O Fragrante – Perfume no ar (E1)

Tempo estimado: 4 minutos

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Jennifer Guastelli – segundo os amigos – era uma garota simpática e extrovertida, pelo jeitinho dela ficava claro que adorava ser assim, já a opinião que tinha de si mesma era meio negativa, por isso procurava fazer os colegas rir e os deixava bem à vontade, assim tinha certeza que não a esqueceriam ou iam deixar de gostar dela facilmente.

O problema de autoimagem a deixava desconfortável e, embora disfarçasse bem, acabava aceitando o primeiro que lhe chamasse atenção – algo fácil de conseguir, bastava chegar junto, ser atencioso e pronto, ela gamava. Talvez por isso os relacionamentos durassem pouco, salvo uma ou outra vez, quando aparecia um garoto disposto a algo mais que dar uns pegas.

Quebrar a cara, repetidas vezes, ensinou Jennie que sorte no relacionamento não passava de invenção de comédia romântica, assim, parou de esperar pelo amor, aliás, se quer acreditava nele. O sentimento não devia passar de algo complexamente abstrato, bem como o coração, ambos não passavam de algo criado pras fazer as pessoas se sentirem bem com elas mesmas e suas situações amorosas.

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— Se eu abrir meu peito? – Ela riu, imaginando sentimentos jorrando ‘do coração’. Talvez o fato das pessoas acreditarem nessas baboseiras é porque a imaginação sabe ser bem persuasiva.

A racionalidade de Jennie teorizava que tanto o amor como o coração não existiam, pra isso se baseava no fato de que se o maior dos sentimentos é impalpável, logo o órgão onde ele nasce não passava de uma crença.

Por nunca ter visto um coração, nem provado as mudanças causadas pelo ‘amor’ em nenhum dos relacionamentos ou flertes com os gatinhos – embora alguns nem fossem tão bonitos assim – achava que tudo devia ser uma grande ilusão. Só que o que ela já tinha experimentado não passava de algo raso, baseado apenas em atração ou oportunidade, por isso o interesse costumava não durar, da mesma forma que ela gostava fácil, os garotos perdiam a graça, principalmente moleque-piranha – que possui aversão a fidelidade.

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Era tarde de inverno, apesar do vento gelado, os fracos raios de sol ajudavam a deixar o tempo ameno, pelo menos até a próxima baforada de ar frio. Naquele dia, Jennie estava distraída, pois, além do céu azul cheio de tons alaranjados, uma árvore colorida chamou-lhe a atenção, e com os olhos fixos nela se deixou levar pra praça.

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Chegando lá sentou num largo banco de pedra, estrategicamente posicionado próximo à imensa Sakura, o verde em volta contrastava com as flores rosas que brilhavam feito rubelita, conforme o vento tocava a árvore, ela dançava sensualmente.

A cena, desprovida de ostentação, ficou mais bela quando Sakura soltou pequenos fogos de artifício vegetais que brilhavam aos raios de sol, as flores deslizavam pelo ar, passando pelo vestido de corpete amarronzado, enfeitando a saia plissé que estendia a longa calda por todo parque. Isso encantou tanto Jennie que a fez bater palminhas feito criança.

Ao ver uma flor ser soprada pra perto, Jennie estendeu o braço bem a tempo dela posar na mão, quando se curvou pra sentir o aroma, o olfato captou uma fragrância meio cítrica e refrescante, foi fechar os olhos pra se encontrar numa manhã de primavera em meio as flores a desabrochar e, mesmo sem rumo, corria feliz.

Bem nessa parte ela lembrou que flor não tinha cheiro tão específico assim, ao abrir os olhos, viu ao lado, diferença de cinco palmos, um garoto de fone no ouvido e atenção voltada pro mangá “Fushiginakuni no Arisu”, ao mirar o nariz na direção dele, novamente sentiu o perfume, mas apesar dos faróis que o observavam, prontos a disparar doçura, ele continuou concentrado, sem nada notar.

“Os olhos são as janelas onde a alma encosta pra descansar e ser observada.”

O boyzinho, além de maior sapão, era estiloso, ele usava um relógio dourado, paletó esporte preto ajustado a silhueta, camiseta henley branca, calça jeans slim e nos pés Puma Ferrari branco. Ao mirar os olhos dele, percebeu um tom de tristeza, como aprendeu que os olhos são as janelas onde a alma encosta pra descansar e ser observada, ficou tentando entender o que tinha acontecido, mas ao chamá-lo ele não se moveu.

