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O enigma que o espelho revelou
Quando você se olha no espelho o que ele realmente te mostra? Sua imagem ali refletida ou apenas sombras, imagens embaçadas e enigmas?
Por Mishael Mendes access_time 6 min. de leitura

Mais uma vez olho o espelho
Vejo-me como sou, natural,
Mas instantes após mirar-me
Esqueço a imagem vista ali…
Percorre o luar nudez da pele
Opulenta candura que cintila

Vejo-me como realmente sou.
Apagou-se imagem de outrora
Como poeira fixou nos dedos,
Retrato que não espelha mais,
Só a memória persiste lembrar.
Mas será que algum dia divergi

Daquilo revelado no parecer?
O que ante a mim contemplo
É o que realmente tencionei?
Apesar de ânsias e incertezas
Isso é o que o espelho diz ser.
Todas as minhas sentenças,

Aspirações e pelo que escolhi
Também verdade e convicção
Vêm por terra ante à imagem,
Nudez que o espelho revelou.
Olho pra frente, sigo a mirar,
Vejo cicatrizes feitas no corpo

Marcas impressas pelo tempo,
Sinais de dor, represália, ilusão
E também causadas por amor,
Lado ferido pelo desejo maior.
No silêncio que só a noite traz
Envolve-me assídua presença,

Somente a escuridão ameniza
Ocultando tão ferozes órbitas
Que sem misericórdia julgam.
Como podem fúlgidas estrelas
Se manifestarem nos obscuros
E gélidos pensamentos teus?

Há muita divergência em mim
Михаил Секацкий/ Unsplash

A pálida imagem, a brilhar ali,
Esquelética, não parece reagir,
Nem se digna dar a conhecer.
Pele alva, pedra, barro, grama
Água, por fim, humos também.
Corrente soprada pelo tempo

Levou folha a folha, despindo
Por completo os ramos meus,
Levando pra distância infinda,
Afastando-me de mim mesmo,
Essência que o barro absorveu.
De repente, um som toma o ar,

Sentenças sopradas, angústias,
Respiração carregada de pesar.
O invisível adquire forma, peso
Fazendo-me descer ao abismo,
Escuridade onde vive solidão,
Sofrimento é distanciamento

Do intrínseco poderio do amor.
Por companhia me resta a dor
Única constante a permanecer
Sem energia, beiro o silêncio…
Na mais tenebrosa profundeza
Somente trevas me vêm visitar

Sem fôlego, como irei bradar?
Do espaço retorno à divagação,
No alvor da pele, escuros olhos,
Sem brilho, a carregar cansaço,
Interpelam por saída não vista
Esvaem ante imagem refletida.

Existe dor demais
Nik Shuliahin/ Unsplash

No esquecimento, aqui estou
Sem precisar minha chegada,
Encontro-me preso, sem rumo,
As águas do bravio mar cercam
Dia a dia levantam contra mim,
No espelho parecem não findar

Pela noite vão, cresce o sofrer
Vendaval que se opõe a passar,
Não dissipa ou ainda cicatriza.
Terá o sossego me silenciado?
A alma desfaz, vertendo gotas,
No sofrimento, sopro liquefaz.

O que antes era energia, vital,
De forma apática carrega dor,
Esmaga o que da onda restou.
O abismo traz um, dois, outros
Quando vi era escuro pra voltar
A noite caiu e a visão enturvou.

Da ilusão, o intenso esplendor
Impediu enxergar, da voragem,
Profundezas da escura vereda
Onde os passos foram apalpar.
Por que te abates, aqui dentro,
Ó, alma, cercada de dessabor?

Tua distância não aufere o sol,
Corpo celeste que reflete a luz.
Distância é dor, fragmentação,
É paralisia, ausência e morte,
Da imagem se olvida o sentido
Desfigurando sua semelhança.

