O Fragrante – Quando iniciou o fim (E13)

Tempo estimado: 7 minutos
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Numa tarde ensolarada, em que o vento brincava soprando – num céu pintado de tons laranja – nuvens brancas e pelas ruas podia se ver folhas dançarem a cada toque irresistível de baforadas – ora frio, ora quente. Na praça, ali perto, pessoas se reuniam pra contemplar as flores da Sakura cair.

Nesse clima de romance – exalado pelo ar – um encontro inesperado acontece. Após anos separados, Jennie e Simey não conseguem resistir ao empurrão do destino e acabam se entregando a algo maior que eles mesmos, mas mesmo com a explosão de sentimentos e desejos o final não acaba tão bem.

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— Miga, preciso falar contigo agora, onde cê tá?

— Nossa, que urgência toda é essa, Vee?

— Jennie, é sério!

— Cê não tá indo viajar?

— Daqui duas horas, mas minhas malas tão prontas já. Agora diz onde cê tá!

— No ponto, aqui do centro, esperando o coletivo pra ir pra casa.

— Então me encontra na Starbucks, que já chego aí.

— Tá bem. – Foi tudo que Jennie conseguiu dizer antes da amiga desligar.

— Miga, aqui! – Jennie acenou ao ver a amiga entrar apressada.

Sentada ali, tão plena, ela lembrava em nada a garota assustada que saiu correndo da praça, se sentindo perdida em meio a enxurrada de sentimentos brotando da pele, feito suor, escorrendo em gotas de dor pelo rosto, injetando adrenalina nas pernas, aumentando o fluxo sanguíneo nas batidas do coração e colando memórias nos olhos, enquanto na cabeça as cenas ficavam girando como swing rice que a levava alto a ponto de deixá-la zonza.

Precisando desabafar, resolveu ligar pra Vee, ela precisava fazer isso antes da amiga partir, mas ao pegar o iPhone, ela estava ligando, querendo vê-la com urgência – tamanha coincidência a deixou abismada.

“Como ela adivinhou que precisava disso?” – Isso que era conexão. Amizade verdadeira pode levar a um nível de sensibilidade que permite sentir o que há no outro, antes mesmo das palavras serem necessárias.

Após percorrer algumas e ruas, andando sem destino, Jennie ficou mais calma, as lágrimas pararam de cair e a erupção de sensações conflitantes foram assentando, até se estabilizar e ponto da confusão não ser mais aparente, foi quando pegou o iPhone pra ligar.

— Ainda bem que o coletivo passou logo, miga, preciso…

— Vee, sei que cê me chamou aqui, mas posso começar? Preciso mesmo falar contigo antes.

— Tudo bem, Jennie.

— Ué? Vai deixar assim na boa? – Apesar da pressa em vê-la, a resposta da amiga foi tão tranquila, que Jennie estranhou, ela esperava outra reação.

— Jennie, para de fazer a desconfiada e diz de uma vez. – Vee incentivou com um sorriso.

Em meio aos sons de conversas, risadas, xícaras e cafés sendo degustados, ela contou que o inesperado encontro a fez ver que os sentimentos por Simey estavam mais vivos e fortes. Só que perceber isso – em meio a entrega nos beijos – a fez entrar em parafuso e tudo que conseguiu foi correr, caso contrário nunca mais ia conseguir sair de perto dele.

— Cê acha que fiz errado, miga? Será que fiquei parecendo fraca?

— Jennie, isso tudo foi bem intenso, mas não acho que cê foi fraca, pelo contrário, foi té forte demais pra lutar contra os próprios sentimentos. O único problema é que a geral tá sabendo o que rolou.

— A geral? Como… assim…? – Ela ficou sem entender.

— Isso que dá ser desconectada! – Vee mostrou o celular. – Te disse pra criar uma conta, miga.

— Mas… mas…

— Isso tá bombando no Twitter, entrou até pros trending topics mundiais. Por que cê acha que te liguei assim que cê saiu de lá?

— Não acredito! – Jennie não conseguiu acreditar no número crescente de tuítes compartilhando a hashtag #amoraovivo e a história dela. – …até traduziram!

— Bem que sabia que minha Jennie ia ficar famosinha um dia.

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— Não assim, nem desse jeito! Cê sabe que detesto exposição. – Jennie já estava toda vermelha.

— Pelo menos não deu pra ver que cê saiu chorando.

— Era isso que cê ia me falar?

— Sim…

— Tô indo, então! – Jennie levantou de repente.

— Onde cê vai, doida?

— Ter uma conversa com o Simey, ele não devia ter compartilhado isso.

— Mas não foi ele, miga!

— Ahh… não? – Ela não acreditou muito.

— Claro! Cê acha mesmo que ele ia se expor assim? Mó reservado ele, foi um fotografo que tava por lá.

— Ué! Desde quando cê conhece ele tão bem assim? – Ela ignorou a origem de onde a história alastrou.

— O suficiente pra saber que cê não deve mais falar com ele.

— Como assim? – Jennie sentou.

Tudo começou anos atrás, a convite da prima Vee foi numa baladinha que tava rolando na escola dela, a música estava boa, e o lugar estava cheio de gente bonita e interessante, mas nenhum garoto se comparava com o de moletom Adidas rosa bebê e jeans claro com manchas e rasgos.

Vee não conseguiu desgrudar os olhos dele, mas quando ele olhava em sua direção ela disfarçava, apesar de ter algo irresistivelmente atraente nele, ela tentou se segurou, pois, notou que ele vivia sumindo, mas algo que ninguém pareceu perceber é que sempre que isso acontecia alguma garota também desaparecia, retornando instantes depois dele, cheia de sorrisos.

Era coincidência demais pra ser mero acaso, então ela resolveu ignorá-lo, mas a todo instante se pegava olhando pra ele, já o garoto apenas a encarava. Mesmo sem palavras ou qualquer sinal, ela podia ler nitidamente o que aqueles olhos castanhos diziam.

Como o grêmio estava arrecadando grana pra formatura do ensino médio, então todo final de semana passou a ter baladinha, Vee curtiu tanto que não perdeu nenhuma – até porque podia aproveitar um ambiente agradável, em companhia de gente bonita, além de ficar com alguns gatinhos. Mas mesmo quando estava dançando colada com algum garoto, pegava aqueles olhos castanhos colados nela.

Decidida a descobrir quem era o garoto, perguntou pra prima que contou dele e de sua fama, só que como estava apenas curiosa nem deu muita atenção pra isso. Com o nome dele, aproveitou pra procurá-lo no Face, onde podia descobrir mais coisas dele, então, antes mesmo de chegar em casa, o adicionou, mas apenas depois de duas semanas ele a chamou.

— Pensei que cê fosse me chamar. – Ele puxou assunto.

— Ué! Já te adicionei, cê que tinha que chamar.

— Mas foi cê que não parou de olhar pra mim…

— Cê também.

Desde que a viu, ele não conseguiu parar de olhar a morena gata, apesar de baixinha, era maior cremosa, com um belo corpo e uma raba que se destacava nos jeans skynnies que gostava de usar, os cabelos negros iam na altura dos ombros, olhos, cor de mel e os aparelhos nos dentes pareciam ser uma desculpa a mais pra ela exibir o lindo sorriso.

A partir daí o número de mensagens só aumentou, até ele a convidar pra sair. O encontro foi realmente o que Vee esperava, ele foi fofo e atencioso, a fez rir bastante e foi carinhoso.

— Mas o que não me deixou esquecer ele foi…

— …o perfume! – Jennie completou.

— É, miga, o cheiro dele é marcante demais e ficou na minha blusa mesmo depois que lavei. – A voz de Vee ficou mais serena ao lembrar a fragrância.

Após isso, pouco dias bastaram pra algo mudar, ele começou a não ter mais tempo pra responder, sempre estava muito ocupado e eles mal se falavam.

— No começo era tão bom conversar, ele era sempre atencioso e a gente tinha assunto pra tudo, parece que o papo nunca tinha fim, mas depois de ficar, ele foi sumindo.

“Amizade verdadeira pode levar a um nível de sensibilidade que permite sentir o que há no outro, antes mesmo das palavras serem necessárias.”

Mesmo com o relato, Jennie ainda estava meio incrédula, mas Vee insistiu que Simey era pegador e que já tinha ficado com várias, se não todas, meninas da escola da prima.

— Por que cê nunca disse que tinha ficado com ele?

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— Por… vergonha, sabe? – Ela desviou o olhar. – Fiquei tão encantada com o Simey que só quando ele sumiu de vez, foi que me dei conta que ele só tinha sido tudo aquilo pra ficar comigo.

Como ele não disse nada e continuou sendo fofo antes de parar de responder e visualizar as mensagens, só aí ela se tocou que ele não queria mais nada.

— Quer dizer que cê começou a conversar com ele e nem me disse?

— É que só tinha tempo pra conversar com ele, às vezes eu ligava pro Simey e a gente ficava horas conversando, daí a gente voltava pros áudios e mensagens.

— Agora lembro, teve um tempo que cê sumiu mesmo, quer dizer, té ficava online, mas demora uma vida pra responder, isso quando respondia.

— Por isso, daí quando vi que ele tinha me dado um fora, fiquei com tanta vergonha, ainda mais depois que minha prima disse que ele tava pegando geral que não tive coragem de contar nada.

Vee até chegou a considerar contar pra amiga e desmascarar Simey, quando ela apareceu chorando porque ele terminou por nada, daí pediu pra ver a foto do cafajeste e quase congelou ao reconhecê-lo, mas do jeito que a Jennie estava apaixonada se contasse a história, além dela não acreditar, podia ficar ainda mais caída por ele, aí a ajuda teria o efeito contrário.

— Miga, vai por mim, sei o quanto é bom ficar com o Simey, ele é bonito, envolvente, tem pegada, um beijo gostoso e sabe ser bem interessante quando quer…

— Nossa, assim que cê quer me ajudar, Vee? – Jennie interrompeu.

— Desculpe, miga! Só quero dizer que esse é o jeito dele mesmo, faz a gente se sentir superbem, mas depois não quer saber de nada. Não é porque ele fez seu coração e corpo estremecer que signifique que ele realmente esteja a fim de você. Acho que pra ele o que conta é a conquista, porque depois que consegue o que quer ele perde o interesse.

Por mais que Vee estivesse tentando ajudar, ouvir aquilo não foi menos doloroso e as palavras entraram feito espinho na carne de seu frágil coração, antes Jennie não tivesse descoberto a existência do órgão, pois, agora sabia o quanto ele podia doer.

— Pode ser, miga, mas dói saber disso tudo. – Jennie sentiu as lágrimas correr pelo rosto todo.

— Tô ligada, por isso não te contei antes, mas apesar de machucar isso passa, vai por mim, hoje tô bem melhor agora. – Jennie abraçou a amiga.

Naquele abraço sincero, Jennie percebeu que a resistência da amiga não era inveja de sua felicidade, apesar do pessimismo aparente tudo que ela tentou fazer foi ajudar, só não soube bem como agir – também, com o que passou ficava meio difícil saber.

— Jennie, lembra da aula de biologia que a profe falou das plantas mais venenosas? – Vee se afastou.

— Sei… – Jennie passou a mão pelo rosto.

— Teve uma flor que ela disse que era tão perigosa que todas as partes dela tinham alguma toxina tão forte que só o de consumindo o mel feito do néctar dela a pessoa pode morrer, lembra qual?

— Oleandro.

— Isso, essa é minha Jennie, sempre tão inteligente! – Vee olhou bem no fundo dos olhos dela. – Miga, o Simey é igual o oleandro, pode ser tão atraente como perigoso, por isso é melhor nem se aproximar dele, se não você só vai se machucar, aliás, melhor mesmo é nem pensar nele.

Jennie tinha os olhos suplicantes, esperando ouvir o contrário.

“Quando alguém ama de verdade, não mede esforços ou distância, desculpas só servem pra estar mais perto.”

— Vai por mim, a melhor coisa que você pode fazer é esquecê-lo de vez. – Resoluta, Vee finalizou.

— Tá bom, miga! – Jennie limpou o nariz na manga do sobretudo.

— Só mais uma coisa, pra cê ver como ele não vale nada. Já tinha terminado de arrumar minhas malas, quando minha prima me mandou áudio lamentando de você ter ficado com o Simey, quando ele tá namorando, daí enviou um print do Twitter, foi assim que descobri o que aconteceu, quando vi o que tava rolando te liguei na hora.

