#episódioanterior

Tocado pela dedicação e amor de Socorro, Luan começa a conversar com a enfermeira pra saber o que a tinha feito se dedicar aquele ponto aos pacientes, mas sua insistência acabou arrancando lágrimas dela.

Foi assim que Socorro começou a contar a história mais triste que o menino Luan já tinha ouvido, sobre Lourdes, Marcos e Cadu – um garoto muito querido que sofreu um acidente na porta de casa, ao voltar do serviço.

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Lourdes acordou de uma vez, puxando o máximo de oxigênio que pode – parecia que alguém tinha tentado afogá-la, por diversas vezes, até ela perder os sentidos. Endireitando o dorso, percebeu-se deitada, a visão turva não deixou compreender onde se encontrava naquele momento.

Olhando em volta, viu sombras estranhas se mover e isso a assustou, ela sentiu que algo não estava certo, a sensação era de estar perdida, como se nada daquilo fosse real, apenas um terrível sonho ruim.

Conforme a visão foi estabilizando, deu pra ver que em nada aquele lugar tinha com seu quarto, Lourdes não fazia a menor ideia de onde estava, nem como foi parar ali, a luz apagada também não ajudou a esclarecer coisa alguma.

A mente ainda estava devagar, mas ela achou melhor sair, então escorregou pro chão, mas algo preso no braço a fez perder o equilíbrio, como as pernas ainda estavam fracas, ela acabou caindo. Graças ao sensor de movimentos bruscos, logo surgiu uma enfermeira, acompanhada de dois auxiliares fortes, e a luz foi acesa.

Depois de colocá-la de volta no leito, removeram o cateter e pediram pra se acalmar, pois tudo que ela precisava naquele momento era ficar de repouso.

— Você teve um mal súbito. – Alessandra, a enfermeira, informou.

— Como assim? – Olhando na direção dela, sem nem conseguir piscar, Lourdes se espantou ao ouvir aquilo.

“O verdadeiro amigo sempre está ao alcance do coração.”

Alessandra explicou que quando os paramédicos a encontraram, Lourdes estava fraca e inconsciente, o que parecia ser causado por queda de pressão, mas quando a aferiram estava dentro dos padrões, conversando com Marcos descobriram que ela ainda não tinha tomado café.

— Trata-se de um grave quadro de hipoglicemia! – Kevin, um dos paramédicos logo identificou.

Antes que ela pudesse entrar em coma, eles lhe aplicaram uma dose de glicose, fazendo com que o quadro se estabilizasse. Como ela permaneceu desmaiada, ao dar entrada no hospital, então foram feitas contínuas administrações de glicose até ela acordar.

— Meu filho! – As palavras saíram, num volume que não conseguiu controlar.

Lourdes estava com a memória meio turva até Alessandra começar a falar, então a mente recobrou o que tinha acontecido, foi como se uma imensa descarga de energia tivesse descido do céu caindo sobre si e de forma tão intensa que até formou círculos excêntricos no chão, fazendo o cérebro – que tinha congelado devido ao choque – voltar a funcionar numa capacidade muito superior, a ponto dela processar todas as conexões possíveis de uma só vez.

Nesse exato instante, Marcos entrou no quarto, com semblante obscuro, o que só a deixou mais agitada.

— Amor, cadê nosso filho? Onde o Cadu está? – Seus olhos eram suplicantes.

— É melhor você se acalmar, querida…

— Me acalmar por quê? – Ela interrompeu. – O que foi que aconteceu com nosso filho?

Ela encarou o marido que pareceu querer falar, mas algo o impedia, sem poder aguentar a firmeza de seu olhar, ele desviou os olhos na direção da enfermeira que balançou a cabeça em negativa. O gesto foi rápido, mas não o suficiente pra escapar de Lourdes e quando Marcos olhou novamente pra esposa, ela nem esperou pelo que ele ia dizer e se descontrolou de vez.

— Antônio Marcos Mendez, o que você está escondendo? – A aflição a consumia.

Apesar de exigir uma explicação, teve como resposta apenas o olhar carregado de dor de esposo e o de pena dos demais que dispensaram qualquer palavra. Aquilo lhe encheu os olhos de lágrimas e a alma de amargor, a ponto de sentir a língua azedar e prender na boca.

— Meu… meu filho morreu! – Ela sentiu dificuldade pra falar, mas depois começou a gritar histericamente. – Meu D-s! Meu Cadu está morto e eu vi! Eu vi tudo!

— Dona Lourdes, por favor, se acalme! – Alessandra pediu gentilmente, mas de maneira firme.

— Não! Mataram meu filho! Preciso ver ele! – Ela se levantou bruscamente, empurrando a enfermeira.

No mesmo instante, os auxiliares foram na direção dela e a seguraram, mas diferentemente da forma débil e fragilizada que tinha chegado, Lourdes ofereceu mais resistência do que seu corpo parecia ter, tanto que foi preciso da ajuda de Marcos pra contê-la.