Um abismo chama outro
Martin Jernberg/ Unsplash

Clamo e não sou ouvido, grito
E o som não pulula minha voz
Onda que no escuro se desfaz.
Na alvorada me lanço ao chão
Até os lábios beijarem a terra,
Da pedra abundante água saiu,

Se desmanchando em prantos
Traz pra fora dor calada no ser
Pelo espelho consigo devassar
A semelhança do que nem sei
No escuro, só vejo as sombras
Contorno do que foi ou será,

Estranhas e restantes formas.
A luz que pela janela adentra
Contorna-me o lívido corpo,
No espelho só vejo em parte
Enigma a sombrear mistério.
No fim é que o começo está.

Divagando sobre o espelho
Percebo conhecer um pouco
Além do que posso entender
Desconheço aquilo que sou.
Face a face com a imagem ali,
Semelhança diz nada de mim

Ou quem, um dia, poderei ser
Imagem em enigma a observar,
Com olhar intenso, penetrante,
Cobra muito, nem sei o porquê
Não consigo sustentar os olhos,
Resistência pra isso não tenho,

Nem posso tornar as madeixas
Do branco em preto outra vez.
Almejo, de fronte descoberta,
Não necessitar mais me mirar,
Vendo tamanhas imperfeições,
Mas seja um riacho translúcido

Luz pelo corpo
Dil/ Unsplash

A refletir luz que a terra invade,
Como onda inundando a praia,
É quando alçarei a completude
Não mais cota em decaimento.
Espelho, de veras, a dura face
Diz que a imagem ante a mim

É reflexo das ações cometidas,
Pelos pés e mãos que optaram
Por trilhar a esmo a escuridão.
Ouço abundosas águas soando,
Rugindo, abalam a terra e o céu
Ante a potência de seu bramido

Agitam fontes dentro de mim.
Apenas a pureza e sinceridade
Dos sentimentos derramados
Me sustentam noite e manhãs,
Dos meus olhos corre um rio,
Incessante torrente de penar,

Escorrendo, descem pelo rosto
Seguindo no rumo dos lábios,
Saciando, servem de alimento,
Ao passo que, prostrado, sofro.
De madrugada ouço murmúrio,
Um clamor, soa palavras ditas,

Pela janela suave vento entra,
Ao surgir, traz consigo calmaria.
Em angústia continuo a clamar,
Tento mudar impulsos elétricos,
Propagando em alta velocidade,
Sem controle ou decodificação,

Percorrem sob pele esmaecida,
Energia transmuta em química
E física das dinâmicas, reações,
O que era o sopro se materializa
Descompassando o relógio vital,
Cadeias que ao circo prenderam.

Espelho da verdade
Jovis Aloor/ Unsplash

A apenas setenta e cinco metros
Em cada segundo se entrecorta,
Sendo a alma percorrida por dor
Até se tornar insólita o palpável
E ela se render, cativa ao vento,
Lançado e pisoteado o sal foi.

Uma canção soa aos ouvidos
Sonora, vibrante, uma oração
E os lábios que profanamente
Destilaram o desejo do prazer
São os mesmos a soar louvor,
Ação do favor que o alcançou.

Ínfimo ser que o espelho expôs,
Desfigurada matéria a se mirar
Vê a necessidade de preencher
O imenso buraco dentro de si
Com algo maior que diversão
De brilho que reluz a essência.


#papolivre

Difícil seria não falar de algo tão profundo e pessoal que, vez ou outra, me rodeia e enlaça, levando-me as profundezas do abismo, mas mesmo ali sei que sou ouvido [Salmos 130.1, Salmos 139.8].

Além da experiência pessoal, me baseei em diversos versículos bíblicos, mas principalmente em Salmos 42 – o mesmo usado como base pra compor a música usada na trilha sonora deste poema. Também me inspirei na música “A alma Abatida” – que possui uma poesia profunda como a que tentei expor aqui, escrevendo com a alma àquilo que senti por tanto tempo e em diferentes momentos da vida.

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura
Mishael Mendes