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Articulário: Vivendo sentimentos reciclados - .inversivel
Articulário: Vivendo sentimentos reciclados
Maksym Kaharlytskyi/ Unpslash

Vivendo sentimentos reciclados

“Não se deixa de amar alguém, apenas se recicla o sentimento.”

Mishael Mendes [Cantares 8.6]

Felizes pra sempre?

O amor transforma, impacta a vida e molda a identidade, bem como os sonhos e nossa maneira de ver o mundo; através da convivência ajusta o foco, mudando nossa mente e as prioridades, num processo onde doamos muito de quem somos também. Quando encontrado, ele preenche de carinho e atenção, e a convivência cria uma conexão que se eleva sobre o natural, razão pela qual não devemos tentar quebrá-la [Mateus 19.6]. Teoria essa fácil de falar, o difícil é fazer; mesmo tudo sendo flores, na prática, elas podem conter espinhos, provocar espirros, coceira e até alergia – sintomas esses causados pelo polem – apesar de sua beleza e perfume.

Somo seres complexos, com falhas embutidas numa programação decaída que acaba por se manifestar em nosso hardware e causar vários bugs – mesmo sem a ajuda de mariposas e outros insetos. Além das falhas de comunicação – que podem ser evitadas com essas técnicas aqui – às vezes mais preocupados com nossos interesses ou em tirar o máximo de prazer das experiências – como falado nesse artigo – que em fazer o outro feliz. O que pode levar ao término de um relacionamento, daí fazer a gente se pegar no dilema de perceber o valor da pessoa quando a perdermos.

A dor desse amor

Um término – seja lá por qual motivo aconteça – é um dos momentos mais difíceis de enfrentar e quanto mais profundo o sentimento envolvido, pode até fazer um chute na virilha parecer menos doloroso, porque enquanto a dor física desaparece, a memória do amor perdido se torna um encosto a assombrar, por não haver mais um encaixe até então perfeito. É que mesmo não estando mais juntos, o sentimento não desaparece, fazendo a friagem dos dias intensificar e o amanhecer não querer despertar – como mostra o poema “Desde que você se foi, algo parece faltar“. Podendo se tornar um sofrimento emocional agudo a ponto de gerar “cardiomiopatia de Tako-tsubo” – conhecida como “síndrome do balão apical” ou “cardiomiopatia da ampola” – onde o estresse emocional ou físico intenso, causa fraqueza muscular rápida e grave do coração.

Como o amor possui a mesma força da morte [Cantares 8.6], quando se vai, deixa uma cratera de vazio abismal que permanecerá no peito, a menos que o pedaço perdido seja devolvido. Tornando custoso esquecer a pessoa amada, porque as memórias não são excluídas pra fora da cabeça ou deletadas. Basta um lugar, uma música ou filme, até mesmo uma palavra pra trazer de volta os momentos vividos, impressos no coração. Assim, esquecer a pessoa é história que conto de fadas nenhum contou – embora Jennie tenha se esforçado pra isso acontecer, como mostra a minissérie “Fragrante“.

É tanta saudade morando em meu peito

Ao longo da vida armazenamos muitas informações, a maioria acaba descartada no subconsciente. Apesar de não possuir localização exata, ele funciona como um limbo – palavra vinda do latim limbus, “margem, beira, borda, orla” – onde lembranças comuns se tornam marginais. Pra algo merecer lugar de destaque na memória é preciso estar envolta de intensas emoções, tipo “Monstros S.A.” (“Monsters, Inc.”, de 2001), onde as criaturas monstruosas descolam que podem arranjar energia através do medo ou da alegria – por essa razão, fatos envolvendo traumas ou paixões são recordados com facilidade e acabam martelando na mente. Como não há um interruptor que permita desligar os sentimentos, não é possível se libertar das profundezas do amor – em alguns casos isso pode nem acabar rolando por completo. Até o tempo pode se mostrar incapaz de apagar o que foi vivido, fazendo a lembrança provocar falta, mesmo nas coisas mais banais; ainda mais se o término for recente.

