No outono era tarde, já entardecia ao mudar o clima,
Reduzindo a duração da luz e esfriando tediosos dias.
De mostarda tingiu folhas, amarelando também o céu,
Tocando as copas das árvores, com a ponta dos dedos,
Colocastes tons laranja, também de vermelho as pintou.
Em cada paleta há nova inspiração, precipitando versos,

Derramando frágeis folhas que no ar se vão sobrevoar
Enquanto seguem, pelo vento, carregadas, reclamam,
Sem compreender seu farfalhar, pra longe ele as leva.
Águas de março, fechando o verão, traz fins e renovos,
Tempo de acaso, melancolia, de saudades a época és,
Do alto caiu o tempo, o ano, as folhas e a temperatura.

No inverno era noite, escuras as trevas se apresentaram
Irrequieto, o vento começou a cantar sombrias canções,
Escorrendo veio a névoa fria, invadindo frestas e cantos,
Esfriando a casa, marcando ausência, saudade e solidão.
Pássaros e borboletas, migram, esquivando se vão de ti,
Animais hibernam ou se isolam só pra não precisar te ver,

Até as árvores adormecem, na terra se esconde as flores.
Com teu manto gélido, adormeces, a sonolência se abate,
A vontade é apenas correr pras cobertas e lá permanecer.
Mais longas se toram as noites e o tempo esfria até gear,
Tempo do sol se esconder e de tomar chocolate quente,
Quanto mais brilha o sol, mais se intensifica a friagem.

Na primavera era alvorecer, madrugou aos raios de sol,
Sem esperar o inverno partir, trouxestes ameno tempo,
Tua chegada se anunciou por magnólias e marmeleiros.
Viestes inchando córregos e lagos, escoando liquida vida,
Despertando cantos, perfumes, beleza, felicidade, paixão,
Equilibrando dias e noites, até a escuridão ficar menor.

Ao teu toque se encheu copas, galhos e olhos de verdes tons,
Teu reconfortante contato faz saltar plantas, frutas, riachos.
Tempo de flores, animais correndo, acontecimentos felizes,
De flor a cerejeira se encheu, despertando o ano em beleza,
Momento de sair com quem te quer bem, fazer piquenique,
A terra escala as estrelas só pra de perto contemplar o sol.

No verão já era dia, ao meio-dia o sol começou a queimar,
Gelado surgiu o vento, refrescando ao calor do toque teu,
Sob as copas das árvores é que estão os melhores abrigos,
Nas águas a gente se lança e mergulha, buscando refresco,
Na chuva fria, felicidade harmoniza com sete cores no céu.
Enquanto chega, encurtas as noites, lotando os dias de luz,

Sol que invade a noite, sem no horizonte querer se esconder.
Tão longo eras que em dois te dividias, entre chuvas e o estio.
O sol girou numa flor, amarela ela brotou, buscando sua luz,
Época de luzir o escuro céu com fogos e brilhantes artifícios,
Estação de chuvas e de água copiosamente deixar derramar,
Da terra cheiro úmido subiu, das flores o perfume de verão.

Estações marcam tempos, trazendo novidades e renovação,
Vão surgindo enquanto a terra se afasta ou aproxima do sol,
Mas sem respeitar ondem alguma, as quatro se entrelaçam,
Solstício e equinócio, dançam entre os polos boreal e austral
Até os oceanos as vêm temperar, amenizando a primavera,
A figueira renova e frutifica, anunciando estar perto o verão,

Enquanto as rainhas, ciclames, mesmo o inverno, vêm perfumar.
Sem importar tempo, sons de grilos, cigarras e coaxar de sapos,
Trazem tanta calmaria pra cultivar amores, amizades e sonhos.
Necessário seria separar as estações, números impares ou pares,
Quando se misturam independente de tempo, mudando os ares?
E sem importar o clima, em mim as águas aquecem e inundam.


#freetalk

Seja calor ou frio, tempo ameno ou congelante, as estações nos circundam e nessa ciranda vão-se os dias, semanas, anos e quando a gente se dá conta, já foi uma vida inteira – ou quase isso.

Dificilmente pensamos no impacto delas sobre a gente, isso sem contar o fato de nos obrigar a levar guarda-chuva pra todo lado, evitando banhos de uma chuva inesperada, ou andar com várias roupas – muitas resgatadas do fundo do guarda-roupa – pra tentar fugir do frio, enquanto o rosto queima com o vento cortante.

A cada estação surgem novidades que pedem atitudes e decisões diferentes, as quais registram desejos, esperanças e saudades, marcando nossa passagem no tempo. E, essas lembranças e interações, mesmo esquecidas ainda hão retornar diante da retina [Eclesiastes 11.9].

Há quem tenha preferência por algumas, já eu, amo o outono, onde o frio não chega a ser extremo – acho uma delícia sair por aí, sentindo o refrescante vento que se desprende do céu e das árvores, enquanto o brilho amarelado do sol vai tonalizando as paisagens – mas, independente de nossa vontade, elas continuam a passar.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura