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A cilada na grama do vizinho
O ditado pop "a grama do vizinho é sempre mais verde" nunca fez tanto sentido como nessa era de tanta exposição
Por Mishael Mendes access_time 11 min. de leitura

“Costumamos achar que sucesso em algo significa que tudo o mais é incrível, mas pode ser que além da grama o resto não seja tão belo assim.”

Mishael Mendes, Interrompido – A curva no vale da sombra da morte

Gamados na grama

“A grama do vizinho é sempre mais verde” nunca fez tanto sentido como na era da exposição. O ditado veio da música “The Grass is Always Greener in the Other Fellow’s Yard”, cuja canção composta em 1924, por Raymond B. Egan e Richard A. Whiting, traz o ditado em seu  título. Mas essa mania de perceber os bens do outro mais interessante é tão antiga que, em 43 a.C., o poeta Ovídio já alertava pro comportamento em “Arte de Amar” (“Ars Amatoria“): “a colheita sempre é melhor no campo do outro.”

Segundo a psicóloga social Lisa Slattery Walker que, com Tonya Frevert, foi responsável pela pesquisa “Atratividade Física e Status Social” (“Physical Attractiveness and Social Status“), realizada em 2014, “ao vermos alguém com um atributo positivo, nosso subconsciente credita a pessoa outras qualidades”, assim ao ver a grama brilhar com cores intensas o resto soa incrível em nossas mentes.

Rede da ostentação

O Instagram é uma das redes sociais mais utilizada e a mais prejudicial à saúde mental, conforme apontou um estudo da Royal Society For Public Health (em livre pt-BR: Sociedade Real pela Saúde Pública). Onde vidas e corpos perfeitos enchem nosso feed elevando a régua de postagem e nos levando a fazer comparações com quem somos e o que temos. Aumentando a competitividade e o narcisismo, além de nos deixar preocupados com nosso corpo e em como nossa vida parece não ser boa o suficiente ou de não estarmos no melhor momento dela.

As redes sociais alteraram nosso comportamento sem mesmos nos darmos conta de seu impacto sobre os relacionamentos e a vivência. Atualmente nos programamos pra algo ou escolhemos um destino pensando nas fotos e vídeos que podem render. O que nos leva a não desfrutar das coisas e tornar o processo lento, como aconteceu com um restaurante em Nova York que após tantas reclamações de demora realizou uma auditoria a qual constatou que o tempo de permanência dos clientes dobrou pelo uso dos celulares.

Tenho sede de likes

Parodiando a música de Dominguinhos e Anastácia Ferreira, “Tenho sede“: “Traga-me um bocado de likes, tenho sede; e essa sede pode me matar. Minha ansiedade pede um pouco mais de likes e os meus olhos pedem notificações”; de modo infeliz essa tem sido nossa exata realidade. Contar histórias foi a primeira forma encontrada pela humanidade pra confirmar sua vivência, depois vieram os registros em diferentes materiais e livros, nas artes, até surgirem as câmeras fotográficas seguidas pelas de vídeo. Mas o que antes era usado pra compartilhar nossas experiências de um fato incomum ou da última viagem se agravou com o uso das redes sociais.

Agora é preciso continuar compartilhando algo – como já falamos por aqui – ou somos assolados pela sensação de não estarmos fazendo nada, que nossa vida não é tão interessante ou de não estarmos aproveitando direito. É preciso uma prova social pro olhar do outro confirmar nossa vivência, sem isso é como se aquele momento nem tivesse existido.

Se não há provas, não é real

Essa sede de likes intensifica ao rolarmos o feed ou postar algo quando há sentimentos negativos sobre nós, aumentando a ansiedade por curtidas e comentários pra confirmar que fomos visto e recebemos aprovação que confirma a realidade de nossa experiência. Mas o prazer resultado dura pouco, logo é preciso compartilhar mais e no desespero de continuar relevante é preciso criatividade – como rodar o mundo de um banheiro – e até mesmo apelar, explicando o crescimento de sites de conteúdos adultos que mesmo frente a crise se mantém no lucro.

Por falar em empenho, quanto maior o nível de perfeccionismo com nossas fotos, maior a insatisfação com o que temos e somos. Como ocorreu como a blogueira australiana Essena O’Neil que, em 2017, excluiu mais de 2000 publicações de seu perfil, mudou a bio pra “Social media is not real life” (em livre pt-BR: “Rede social não é a realidade”) e a alterou a legenda das restantes, as contextualizando com seus bastidores. Numa delas foi necessário mais de 100 cliques em poses similares e passar fome pra conseguir uma barriguinha invejável.

Por mais empolgante que o terreno do outro pareça, isso pode acontecer devido a um ângulo favorável, boa iluminação ou o uso de filtros; e mesmo sem edição, a perspectiva gerada é apenas um recorte da realidade. A história contada, ainda que interessante, não passa de superficial, porque não torna possível saber se a grama é natural ou sintética, quanto de suor foi derramado, nem os riscos assumidos por cada escolha. Assim, se prender a essa perspectiva pode fazer nossa vida parecer menos empolgante.

