#episodioanterior

Assombrado pelos flashs do momento ruim que lhe sobreveio, Luan não estava conseguindo dormir, ainda havia coisas assustadores a recordar e as lembranças iam vindo aos poucos, deslizando pela escuridão, enquanto o suor escorria, ensopando todo corpo.

Felizmente, Socorro estava lá pra lhe ajudar a passar por esses momentos de trevas. Ela era tão especial e cheia de luz que ele começou a se sentir atraído pra descobrir mais da enfermeira.

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Luan acordou sobressaltado, olhou em volta, mas não havia ninguém.

— Acho que aquela voz foi só sonho mesmo. – Então fechou os olhos novamente.

Isso o deixou meio frustrado, ele esperava encontrar alguém ao abrir os olhos. A voz parecia tão real, vindo de fora de si, já que dentro dele só surgiam pesadelos e pensamentos ruins – como se de alguma forma ele estivesse se punindo.

A voz lhe ecoou novamente na mente, parecendo tão acolhedora e presente, mas mesmo sendo um timbre bem característico a memória não o deixou recordar a quem ela pertencia. Ainda assim, ele se pegou tentando recordar, pois a vibração dela trazia uma paz e segurança as quais não sentia desde pequeno, quando a mãe…

— Será que foi a voz dela? – Repentinamente, Luan abriu os olhos e ficou encarando o teto, como se pudesse enxergar além do concreto, que sustentava vários andares, contemplando o céu estrelado. — Não pode ser!

Então a mente foi tomada por um forte impacto que fez cristais de vidro ir em sua direção, enquanto voava sobre o veículo que se chocou contra si, indo parar embaixo da moto. Dessa vez ele viu os paramédicos chegar, encontrando-o a respirar com dificuldades.

Quando a moto foi retirada de cima de suas pernas, os ossos estavam expostos e havia sangue, muito sangue, jorrando pra todo lado.

“A vida é linda, mas ainda é cheia de imperfeições, por isso existe tanta dor, mas um dia nada disso irá existir.”

— É um milagre você ainda estar consciente! – Um dos paramédicos falou, assombrado.

Ao ouvir isso, Luan sorriu e desmaiou, quando acordou estava numa maca, sendo arrastado pra dentro do hospital.

Talvez ele merecesse tudo isso por ser tão ingrato. A mãe sempre foi a pessoa que dava pra contar de tudo, com ela não tinha tempo ruim, Luan se sentia mais ele mesmo e apropriado de uma segurança que só encontrava ali, naqueles abraços aconchegantes.

O ruim é que dependia da boa vontade de alguém com tempo pra levá-lo até ela, mas depois de completar doze anos já sabia pegar o busão sozinho, então se mandava pra Santos nos fins de semana, até o pai começar a reclamar que isso não estava certo, que ele precisava se dedicar aos estudos. Nem adiantou dizer que, durante a semana, tinha a tarde toda pra isso – até porque ele tinha várias atividades extracurriculares.

Vendo-se obrigado a reduzir as visitas a uma vez por mês, Luan jurou pra mãe que assim que estivesse trabalhando ia visitá-la toda semana e como resposta recebeu um sorriso acolhedor.

Logo ele viu que o pai estava certo, sem tempo pra estudar, o rendimento ficou baqueado, mas dedicado como era, Luan conseguiu se recuperar rapidamente e isso não chegou a afetar as notas.

Assim que começou a trampar, pode visitar a mãe semanalmente, embora não desse pra passar o final de semana todo lá, tentava estender ao máximo o tempo passado com ela.

Só que a vida de coletivo ou carro pra ir à Santos começou a ficar cansativa a medida que a correria aumentava. Até ele passar na frente duma concessionária e ver a R 1250 GS – foi amor à primeira vista – e bastou um test drive pra ter certeza que ela era o que faltava em sua vida, então escolheu logo a versão Premium que, além dos itens de série, tinha uma pá de recursos bacanas, como keyless – o que elevava bastante seu valor.

Bom, pra alguma coisa ele tinha que usar a grana que vinha juntando e, nada melhor, do que algo que proporcionasse um deslocamento veloz, enquanto era carregado pela liberdade – essa era a seção que a R 1250 GS proporcionava. Com características pra lá de esportivas, a bigtrail deslizava no asfalto feito uma Honda CG – com muitos quilos e cavalos a mais – se transformando em tanque de guerra nas estradas de terra.