Isso só lhe aumentou o desespero, foi aí que Lourdes começou dissociar o que dizia, o olhar foi ficando vago, enquanto ela só conseguia repetir as palavras filho e morto, com uma lacuna entre ambas. Isso continuou até elas virarem meros gemidos, quando a soltaram seu corpo dava alguns espasmos.

A enfermeira lhe iluminou os olhos, mas eles não interagiram com a luz.

“A grandeza habita em nós, independente da aparência frágil ou do tamanho que se possa ter”

— Ela está em estado catatônico! – Foi a constatação óbvia.

Instantaneamente lhe aplicaram uma dose de benzodiazepínico, de curta duração, pra demovê-la daquele estado, enquanto o fármaco lhe proporcionava certo alívio.

Algumas horas mais tarde, Lourdes acordou novamente, mas dessa vez estava relaxada, como se tivesse perdido a capacidade de sentir dor, ela se sentia envolvida por uma calmaria tão agradável, mas apesar da sensação boa, ela sabia que aquilo era apenas o efeito do que lhe haviam injetado.

Avisado que a esposa tinha acordado e que aquele era o melhor momento pra lhe contar o que tinha acontecido – já que com o efeito do remédio o impacto da notícia seria menos doloroso – Marcos entrou no quarto de Lourdes e se sentou na poltrona ao lado do leito dela.

— Você está melhor, querida?

Ela confirmou apenas com um aceno.

— Preciso contar algo… – Ele começou, mas se interrompeu, afinal, como contar aquilo de um jeito menos doloroso.

— Tudo bem, amor, pode dizer. – Ela incentivou, apesar de zonza, precisa saber o que realmente tinha acontecido.

Quando o esposo começou a falar, Lourdes teve a impressão que um manto negro os envolveu, tornando as lembranças daquela manhã ensolarada em escala de cinza, roubando cada tom de felicidade que tinham experimentado, até restar apenas dor.

Marcos falava no celular, quando Cadu disse pra adivinhar onde estava, depois de alguns chutes errados que fizeram o filho rir prazerosamente, o garoto disse estar “na frente”, mas as palavras foram interrompidas, por todos aqueles sons aterradores. Assustado, Marcos correu pro quintal e viu os vizinhos se reunir na frente de sua casa, tão ou mais espantados que ele, foi aí que chamou a esposa e correu pra fora.

— Espera, amor! Tinha vizinho do lado de fora? – Lourdes estava incrédula.

— Tinha mais vizinho que gente, querida.

— Mas não vi ninguém quando saí! – Ela ficou confusa.

— Deve ser atenção seletiva, meu bem, porque estava todo mundo lá. – Ele respirou fundo. – Tudo que consegui fazer foi pegar o Cadu no braço, sem me importar com mais ninguém.

Sem conseguir ouvir qualquer som – mesmo com todo barulho que as pessoas faziam – Marcos seguiu levando Cadu e a cada passo dado, sentia o corpo querer tombar tamanho o peso da dor. Quando já estava perto de entrar, olhou pro pra trás e viu Lourdes desmaiada, daí ficou completamente desesperado.

Sem saber o que fazer, começou a berrar, pedindo pelo amor de D-s que chamassem o SAMU o mais rápido possível. Na mesma hora chegou Fábio e Beatriz, amigos dos Mendez, vizinhos da frente – o casal tinha ido passar o fim de semana na fazenda deles, que ficava afastada do centro da cidade.

Assim que Fábio viu aquilo, foi botando ordem na geral, amontoada ao redor da residência Mendez – alguns curiosos, outros sem reação e tinha os sem-noção, que quem queria registrar tudo. Fábio disse pra Bia e mais alguns socorrer Lourdes e pra outros acudir Marcos, enquanto chamava os paramédicos.

— Graças à D-s que a gente tem os Soares pra nos ajudar. – Lourdes comentou aliviada.

— Pois é, amor, eles apareceram na hora certa!

Marcos ainda estava surpreso com tamanha coincidência, não que os outros vizinhos não fossem bons, mas nada como ter amigos tão chegados [Provérbios 18.24] – o verdadeiro amigo sempre está ao alcance do coração.

— E nosso Cadu, ele sobreviveu? – As lágrimas começaram a escorrer, serenamente, pelo rosto de Lourdes.

— Querida, calma! – Ele enxugou os olhos dela com os polegares e lhe beijou a fronte. – O Cadu está vivo. – Marcos sorriu timidamente.

— Ah! Graças à D-s! – Ela respirou, aliviada.

— Só que a gente não vai conseguir ver ele agora.

— Por que não, amor? – Lourdes franziu a testa.

— Antes você precisa se recuperar, descansa um pouco mais! Você passou por fortes emoções hoje, depois que acordar a gente fala com o doutor.