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O garoto ainda lia, quando escutou sussurros, deixando o mangá de lado, viu a sua direita uma cocotinha, os olhos estacionaram ali e deu pra ver que ela trazia no pesco, próximo ao peito, uma fina corrente de ouro branco, com um delicado pingente de coruja. Meio atrapalhado pausou a música, retirou os fones, deu seu sorriso mais encantador e desculpou-se pelo alto volume que o impedia ouvir qualquer coisa além do que tocava ali.

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— É que gosto de viajar na vibe!

— Tudo bem! – Ela sorriu. – Meu nome é Jennifer, mas pode me chamar de Jennie.

— Oh… sou o Simon, mas chama só Simey que tá tudo certo. – Ele estendeu a mão, ainda perdido, enquanto a outra coçou a cabeça com o cotovelo erguido.

— Vi que cê tá meio triste, que pega?

A capacidade de ir direto ao ponto surpreendeu Simey, mas Jennie era dessas, já falava logo o que precisava, esse era seu jeitinho de fazer amizade, se por um lado assustava um pouco, logo a pessoa ficava a vontade, se bem que às vezes a falta de freio lhe causava problemas, mas ela era assim.

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Ainda sem jeito, Simey se desculpou afirmando não ser nada e que estava sério por causa de leitura, mas isso não convenceu Jennie, ela sabia o quanto os garotos têm dificuldade de dizer quando precisam de ajuda, embora o garoto tivesse razão, o silêncio e cara fechada mediam apenas o grau de concentração.


Quando o papo começou a ficar legal, o iPhone de Simey vibra, então ele parou a conversa e saiu andando como se não estivesse fazendo nada de importante.

Jennie olhou, sem graça, Simey se afastar, ela achou grosseria da parte dele sair sem nem pedir licença, ao olhar pro banco havia um copo de café vazio que ele esqueceu largado.

— Inda por cima isso! – Ela ficou bolada, mas catou o copo e o jogou no lixo. Ao olhar na direção que Simey tinha ido, viu que não havia mais nem fumaça dele, quando o relógio apitou ela percebeu que estava na hora de voltar pra casa.

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Felizmente o ponto ficava perto dali, foi chegar lá e o busão encostou, Jennie vibrou ao vê-lo praticamente vazio, assim não ia ter falatório ou alguém ouvindo música no volume máximo pra incomodar, além dela poder escolher um lugar que não ia ter ninguém pra puxar assunto, afinal, o que mais queria naquele instante era ficar na sua.

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Se dirigiu pro fundo do coletivo e sentou na cadeira alta, ao lado da janela, quando fez isso o corpo deu sinal de cansaço, então aproveitou pra encostar a cabeça no braço estendido sobre o assento da frente, aí o ônibus parou e ela acabou metendo o nariz com tudo.

“Caramba! Não precisa parar tão brusco.” – Ela reclamou mentalmente, fazendo cara feia.

Algumas pessoas subiram, mas ela nem ligou, apenas encostou a cabeça e foi fazer isso pra sentir um perfume cítrico, o mesmo da praça. Aí, mesmo com o frio ali, raios de calor surgiram e conforme o perfume intensificou, a temperatura subiu até tomar todo corpo, só que a quentura não vinha do sol nenhum, mas de dentro dela mesma.

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“Agora pego o número dele.” – Pensou Jennie e enquanto decidia se tinha coragem pra isso, as batidas aumentaram, se esperasse mais era capaz de levar multa por excesso de velocidade. Ela se sentiu estranha por ficar assim, pois quando estava a fim de um garoto, não esperava ele chegar, já chamava no probleminha e resolvia a situação.

Foi necessário algum esforço pra Jennie erguer a cabeça, apesar disso tudo que conseguiu exibir foi um sorriso de tons amarelos. Porém, ao olhar pra frente a surpresa foi tanta que lhe congelou o sorriso.


#proximoepisodio

Será que ela finalmente vai conseguir pegar o contato de Simey e como ele apareceu no ônibus? Ou não era ele? Mas o perfume era o mesmo, enfim, seja quem for não deixou de ser surpresa pra Jennie, tanto que ela ficou ainda mais sem graça.

Se você, assim como Jennie, acha que já sabe demais, então é melhor se preparar, pois vai descobrir coisas inusitadas, a principal é que o destino gosta de bancar o engraçadinho e trollar geral.

Prepara que o segundo encontro de Jennie e Simey promete ser ainda mais inusitado que o primeiro, as coisas serão ainda mais estranhas, o que vai deixar ela bem confusa.

Ósculos e amplexes,

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