“Nem sempre a gente recebe o que precisa de quem ama, só que isso em nada reduz nossa ligação com ela.”

Luan amava ser livre e se isso proporcionava controle, conforto e segurança, além de economizar tempo, eram bônus muito bem-vindos, assim, além de não necessitar mais pedir carro pro pai, ainda conseguia chegar num tempo menor na casa da mãe – o que era sempre uma boa desculpa pra vê-la quando a saudade apertasse, ainda mais porque dava pra ir e voltar apenas abastecendo o tanque.

Mas ele foi ficando com cada vez menos tempo, ainda mais depois de virar roteirista de uma grande emissora – a segunda maior rede de televisão comercial do mundo, parte de um dos principais conglomerados de mídia do planeta.

Daí que, no mês anterior a quarentena, tudo que conseguiu foi enviar desculpas pra mãe por não poder vê-la, as quais ela respondia que tudo bem. Então o surto de pandemia fez soar a ordem de restrição e isolamento, e no meio de toda essa loucura ele recebe a chocante notícia do falecimento da mãe, devido ao maldito COVID-19.

— Poxa! Por que mamãe se foi assim? – Ele estava indignado com tamanha injustiça.

Primeiro ele foi tomado da mãe e, por ser menor de idade, o juiz decidiu com quem era melhor ficar e quando pode optar ele fez a péssima escolha de ficar com o trabalho e…

— Pra quê?! – Ele urrou, só aí percebeu o rosto molhado e o nariz a escorrer.

O que fez só serviu pra ficar sem a mãe, pra sempre, além de estar arriscado perder os movimentos das pernas, fora a BMW tão querida que deu PT. Nem assim a família se importou de ir visitá-lo.

Como desgraça pouca é bobagem, talvez nem emprego fosse ter mais, já que a emissora não tinha mais contrato de exclusividade – fazia um tempo que ela não andava bem porque demorou pra notar a mudança no comportamento do consumidor, que fez a grana da publicidade escoar pras plataformas móveis.

Perdido nas trevas advindas de si mesmo e que iam preenchendo o quarto, um raio de sol tocou-lhe a pela, a percepção de que o dia já tinha nascido, fez espantar a escuridão e um sorriso se formou em seu rosto.

“Só pode ter sido a dona Socorro.” – Ele logo sacou.

— Bom dia, menino Luan! – O cumprimento da enfermeira o pegou de surpresa.

— Bom dia, dona Socorro! – Valendo-se que estava de costas pra porta, ele secou o rosto. – Curtiu a folga?

— Um pouco, dona de casa não para, mas foi bom poder passar um pouco mais de tempo com meu marido.

“A vida ensina tudo o que é preciso, basta não se prender as dores que a gente enxerga os ensinamentos necessários.”

— Fico feliz! – Luan disse com a sinceridade nos lábios e um sorriso no rosto. – Mas a senhora fez muita falta aqui.

— Também senti sua falta, menino Luan. – Ela sorriu acariciando-lhe as madeixas.

Instantemente ele se sentiu transportar pro colo da mãe. Luan tinha acabado de completar cinco anos, então a mãe lhe preparou o cupcake favorito – cenoura com muito chocolate – colocou uma velinha e lhe deu pra assoprar, depois ficou a acariciar as madeixas, foi quando confessou que precisava partir.

Ele não conseguiu compreender, era tão bom passar as tardes vendo filme, só os dois. Por que ela precisava ir?

Nem a mãe explicando, aquilo teve jeito de se tornar compreensível. Quando chegou o dia, por mais que a mãe o tenha chamado pra um abraço de despedida, Luan se recusou, após insistir, sem qualquer sucesso, ela se foi e ele ficou paralisado vendo-a se afastar, até sumir.

Ele tinha acreditado que se não abraçasse a mãe, ela não ia poder ir, assim teria que ficar com ele pra sempre – caso precisasse ele estava disposto a nunca mais a abraçar – mas quando a viu partir no carro, ficou chocado de como sua lógica podia estar errada.

Assim, quando o levaram pra visitá-la pela primeira vez, Luan se pendurou no pescoço da mãe, abraçando sem querer soltar, pra compensar todos os abraços perdidos e só soltou porque ela disse estar ficando sem ar.

