ficar caidinho por ela.

No instante em que conhece Julieta, o garoto esquece seu amor pela prima dela e passa a declamar as mais belas palavras de amor, cujo exagero mostra ser guiado pelos impulsos. Novinha pra entender algo sobre o amor, e com a chance de escapar de um casamento forçado aos treze, a mina pira e lhe dá moral ao entregar seu coração – se tivesse um pouco de malícia teria feito igual Anna Rosa Lopes, protagonista de “Princesa Adormecida“, de 2014, da Paula Pimenta, e dado um chega pra lá no embuste. Frei Lourenço ainda tenta advertir sobre a pressa sem motivo, mas não é ouvido e a junção acaba resultando na morte do amigo de Romeu, do primo de Julieta, além de aumentar a briga entre suas famílias a ponto de necessitar o envolvimento do rei; o noivo da garota é assassinado e os amantes se suicidam – maior grau de toxicidade um relacionamento não podia ter.

A paixão me pegou

Paixão é o estágio na vida onde, de forma inconsciente, somos atraídos por uma pessoa em nível biológico básico, porque o instinto sabe que a mistura dos genes produzirão filhos saudáveis. Isso acontece de forma tão profunda que pensar nela faz o coração disparar, as pernas bambearem, as mãos suarem e o rosto corar. A gente fica meio bobo – ou mais afetivo – e acaba dando pala. A lembrança da pessoa é suficiente pra liberar dopamina pelo corpo, conforme mostrou um estudo de 2005, publicado no The Journal of Comparative Neurology – já que fica carregada de lembranças intensas, como mostra o poema “Flamejante Verdor – Seus olhos em minha mente“. Por isso, basta ver a pessoa, falar nela ou ver sua foto que as pupilas dilatam, causando o efeito de olhos brilhando.

A pessoa passa a habitar nossos pensamentos, inundando o corpo de neurotransmissores e melhorando nosso humor com sensações de prazer, recompensa e relaxamento. O que faz a gente perder a fome, o foco distanciar e a sensibilidade a dor reduzir, conforme um estudo de 2010, publicado na revista PLoS ONE – razão porque mesmo pisoteado o ser apaixonado parece não se importar com sua condição. Mas nem tudo floresce hormônios bons, conforme aumenta a ansiedade em encontrar o crush passamos a vê-lo em todos os cantos – como poetizado em “Você está aonde miram os olhos meus” – além disso, a insegurança por desconhecer os sentimentos do ser amado, se seremos rejeitados ou não, e sobre o momento certo em declarar algo mais profundo, aumenta os níveis de cortisol, conforme um estudo de 2004, e ficamos mais estressados.

O frio causado pelas borboletas

A paixão também é conhecida pelo nervosismo e excitação que provoca um frio na barriga – causado pelas borboletas no estômago – que também acontece quando estamos ansiosos por algum acontecimento importante. Surgida em 1908, a expressão apareceu com sentido negativo: “deu-lhe uma sensação triste, como se tivesse borboleta no estômago”, até em 1943, Bill Gardener a usar pra explicar sua experiência de saltar de paraquedas, dando o sentido usado até hoje, “aterrissei bem, embora, sempre sinto borboletas no estômago toda vez que subo”.

Expressões que utilizam a região abdominal, como “boca do estômago”, “revirando o estômago” e “empurrar com a barriga”, são usadas desde a antiguidade. No hebraico raḥam (útero), cujo plural traz o significado de intestino, amor terno, coloca as entranhas como a sede dos sentimentos. Essa associação se dá devido ao eixo intestino-cérebro, cuja conexão direta acontece por neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina, que regulam o humor e as emoções. Quando estamos nervosos ou agitados, o cérebro límbico, ou emocional, ativa o nervo vago que vai do cérebro ao intestino, causando o efeito de borboletas no estômago.

Via dolorosa

Devido as fortes emoções – positivas também negativas – que passamos na fase da paixão, ela foi nomeada com um nome sofrido. Vindo do latim passio, seu significado é “sofrimento, ato de suportar”, de pati, “sofrer, aguentar”, do grego pathe, “sentir” que originalmente servia tanto pra coisas boas como ruins, mas a segunda acabou ficando marcada. Por volta do século XIV, a paixão adquiriu o sentido de “forte emoção, desejo”, até chegar em “entusiasmo, grande apreço, predileção”.

Conforme um estudo de 2017, publicado na revista Philosophy, Psychiatry, & Psychology, a paixão pode nos fazer entrar num estado de vício porque as mesmas áreas de dependência química são ativadas – conforme mostra o poema “O que veem seus olhos pela janela?“. Como qualquer outro vício, a paixão pode ser satisfeita temporariamente e quando isso não ocorre por um longo tempo pode causar abstinência. Além disso, a alta descarga de oxitocina e serotonina proporcionada pelos beijos e carícias pode nos deixar agitados e inconsequentes – explicando porque deu ruim com Romeu e Julieta.

Caminho da roça

Apesar das cores de sofrimento, lágrimas, corações partidas e impulsividade usadas pra pintar a paixão, ela é uma fase importante, mesmo com sua cegueira que nos faz enxergar a pessoa como queremos e não como ela é. O excesso de hormônios liberados torna o momento emocionante e excitante, proporcionando prazer e felicidade aos casais. Ao longo dos meses o estresse começa a desaparecer e os níveis de cortisol voltam ao normal, conforme os vínculos são criados, como apontou estudo de 2005, publicado na Neuroendocrinology Letters.