Nesse momento a memória se torna perigo, basta querer saber como está a pessoa, pra mente recordar dos momentos de felicidade compartilhada e querer de volta esses instantes, nos fazendo ansiar por ela outra vez. E por não estarmos mais com ela, a gente acaba por se apegar a memórias romanceadas que descartam falhas, intensificando o sentimento e impossibilitando esquecê-la. Num modo triste e doloroso que nos faz querer correr atrás, mas apesar de forte, o impulso se trata apenas de abstinência psicológica – causada pela falta do que era comum – não precisando ser atendido.

Oficina do diabo

Esse processo pode ser mais complicado se a gente se isolar na sofrência e consumir coisas tristes que alimentam a bad, até ela ficar pesada demais pra abandonar nosso corpo – ficar recordando o que se passou, seja bom ou ruim, não é uma boa [Eclesiastes 7.10]. Nossa mente não funciona como um “relembrador” fixo do que houve, permitindo o tira-teima das cenas, como um VAR, está mais pra uma ótima roteirista que pega os mesmos personagens e cria spin-offs da trama original. Nisso, cada vez que são acessadas, as memórias sofrem alterações que podem pintá-las com cores mais alegres ou sombrias que a realidade vivida – como menciona “O Segredo das Eras – Despertar“. Jennie Erdal deixou registrado que a memória não consegue dar acesso aos fatos porque “tudo é, de alguma forma, revisado, reformulado ou reconstruído pelo processo de recordar”.

Mesmo entre os que se dizem ter memória fotográfica, essas alterações acontecem. Até porque não há evidência cientificas da existência da capacidade em recordar imagens com precisão de uma câmera, permitindo revisitar momentos congelados como mostra o episódio “Wingman” (em livre pt-BR: “Braço direito”), da terceira temporada de “Manifest – O Mistério do Voo 828” (“Manifest”, de 2018). Embora algumas crianças tenham memória eidética ou recordação apurada, em adultos a melhor acurácia se dá pelo uso de técnicas de recordação, não de uma capacidade natural em gravar detalhes com precisão, e mesmo os com memória excepcional não podem se comparar a um registro fotográfico. Inclusive, até registros fixos, de quadros e fotos, se alteram e deterioram com a exposição à luz – embora a proibição de flashes em museus não passe de mito.

Apagar sem ver

Se registros fixos mudam, quanto mais o que há na mente – um dispositivo biológico em constante mudança – cuja memória apresenta um streaming em alta definição de uma realidade alternativa melhor ou mais distorcida [Lamentações 3.19-20]. Dessa forma, a pior coisa a se fazer é ficar preso nos “talvez” e nos “e se” que nunca aconteceram. Além de não consertar o que quebrou, a ruminação prende num redemoinho que nos arrasta pras profundezas da escuridão. Seja por qual motivo o relacionamento desemborcou no fim, bom ou mal, se agarrar as memórias só nos manterá reféns; elas não apenas inventam um bocado pra preencher lacunas esquecidas exibindo probabilidades, alteram nossa percepção ao liberar hormônios que reafirmam as sensações atreladas as lembranças – como aborda a crônica “O peso de não perdoar“. Morar nas memórias pode ser cruel demais e só serve pra enraizar o sentimento nos tornando incapazes de seguir.

A sabedoria pop ensina ser possível curar um coração ferido com um novo amor. Mas na real não é bem assim que a banda toca – inclusive ela pode ter entrado em modo repetição daquela balada que recorda a felicidade passada. Mesmo que se encontre carinho suficiente, o amor pode resistir ao poder do tempo, sem se desfazer, continuando a arder e sem poder ser apagado ou afogado [Cantares 8.6-7]; devido às transformações vividas e os instantes compartilhados fazerem o sentimento permanecer importante, mesmo os caminhos divergindo. Embora um novo amor traga emoções ainda não experimentadas e momentos de felicidade que vale viver, ele não faz desaparecer o sentimento que uma vez brotou no coração.