Outra vez a mãe tinha se foi sem abraço, mas agora não tinha mais volta, nem jeito de vê-la depois pra fazer isso.

Se a tivesse ido visitar quando pode ou não demorasse tanto pra ir atrás dela e descobrir o que estava acontecendo, talvez até não pudesse ter impedido da mãe partir, mas teria ficado ao lado dela até o último instante. O acidente só podia ser castigo por ter sido um filho tão ruim.

— Por que acontecem tantas coisas ruins, dona Socorro? – As lágrimas começaram a rolar. – Tem vezes que a vida não parece ter sentido algum e que tudo é só piada de mau gosto.

— Menino Luan, a vida é linda, mas ainda é cheia de imperfeições, por isso existe tanta dor, mas um dia nada disso irá existir. [1 Coríntios 13.10]

— Só queria ter tido mais tempo com mamãe! – Desesperado, começou chorar a ponto de soluçar.

Vendo o estado do menino Luan, Socorro o abraçou e começou a recitar algo, mas na agonia que estava ele não compreendeu nada do que foi dito, até os lábios dela silenciar. Quando deu por si, ele já estava calmo, sentindo uma paz que a mente dele não conseguia compreender [Filipenses 4.6-7].

— Que cê tava falando? – Curioso, ele quis saber o que Socorro disse que foi capaz de o fazer sentir parte da plenitude e rapidamente afastou o desespero que o vinha consumindo a vários dias.

— Só falei o Salmo 91, conhece?

— Sim, mamãe lia ele, quando eu tinha pesadelos. – Ele sorriu, saudosista. – Espera! – Ele recordou. – Cê esteve mais cedo no meu quarto?

— Sim! Você estava com febre, então administrei um pouco de antipirético.

— E cê fez outra coisa também, não foi!? – Ele piscou, com cara de espertinho.

— Você me ouviu? – Socorro fingiu surpresa.

— Deu pra ouvir no sonho, mas daí acordei e não tinha ninguém, então pensei que fosse só imaginação.

— Estou sempre por perto pra cuidar de você [Salmos 34.7]. – A enfermeira sorriu. – Agora, dorme um pouco, você não teve uma noite muito tranquila, então está precisando descansar.

— Tá! – Ele se ajeitou no leito, pra ficar mais confortável, virando pra parede. – Poxa, ninguém veio me visitar. – Chateado, ele falou consigo mesmo, enquanto suspirava.

— Acho que isso tem a ver com o que você pediu pra dizer, menino Luan.

— Oi? – Ele se assustou, pois pensava estar só e mesmo que não estivesse as palavras saíram como um sopro, dava nem pra terem sido ouvidas.

— Quando os repórteres estavam insistindo em te entrevistar.

Ao ouvir essas palavras-chave ele sentiu desbloquear um nível bônus de memória que antes nem parecia existir, então Luan recordou tudo que tinha acontecido.

O desastre dele deu maior repercussão na mídia, um jornalista disse que foi um milagre ele sobreviver a um acidente daqueles, quando nem o motorista do carro resistiu, já outro lembrou que ele era um roteirista em ascensão, estando entre os melhores da nova safra e que, por pouco, não tinha partido de forma tão trágica.

Luan chegou a assistir um pouco, mas ao ver as imagens do acidente isso lhe arrancou indesejados flashs do instante em que tudo aconteceu, então ele desligou a TV. Quando olhou o celular, havia uma mensagem do chefe, solicitando uma exclusiva pra emissora, pois isso ia ajudar bastante na audiência.

Na hora que viu aquilo, ele teve vontade de mandar o cara ir pra cucuia, antes do acidente ele havia dito que precisava encerrar o contrato dele por tempo indeterminado, ou seja, enquanto durasse a quarentena ele não ia receber nada, daí foi só acontecer aquilo que ele se sentiu no direito de pedir favor? Era mesmo o cubo da ousadia.

Como os repórteres insistiam em vê-lo, mal ele tendo se recuperado, Luan pediu pra dizer que não podia ocorrer entrevistas porque havia uma imensa chance de contaminação por COVID-19, mesmo com uso de equipamentos adequados. Isso os afastou, mas acabaram noticiando que ele estava sob suspeita de ter contraído coronavírus.

Dando-se conta de que, mesmo com a tela toda trincada e cheio de arranhões, o celular tinha sobrevivido – assim como ele – Luan o desbloqueou e viu as mensagens da irmã.