As mudanças fisiológicas provocadas nessa fase criam reações inebriantes que geram familiaridade, algo importante pra aumentar o nível de conexão, e conforme os vínculos entre os parceiros se formam e vão se aprofundando, surge o deseja de permanecer pra construir algo junto, enquanto prepara pra viver uma ligação sobrenatural. Dessa forma somos impulsionados a nos doar mais pra felicidade do outro e construir a base onde o amor será erguido. Onde nos tornamos um [Gênesis 2.24] em objetivos e realizações.

Esse sentimento expira em…

Por mais que a cultura mostre que esse tipo de relação intensa é permanente, capaz de esperar a pessoa, “nem que já esteja velhinha gagá”, como poetiza a composição de Bruno Caliman, “Te esperando”, de 2013, baseada no clip “The One That Got Away” (em livre pt-BR: “Aquele que se foi”), de Katy Perry, com letra composta por ela em parceria com Lukasz Gottwald e Martin Max, em 2010; numa versão atual de “Eduardo e Monica”, do Renato Russo, de 1986 – que gerou o filme, de 2020 – não é isso o que acontece na vida. Na real, a paixão tem prazo de validade e dura no máximo de dois a três anos, conforme apontou em entrevista ao TODAY, o doutor Fred Nour, neurologista em Mission Viejo, Califórnia, autor do livro “True Love – How to Use Science to Understanding Love” (em livre pt-BR: “Amor verdadeiro – Como usar a ciência pra entender o amor”, de 2017). Aceitar isso aumenta a chances de felicidade e reduz a probabilidade de divórcio.

Assim, quando os hormônios que provocam euforia acabam e a gente se depara com a realidade, é preciso reavaliar o que ambos necessitam mudar: tendo por objetivo a continuidade da felicidade do outro. Persistir é o caminho pra encontrar o amor verdadeiro – como falado aqui – que acontece de forma gradual e lenta; seus efeitos surgem um ou dois anos após a fase da paixão acabar e continuarão a se aprofundar ao longo dos anos. O resultado é um relacionamento mais feliz, forte e duradouro. Algo que pode blindar até a saúde, como mostrou um estudo de 2007, que revelou que casais têm pressão arterial mais baixa e menor risco de doenças cardiovasculares. Percentual esse que pode ser até 12% menor que em solteiros, divorciados ou viúvos, conforme análise do American College of Cardiology, realizada com 3,5 milhões de participantes.

Amar é arte

A cultura nos dopa de amor, o diluindo na comédia romântica, nos romances e até nos gêneros de ação e drama porque o amor vende. Como resultado dessa atração exercida sobre nós, o tema é reciclado por todos os lados, cantado de diferentes formas e em diversos estilos musicais. Todos temos fome de amor, dessa necessidade de expandir nosso mundo, de construir a felicidade em conjunto, assim acabamos por cometer as mesmas falhas, como alerta Erich Fromm, em “A arte de amar” (“The Art of Loving“, de 1956).

Amar é uma arte, e como tal exige aprendizado e prática, não é só cair de amor por alguém e apostar todas as fichas de felicidade de forma inconsequente, como o “amor” de Romeu e Julieta – que espero que não seja igualzinho o meu e o seu. A etimologia de arte vem do latim ars, artis, “técnica, habilidade, capacidade de fazer algo”, surgindo a partir da raiz grega téchne, tendo o sentido de uma habilidade adquirida, não de algo natural a qual a gente nasce sabendo exercer com qualidade. Apesar de todos sermos gerados com necessidade de ser amado, não o sabemos fazer da melhor maneira, por isso precisamos de esforço pra aprender, depois o praticar de forma incondicional, então nos dedicar a viver em amor pra fazer e nos tornar pessoas mais felizes.

Forte como a morte

Bauman lembra ainda que a definição do amor até a separação através da morte, está fora de moda e perdeu o tempo de vida útil, devido às alterações nas estruturas familiares, que serviam de referência e faziam o sentimento ser valorizado. Ainda que essa solidez tenha se desfeito, não torna o processo de se envolver de forma romântica com alguém num processo menos complicado. “Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados”, ele destaca.

O amor é a mais poderosa das emoções. Em nossos desertos emocionais, nossa sede nos impede de viver sem ele. Mesmo avassalador e abrangente, não há como medir nem defini-lo numa descrição completa, apenas viver as transformações que ele proporciona. Pra isso é preciso se entregar a ele e permanecer, sem buscar seu aprendizado através de diferentes parceiros. Já dizia Peninha, em “Sozinho”, “quando a gente gosta é claro que a gente cuida”, ao escolher permanecer e proteger a outra pessoa, acessamos um nível extra de profundidade – como celebra o poema “Contigo o mergulho é mais profundo” – resultando no amor supremo – que foi expresso por aqui. Assim será possível tornar o amor forte como a morte, carregado de um cuidado exigente como a sepultura, que arde como as mais intensas labaredas, e cujas correntes do mar não podem apagar, nem os rios afogá-lo [Cantares 8.6-7].

Artigo publicado originalmente no LinkedIn, também está disponível no Medium.


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