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Abisso – Quando o pavor agita as águas
De sobre as águas vem a ordem pra lançar seu sustento no fundo do oceano, mas como se desfazer de tudo que lhe resta?
Por Mishael Mendes access_time 11 min. de leitura

Atravessando o interior da noite, o tempo alcançou um escuro de meter o dedo no olho e o frio cercou; embalado pelas ondas, o silêncio ensurdeceu o menor som de movimento. Até um vento feroz se levantar agitando as águas e fazer o oceano se revoltar. O negrume das nuvens foi iluminado por raios cortando o céu e trovões berravam ameaças de todas as direções.

Quando o horizonte se iluminou, uma figura nebulosa foi vista sobre as águas, numa visão fantasmagórica que ecoou um grito no homem presente na embarcação, o inundando de medo. A tempestade a se formar provocava a violência das águas que alvoroçadas se erguiam sobre a barca tentando engoli-la com os aperitivos ali dentro. Tamanho terror tornou possível ver a face da morte nos olhos do homem enquanto esculpia o desespero em seu rosto esbranquiçado.

Sem ter pra onde olhar, restou encarar a tempestade que tomava corpo em meio a escuridão e flashes anunciando o pior por vir. Cada raio tornava as entranhas da escuridão mais obscuras, enquanto o pavor agitava as águas. Reparando a força do vento e das ondas, o homem começou a afundar no medo. Sua atenção foi sugada e seus olhos não consigam desviar da tempestade. O que ele não esperou foi ser olhado de volta e isso causou um choque que o esmagou de dentro pra fora, lhe deixando zonzo e sem ar.

Em apuros, o barco lutava contra o vento e as ondas, e essa agitação quase fez o homem cair da proa, ele se segurou a tempo de antecipar a tragédia que ganhava intensidade. Não sem levar um tapa que faz água entrar por seu nariz e boca a qual cuspiu com um suspiro apressado.

Contemplando o grande desconhecido – de profundeza onde seus pés falhariam – o homem se deixou envolver pelo mistério abrigado no oceano. Quanto do sal ali eram lágrimas arrancadas pela fúria das ondas? Perdido em meio a escuridade das reflexões, uma voz sobre as águas atravessou a tempestade e lhe pediu pra compartilhar o que tinha, “mas não há ninguém aqui”, ele se preparou pra dizer. No instante em que olhou em volta percebeu não estar só; havia outras pessoas na embarcação, mais do que dava pra contar. Todas tomadas pelo pavor em ondas que faziam o oceano surgir maior e mais tempestuoso.

Como se sua vida dependesse do que tinha, o homem se agarrou ao que lhe restava enquanto tudo estava prestes a se desfazer. Mesmo sabendo que o máximo que aquilo podia garantir era morrer de barriga cheia – o apego não o deixou soltar daquilo.

Em meio ao clarão que dava um tom sombrio ao desespero e a gritaria, uma silhueta, pouco maior que um toco, começou a se deslocar entre as árvores agitadas pelo medo. Ele caminhava seguro, vinha sem temer ser atropelado, trazendo consigo um cesto. Ao se aproximar o entregou ao homem dizendo pra compartilhar aquilo com os passageiros. Tal desprendimento em dar tudo quanto possuía e com um sorriso por todo rosto, deixou o homem desconcertado. Colocando seus pertences debaixo do braço, ele descobriu a cesta pra conferi-la, dentro dela havia cinco pães e dois peixinhos, mas o que era isso pra tantos?

— É só repartir! Divisão não se trata de perda, mas colocar pra fora nossos recursos pra multiplicar.

Quem é esse garoto com tanta sabedoria e como me respondeu com essa precisão, foi o que ocupou os pensamentos do homem enquanto dividia em pedaços os alimentos que lhe foram confiados. Terminada a tarefa entregou o cesto ao garoto que ficou o observando. Como ele não demonstrou nenhuma reação ou pareceu que faria algo, o homem questionou se ele não ia entregar o alimento as pessoas.

— Elas estão ocupados demais com elas mesmos pra me dar atenção. Precisa ser você! – Receando o que as pessoas podiam achar de um velho louco acompanhado de uma criança a oferecer comida quando tudo estava pra ser devorado pelas entranhas famintas da tempestade, o garoto segurou a sua mão. No olhar dele o homem viu uma segurança mais profunda que o oceano que o impulsionou a seguir sem olhar o pavor a sua volta.

O pequeno o conduziu em direção a jovem mais desesperada ali, embora tivesse aceitado a missão, o homem se questionava sobre a finalidade daquilo. Como alimentar a multidão assustada ajudaria num momento daqueles? Seria pra oferecer um banquete melhor nutrido pras tripas da tempestade? Porém, bastou tocar a jovem e ela acalmou, então ele a ofereceu peixe e pão. Após comê-los, ela começou a emanar luz, seus olhos brilharam expulsando qualquer sombra de aflição. Disposta a ajudar, a garota se juntou na tarefa de alimentar pessoas que desconheciam ter fome daquele alimento, assim como ela; e querendo fazer mais, compartilhou o que trazia consigo.

A cada toque outro acalmava e passava a brilhar após engolir sua porcão, daí aderia ao grupo compartilhando também o que tinha. Independentemente das condições que aparentavam, todos tinham algo pra dar e também podiam receber. O movimento continuou pela embarcação, cujas dimensões estavam maiores que o homem lembrava. O número de voluntários foi aumentando até geral brilhar.