No dia em que ele saiu de casa o pai ficou assustado dele ter feito isso em plena crise de pandemia, ainda mais porque não tinha mais o que fazer. Nem tinha como ver o corpo da mãe que seria cremado.

— Cê é muito irresponsável, não se importa de expor o pai!? – Ela mandou pouco antes do acidente acontecer.

Depois de ter o quadro estabilizado, ele perguntou se não iam visitá-lo e irmã brigou, o chamando de sem-noção, por pedir isso podendo estar com coronavírus – tentar desmentir a história se mostrou total perca de tempo.

— A gente já perdeu a mãe e quase fica sem você, quer nos deixar sem o pai também? Para de ser tão egoísta! – No áudio dava pra perceber o quanto a ideia de perde o pai mexeu com ela.

Ela ainda disse que pra ele seria só uma gripe, mas se o pai pegasse, além de sofrer muito, ia acabar morrendo. Então o questionou se ele pensava em mais alguém além de si mesmo e pediu pra esperar até poder voltar pra casa, pra se verem. – Ela pode até não disse, mas o tom usado deixando claro que não fazia a menor questão dele voltar.

Em seguida recebeu mensagem do cunhado, falando que ia conversar com o patrão deles pra não contratá-lo de volta quando tudo passasse, caso insistisse em ver o pai, pois isso deixou a esposa em prantos – sim, a notícia voou.

Estressado ele disse que não era moleque pro cara falar daquele jeito consigo e que já tinha desistido da ideia e que só a propôs por estar sentindo falta da família. Apesar da vontade de falar umas boas, Luan respirou fundo – tudo bem que o féla o tinha indicado, mas eles eram de áreas diferentes total e ele só ficou por mérito próprio.

— Uuuuuf! – Ele expirou fundo ao recordar o motivo da família não o ter ido visitar no hospital.

De certa forma a culpa era dele, mas aquele foi o único jeito que encontrou de se livrar dos paparazzi, ele só esqueceu o quanto o pai era vidrado em jornal, dando um crédito absurdo ao que era noticiado.

O pai nunca curtiu séries – mentiras serializadas, ele dizia – sem saber que telejornais seguiam na mesma linha, com recortes editados apenas pra manter a audiência, implicando em notícias desatualizadas, incompletas e incorretas.

— Nem sempre a gente recebe o que precisa de quem ama, só que isso em nada reduz nossa ligação com ela.

— Aí que tá, não é fácil conseguir lidar com isso tudo. Como cê consegue ser tão plena assim? – Ele estava admirado.

— A vida ensina tudo o que é preciso, basta não se prender as dores que a gente enxerga os ensinamentos necessários.

— Sim… – Luan se dispersou, repentinamente. – O ruim é que parece que minha memória tá meio bichada. Não consigo lembrar das coisas direito.

— Isso é uma das sequelas do acidente, mas não se preocupe, aos poucos, sua cabeça vai estabilizar. – A enfermeira disse-lhe tocando a cabeça.

— Bom saber disso! – Ele se sentiu aliviado. – Inclusive, acho que queria te falar algo, mas não lembro o que era. – Ele forçou a mente, tentando recordar.

— Tudo bem, menino Luan, não se esforce tanto, quando lembrar, é só me chamar. – Ela sorriu e foi se afastando.

— Dona Socorro? – Ele chamou, assim que ela fechou a porta.

— Sim? – Ela quis saber, toda solícita.

— Lembrei o que era! – Os olhos chega brilhavam, ele parecia ter descoberto como consertar o mundo.

— Que bom! – A enfermeira ficou encantada com o entusiasmo dele. – Me conta, então. – Ela sorriu.


#proximoepisodio

Como não conseguiu descolar nenhuma informação sobre Socorro, Luan resolveu perguntar direito pra enfermeira, só que acabou esquecendo, mas agora que lembrou ele poderá tentar saber um pouco mais sobre ela. Ela só não esperava que ela fosse chorar tão facilmente, até porque não disse nada de mais – pelo menos foi o que pensou.

Ainda assim, Socorro abre o coração e começa a lhe contar o que foi que tanto a motivou a se tornar enfermeira e o motivo que a faz ter tanta dedicação e empenho em ajudar os outros.

Ósculos e amplexos,

mishael mendes sign, assinatura

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