O golpe tá aí, cai quem quer

Essa coisa de viver de aparência sempre existiu, mas as redes sociais levaram a ostentação pra outro nível. Vindo do latim ostentare, “mostrar”, a palavra é formada por ob-, “à frente”, mais tendere, “alongar, esticar”. E implica em exagerar bens e qualidades visando impressionar – aquele salve pra Bel Pesce – e provocar inveja. Inflar a verdade é fácil, pode acontecer com o uso de filtros e legendas que tiram a foto de contexto pra torná-la mais interessante – aquela foto de um jantar romântico pode ter surgido pra consertar algo – ou mesmo nem ser verdade, como a atitude altruísta fake de Gabriel Monteiro.

Na real, tudo pode ser falso mesmo, como as jornalistas Lindsay e Jazzmine, do BuzzFeed, provaram ao fingir uma viagem de quatro dias em Londres, sem sair de Los Angeles – no filme “Influencer de mentira” (“Not Okay”, de 2022), vemos as implicações de sustentar uma mentira desse calibre. Mais surreal que isso seria criar uma vida falsa total, como vemos no filme “Meu namorado é fake” (“My Fake Boyfriend”, de 2022) e por mais surreal que pareça dessa vez a arte imitou a vida. Apesar de não ocorrer de forma tão tecnológica, o fato aconteceu no duro com um fotógrafo de guerra, altruísta, gato e surfista que deixou a internet agitada e até chegou a dar entrevista mesmo nem existindo de verdade – durante anos em que existiu foram usadas as fotos do britânico Max Hepworth-Povey.

Só uma espiadinha

Independentemente de estarmos num ambiente físico ou virtual a gente costuma olhar por cima da cerca e quando a pessoa é só uma conhecida a falta de informação cria a ilusão da perfeição. Algo que ocorre ao nos compararmos com amigos distantes e celebridades – motivo que tornou o Rodrigo Hilbert um homão da poha, como abordei aqui. Isso porque a distância dessas pessoas não nos permitem compreender que ali estão postados seus melhores momentos, ou seja, apenas parte de suas vidas; e isso nos causa a sensação de insuficiência e de precisarmos mostrar que nossa vida também vale o like – nesse vídeo falei sobre nosso peso em likes.

Tamanha influência negativa acontece independentemente do gênero sexual. Somos todos afetados pela exposição de perfeição na grama alheia que aumenta nossa insegurança e faz a gente se julgar inferior, mas essa comparação só acontece com os de fora, ao vermos fotos de familiares e amigos próximos isso não ocorre porque os conhecermos o suficiente pra saber que o visto é parágrafo de um romance.

Cada um ostenta o que pode

Tudo que não temos é incrível demais porque não sabemos os sacrifícios diários necessários pra obtê-lo. Já dizia Esopo “quanto mais se quer, mas se perde”, assim, ser bem-sucedido em algo pode não significar uma vida incrível, até porque pra obter sucesso é preciso dedicação – que talvez desequilibre outras áreas, como familiar, amorosa, espiritual e até psicológica. É que diferente de nosso planejamento e execução, os demais fatores são difíceis de controlar, principalmente o humano, assim muitos se entregam a determinada tarefa, alcançando o sucesso, enquanto sua base se desfaz.

Fora nossas limitações e deficiências, a vida possui níveis de dificuldades que impedem de tudo ser maravilhoso, aliás, desconfie se alguém parecer assim. No mínimo o que é feito não é completo – como acontece com os reality shows de reforma – nem possui qualidade suficiente ou há alguma desordem psicológica por baixo do tapete; isso se não for maracutaia do marketing digital. Já dizia o ditado “nem tudo que reluz é ouro” e o príncipe pode não ser encantado, aliás, nem ser príncipe mesmo, mas o maior embuste e se tratar apenas de mais um Don Juan – como Adie descobriu da pior forma na minissérie Encantado.

Monstro de olhos verdes

O problema de ficar observando a vida alheia é que além de deixar nossa existência miserável e nos colocar em perigo – como foi abordado aqui – isso provoca inveja e todo tipo de sentimentos ruins [Tiago 3.16] – algo surgido desde que começamos a nos comparar [Gênesis 4.3-7]. E podem modificar nossa visão sobre nós mesmos a ponto de realizar cirurgia plástica pra parecer com nossas fotos alteradas.

O Instagram tem passado por atualizações que visam desviar o foco do número de curtidas, ajudando a reduzir a ansiedade, mas nós somos responsáveis pelas mudanças mais importantes; a começar por guardar o dispositivo e gastar tempo com atividades mais construtivas [Filipenses 4.8].

Como nossa mente é alimentada pelo que vemos e ouvimos. O melhor é reduzir essa exposição pra gente evitar desejar o que é do outro [Êxodo 20.17], escolhendo o que vamos receber através do que vemos, curtimos e de quem seguimos – é possível silenciar as publicações de alguém sem dar unfollow. Seguir mais perfis positivos, como de paisagens paradisíacas, comida gostosa e animais fofos, ajuda a preencher nosso feed de coisas boas que lembram haver coisas mais importantes nessa vida que a aparência.

Contextualizando

A frase que originou essa reflexão faz parte de “Interrompido – A curva no vale da sombra da morte“, uma minissérie que mostra que nossa humanidade é que nos leva a viver os desejos mais profundos e a cometer os erros mais insanos. Ela surge após Luan recordar do péssimo clima em casa, imaginando como seria a reação de seus fãs que admiram suas minisséries, caso soubessem disso.

Artigo publicado originalmente no LinkedIn, também está disponível no Medium.


Fortalece a firma

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Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura

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