Continue a nadar

Ainda que pelo andar da carruagem pareça improvável ter as feridas curadas e superar a perda, tudo se trata de um processo que leva a mergulhar em profundidade onde a pressão causa dor e sufocamento – como ilustra o conto “Abisso – Quando o pavor agita as águas” – porém, ao emergir saímos mais fortes, resilientes e seguros do que queremos e precisamos num relacionamento – por que não, na vida? Só que essa aceitação exige mais que boa vontade, é preciso atravessá-la por etapas, nem sempre simples, onde o que importa é manter a constância nas braçadas, sem pressa e respeitando o tempo pra subir a superfície e respirar, assim será possível continuar até atravessá-la.

Pra começar, é preciso tirar um tempo pra lamentar a perda da pessoa, do que foi construído e o futuro planejado que se desfez no passado. Também é importante se livrar de gatilhos, como fotos e presentes, que só servem pra provocar reações emocionais e dificultar o processo de superação. O ideal é ser livrar de tudo quando o término acontecer, mas se algo for difícil de descartar, basta deixar o mais longe possível até a ferida curar. Manter distância é outra fase essencial – pelo menos de início – não só pela proximidade provocar dores e aumentar as chances de rolar flashback, mas, porque dificulta o processo de desapego. Se for preciso, dar um tempo nas redes sociais pra evitar receber atualizações da pessoa, mesmo que sem querer – ou até desativar esse recurso – pra evitar a compulsão de stalkear seu perfil.

Deixa acontecer naturalmente

Podemos até não mandar no coração, mas é possível fazer o sentimento deixar de ter poder sobre nós, ao parar de alimentá-lo com lembranças alteradas. Ainda que a importância de um amor o mantenha vivo, é possível recordá-lo sem dor. Pra isso é preciso ocupar o tempo com hobbies, experimentar novas atividades e fazer outros planos, não deixando sobrar espaço na oficina da mente pra serem geradas memórias distorcidas. O que não significa evitar os sentimentos, até porque momentos agradáveis não são apagados e mesmo que desaparecessem, ainda restariam as sensações experimentadas e da felicidade vivida – como destaca a crônica “Fotografando memórias“.

O fato de sua duração não ter sido pra sempre, não reduz a realidade e a intensidade do amor vivido; que manterá uma chama de carinho mesmo após um sofrimento extremo e da pessoa encontrar um novo amor, desejando o melhor pra ela. Nisso consiste o verdadeiro amor, querer a felicidade do outro – como vimos por aqui – apesar de saber não sermos nós que a proporcionará. Assim, será possível tocar a vida e ir em busca da felicidade própria, ao deixar restar apenas gratidão pelo impacto em nossas vidas e as experiências que trouxeram amadurecimento – você pode ver mais sobre o tema aqui – e experimentar maneiras que nem sabíamos antes. Porque mesmo trazendo dor, tristeza e solidão, foi ele quem nos despertou pro sentimento mais primitivo, radical e transformador da natureza humana.

Aprendendo a amar e a curar

O que não mata fortalece, e se não fortalecer, pelo menos serve pra engordar. Ainda que custe desapegar da ideia de nunca mais estar juntos e amar o suficiente pra “deixar ir”, esse é o caminho mais saudável pra seguir, então será possível dizer “é que o frio na barriga, a saudade esquentou, o amor que tinha a distância zerou; não sobrou nada, você é a minha ferida curada”, como celebra Zé Neto & Cristiano em “Ferida curada”, composta por Rodrigo Reys e William Santos.