Restava apenas o homem pra provar do alimento, mas quando ele se preparava pra saboreá-lo, o garoto segurou seu braço e disse que ele não precisava daquilo, porque tinha acesso a outro tipo de sustento.

— Lança seu pão sobre as águas. – Ele pediu. O desapontamento do homem tomou seu rosto, ainda assim ele obedeceu. Afinal, ainda trazia algo consigo que podia provar antes de seus olhos se fecharem de vez.

— Isso também! – O garoto apontou pro que ele mantinha debaixo do braço.

— Mas… – O olhar do garoto o silenciou e ele desistiu de debater. Mantendo os olhos sobre as ondas, levantou o que trazia protegido e lançou no oceano, se desfazendo de todas as suas posses e com elas a amargura que se agarrara as lembranças. Mesmo com o convés encharcado a embarcação resistia. Mas quanto tempo ainda se manteria inteira até ser destroçado pela fúria do vento e das águas a socá-la vez após vez?

O movimento das pessoas tirou o homem das reflexões, onde a tempestade atingira seu limite. Elas se moviam arrumando o barco, fazendo remendos, ajeitando as velas e remando num esforço coletivo pra escapar da tempestade. Quando a embarcação começou a se mover, foi arrastada pelo vento e a escuridão foi desaparecendo. A medida que o temporal ficava pra trás a altura das ondas começou a diminuir até virar espuma a lamber o casco do barco.

No momento em que a firmeza da terra acenou todos remaram com disposição dobrada. Ao atracar em Salvador, o homem teve  a alma abraça por um vento agradável enquanto andava prancha abaixo. A experiência lhe mostrou não ser grande demais pra aprender a sabedoria dos pequenos. Crianças não enxergam barreias, sua crença é suficiente pra manter os olhos no que importa, mas a medida que crescemos aprendemos a olhar em volta e absorvemos limites do que pode ser alcançado e até onde é possível chegar – ficando assim com olhos errados.

Já no cais, ele aguardou o garoto e o pequeno não surgiu mesmo após todos descerem. Temendo que ele tivesse caído na escuridão do oceano sendo devorado sem ninguém perceber, o homem saiu a procurá-lo entre as pessoas, pra saber se o haviam visto. Antes de poder dizer algo, ele foi cercado de gratidão por os ter ajudado; graças ao seu empenho eles se viram no mesmo barco, a navegar pelas águas da vida. Então se uniram porque a direção escolhida por um, importava a todos, assim, a tempestade que destrói a estrutura não conseguiu lhes arrancar as raízes da esperança.

Após a gritaria, os apertos de mãos, abraços e até beijos, ao perguntar sobre o garoto que segurava sua mão, ele conseguiu a atenção necessária pra obter respostas. Entretanto, o silêncio que surgiu não se deu por admiração, mas por espanto: ninguém havia segurando a sua mão, se quer tinha algum garoto presente na embarcação.

Enquanto cada um se afastava, tomando o próprio rumo, os olhos do homem foram atraídos pela distância do horizonte. Ao seu redor tudo estava carregado de vida e cores que tornavam a experiência vivenciada em algo surreal demais pra qualquer um que não passara por aquilo acreditar em tudo que aconteceu. Quando subiu no barco ele desejava seguir até atravessar a quarta extensão em busca de descanso, mas o que precisava mesmo era passar além da dor, cujas águas tentaram afogá-lo e as tristezas o sufocar. Agora ele transbordava uma paz que expulsara a dor de perder sua esposa e filha de maneira tão cruel.

Desse dia em diante o homem se tornou navegante, indo pros lugares menos desejados, porque onde habita o perigo e o abismo é onde o céu se espalha e a essência abunda das mais profundas águas. Sem temer pela vida – já que ao tentar salvá-la quase se perde de vez – se deixa guiar pelo chamado, seguindo pra onde jamais alcançaria em sã consciência. Vai seguindo pra onde seus recursos e capacidade podem falhar e o medo cercar ameaçando sua segurança, mas onde a confiança transborda as fronteiras das possibilidades e a esperança se fortalece, porque em suas fraquezas se revelava o verdadeiro poder.

Navegando pelas águas da vida e na insegurança de suas ondas, ele prossegue com a certeza que um dia o garoto virá novamente do outro lado do oceano então poderá segurar sua mão outra vez e com ele andar sobre as águas.


#papolivre

A inspiração pode surgir dos momentos mais improváveis e sem ser aguardada soprar criatividade revelando sua presença imaterial, mas certa. Foi assim que esse conto surgiu, a partir de uma introdução pro artigo “Forças disfarçadas de tragédias” pra mostrar como estamos conectados uns aos outros. Conforme aprofundava o tema nos parágrafos seguintes, aquela reflexão foi crescendo em mim, ganhando sensibilidade até eu me dar conta de precisar escrevê-la.

A história é baseada principalmente nos registros de Jesus quando anda sobre as águas [Mateus 14.22-33, Marcos 6.45-52, Marcos 6.45-52] e acalma a tempestade [Mateus 8.23-27, Marcos 4.35-41]. Também em “Oceans” (“Where Feet May Fail”), do Hillsong United e “Do outro lado do mar”, do João Alexandre – que fazem parte da trilha sonora – e uma pitada de “Segura na mão de Deus“, do Nelson Monteiro da Mota e “Mar Português” do Fernando Pessoa, além de outras obras. A parte mas enigmática da travessia do homem surgiu na última revisão, ainda ia dar quatro horas da manhã quando acordei com a simbologia do quatro na mente, então a inseri.

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura

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