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Ao ouvir isso, Jennie sentiu um choque tão grande que as lágrimas até perderam o rumo e os olhos secaram instantaneamente.

— Miga, agora preciso ir que tá na hora! – Vee se levantou e sinalizou pro motorista que aguardava lá fora. Enquanto conversavam ela chamou um carro por aplicativo, assim ia conseguir chegar a tempo do voo. – Cê me acompanha?

— Claro, miga! Quando cê volta mesmo?

— Não sei, tudo vai depender do meu pai.

— Poxa, agora que a gente não tem mais segredos, cê pode não voltar? – Jennie lamentou.

— Mas o lado bom é que cê amadureceu. – Ela piscou enquanto entravam no carro preto, todo filmado.

Já no aeroporto, Jennie deu um abraço apertado, afinal, aquele podia ser o último por um bom tempo.

— Miga, não esquece que quando alguém ama de verdade, não mede esforços ou distância, desculpas só servem pra estar mais perto. – Vee sussurrou no ouvido de Jennie e saiu sem nem olhar pra trás – como não lidava bem com despedidas, preferiu fazer assim.

Jennie chegou em casa decidida a não querer mais, se quer, ouvir falar em Simey. Apesar do ardor da entrega de ambos, entendeu que Simey só tinha mesmo se aproveitado do momento.

Sem muito o que fazer – meio sem vontade pra qualquer coisa, até de assistir as séries – Jennie foi pro MacBook Air e abriu o Safari, na barra de favoritos viu o link de seu blog, ao abri-lo a primeira postagem era o poeminha que escreveu alguns dias após ficar com Simey.

Ao garoto que me despertou pro amor

Especial, pra usar uma palavra só, é simplório
Você me ensinou viver de um modo bom,
Me fez crescer de forma peculiar.
Por mais que tente o tempo,
Não conseguirá me fazer te esquecer.

Conversar contigo, é um momento único,
O prazer de suas palavras ao tocar-me os ouvidos
Causam cócegas e meus lábios só querem sorrir.
Fazer isso pela tarde, é sempre muito bom,
Adoro nossos papos sobre qualquer bobeira

E a segurança que passas a cada palavra.
Seu hálito quente me rouba todo calor,
Arrepiando corpo e adormecendo sentidos.
Seu beijo, então, é submergir nas profundezas
Mergulho que me deixa totalmente sem fôlego.

E quanto mais fundo vou, mais pra ti quero ir.
Você é aquele garoto, raro de encontrar,
E ainda mais difícil de manter aqui,
Aquele que me despertou mais que amor
Me fez ver a preciosidade do que sou.

Enquanto teus braços trazem segurança e conforto,
A divergência entre palavras e atitudes confundem,
Ainda assim você faz isso de um jeito bom,
Pois, sabe diferenciar o real do imaginário.
Gostar, só pra começar a falar de sentimentos,

É somente principio do que a mente grita,
Talvez se colocasses a mão em meu peito
Você poderia interpretar corretamente
O que as intensas batidas dizem de ti,
Mas os melhores sentimentos e sonhos

Prefiro guardá-los só aqui, todos pra mim,
Pra apenas àqueles momentos de conversa
Intensamente envolvida comigo mesma,
Onde não são necessários codinomes
E os segredos podem ser ditos abertamente.

Apenas quando terminou de ler, Jennie percebeu o rosto ensopado – será possível que não acabava o estoque lacrimal? – era incrível o quanto de verdade e profecia haviam naquelas palavras…


#proximoepisodio

Jennie ainda estava se acostumando com a mudança da melhor amiga, o problema é que parece que ia ter que se conformar com a distância – falando nisso, algo que parecia finalizado, começou a incomodar, mostrando que não estava nada resolvido.

Se tinha o lado ruim do que aconteceu na praça, também havia o bom – ou nem tanto assim. O fato é que Jennie ficou estourada e começou a receber várias solicitações de amizade e seguidores que queriam saber tudo dela – mas será que era disso que precisava?

Vida que segue, ela conheceu alguns garotos interessantes, até ver que havia um problema, daí parte atrás de respostas, mas se o arrependimento não a matou, serviu pra eliminar outra coisa nela.

Ósculos e amplexes,

mishael mendes sign, assinatura