O verdadeiro amor não deixa de existir com a distância, por ser incondicional, continua a viver, não importa o que aconteça. E se ele não desaparece, é possível reciclar sua intensidade, da mesma forma como acontece com informações excluídas em dispositivos digitais: elas são marcadas pra serem sobrescritas. Tudo que importa saber sobre o amor é que o sentimento pode ser reutilizado pra embalar outra pessoa, outras interações e momentos – não o amargor que fecha o coração eliminando todas as oportunidades – que permitirão amar e ser feliz novamente. Assim, mesmo a lembrança continuando a existir, não passará de uma memória saudosa pra nos fazer sorrir ao recordar do carinho sem qualquer desconforto, deixando apenas histórias engraçadas revividas em conversas casuais.

Novo amor

Ainda que a vida corrida ou os parentes peçam pressa pra fazer a fila andar, mesmo sem superar o amor perdido, cujas feridas abertas podem nem ter cicatrizado. Entrar em outro relacionamento só é benéfico se houver tempo suficiente pra lágrimas e reflexões; pra entender nossos sentimentos e pensar em como a experiência contribuiu ou não pra gente, e se a insistência nela se deu por buscarmos validação através da aprovação e amor do outro. Sendo esse o caso, entrar em outro só trará dor e vai acabar por desgastar ambos os lados – causando o viés de termos a mão podre pra relacionamentos. O problema é que atraímos pessoas semelhantes, se nossas emoções estão doentes, acabamos por fazer pessoas assim se aproximar ou deixá-las da mesma forma; por isso importa estar bem consigo mesmo, não apenas buscar um amor que seja bom pra você, tratando bem pra ele não temer quando começar a desvendar os seus segredos.

Apenas compreendendo que estar num relacionamento é se comprometer em fazer o outro feliz – não o contrário – é possível ter uma união saudável. Amar é um ato de multiplicação de felicidade, não de soma como se nos faltasse algo ou de divisão de cargas, nem mesmo de subtração de dor, é sempre mais; é exponenciação que faz as potências dobrarem a multiplicação. Deixando motivos de sobras pra insistir, ainda que as coisas não sejam sempre tão empolgantes, nem haja apenas bonança – como mostrado nesse artigo – a pena por persistir no relacionamento vale mais que de desistir.

Relacionamento blindado

Mesmo estando num relacionamento complicado – excluindo os abusivos e tóxicos – ainda que persistir não seja o caminho mais fácil – fazendo atalhos como ignorar, fugir ou terminar o relacionamento, parecer melhor – é o mais recompensador. Até porque, mesmo que fosse possível bloquear alguém na vida real – como mostra o episódio “Natal” (“White Christmas”), da segunda temporada de “Black Mirror” (em livre pt-BR: “Espelho Negro”, de 2011) – isso não resolveria nada. A experiência gerada pela perseverança fortalece o casal de maneira sólida pra compartilhar o resto da vida, afinal, a promessa de união não vale apenas pra saúde e os momentos bons, deve ainda mais prevalecer sobre as tristezas, as dificuldades, também sobre a doença da pessoa ou mesmo do relacionamento.

Pra isso acontecer, é preciso haver uma vontade mútua de mudança, como alertam Renato e Cristiane Cardoso em “Casamento Blindado“, de 2012 – ou sua atualização, “Casamento blindado 2.0“, de 2017 – “casamento dá trabalho”, algo que também se estende ao namoro, razão pela qual acabaram lançando “Namoro blindado“, em 2016. Pra Gary Chapman, evitar a discussão não é suficiente pra briga não ocorrer, o segredo é saber ouvir, porque isso conduz a compreensão, que leva a solução e culmina em harmonia, como ele explica em “Zero a zero” (“Everybody Wins“, de 2006). É preciso engolir muito sapo – ou segurar a água na boca – pra quando eles deixarem de coaxar e o clima acalmar, a gente conversar com os ânimos temperados, pra haver uma comunicação clara e que traga entendimento, resolução e cura.

Artigo publicado originalmente no LinkedIn, também está disponível no Medium.


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Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura
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