— Tudo bem. – Obediente, devido ao calmante, ela se aninhou no leito.

Marcos terminou de cobrir a amada esposa, deu-lhe um beijo no rosto, apagou a luz e fechou a porta atrás de si. Lourdes podia estar mais calma, graças ao ansiolítico, mas ele também não contou todos os detalhes e preferia manter assim, pelo menos enquanto pudesse adiar.

Sua companheira, amiga e mãe de seu filhinho, já tinha sofrido demais e talvez ainda não estivesse pronta pro que estava por vir. Nem ele sabia como estava lidando com tudo aquilo, a única resposta é que aquela força – maior que ele próprio – só podia vir de D-s [Salmos 46.1].

Mesmo sabendo o que está acontecendo naquele exato momento, Marcos sorriu – a grandeza habita em nós, independente da aparência frágil ou do tamanho que se possa ter [1 Coríntios 6.19].

— Acorda, querida, precisamos ir. – Horas depois lá estava Marcos, sem querer acordá-la, apenas sussurrou.

— Já, amor? Me deixa dormir um pouco mais. – Ela respondeu sonolenta, ainda sob efeito do ansiolítico.

— A gente precisa falar com o médico. – Ele lembrou, suavemente.

Mal Marcou fechou a boca e a esposa deu um pulo, espantando a sonolência pra bem longe dali e o deixando assustado com tamanha repentina mudança de disposição.

— Está esperando o que, neguinho? Vamos logo ver o Cadu! – Lourdes disse indo em direção a porta.

Não teve como não concordar que o marido tinha toda razão, o descanso tinha mesmo lhe feito bem demais, ela se sentia completamente revigorada agora.

— Espera, querida! – Marcos a segurou e respirou fundo.

— Que foi, amor? – Ela estranhou a calma do marido.

— É que, talvez, a gente não consiga ver o Cadu hoje ainda.

— Que isso, Marcos? – Lourdes ficou séria diante do despautério da sugestão.

— É que o Cadu está internado na UTI.

— Ah! Então a gente passa só pra fazer uma visitinha. – Ela sorriu, mas ao perceber o olhar sofrido do marido, logo o sorriso sumiu. – Tem mais alguma coisa que preciso saber?

— Por enquanto é só. – Ele tentou ser o mais contido possível, mas isso acabou tendo o efeito contrário.

— Neguinho, não adianta esconder, se eu descobrir depois vai ser pior.

Isso o fez desviar os olhos dela e fixá-los no chão, enquanto ficava pensativo.

— Não faz assim, o que quer que tenha acontecido, o Cadu também é meu filho e preciso saber como ele está, amor.

— Querida… – Marcos a encarou novamente. – Melhor falar logo com o médico, ele está esperando a gente.

— Tudo bem! – Sem alternativas, Lourdes assentiu.

Com a resposta, Marcos se adiantou e abriu a porta pra esposa, daí os dois saíram de mãos dadas, rumo à sala de Pedro Gonzaga, o médico que os assistia.

Lourdes ficou apreensiva, ainda mais depois que viu a porta da sala do médico ser aberta por um homem alto – ele parecia jovem demais, ou seja, pouco experiente, além disso era barbudo, algo que ela não gostava, aquele monte de pelo na cara não lhe inspirava confiança. Ainda assim, resolveu entrar pra saber o que o sujeito tinha pra dizer.

— Por favor, se sente, dona Lourdes.

— Obrigada, estou bem assim! – Ela permaneceu séria e em pé. – Quero ir logo ver meu Cadu.

— Receio que isso não será possível.

— O quê!? – Ela se indignou, aquele médico não podia fazer isso. Com a idade que tinha nem devia saber o que falava direito.

— Melhor a senhora se sentar primeiro, porque talvez o que vá ouvir não seja assim tão fácil de digerir.

No mesmo instante o olho de Lourdes brilhou, querendo verter em lágrimas, mas ela respirou fundo e tentou se acomodar naquela cadeira fria, sem saber que estava prestes a receber a pior notícia de sua vida.

— Dona Lourdes, o Cadu está em coma.

Ouvir aquilo foi o mesmo que ter uma faca lhe atravessando de um extremo ao outro.

— Meu D-s! Como assim, doutor? – Lourdes olhou na direção do marido, que estava com as mãos cruzadas sobre a mesa, ele apenas lançou um olhar sério que a penetrou até lhe atravessar a alma, fazendo-a emudecer total.

“Então era isso que o Marcos sabia e não quis me falar…” – Respirando lentamente, pra conter aquela enxurrada de emoções, Lourdes voltou a encarar o médico.


#proximoepisodio

Apesar da pressa em falar com o doutor Pedro Gonzaga, o que o médico diz deixa Lourdes abalada, mas ao invés de se desesperar ela vai buscar forças em D-s pra suportar aquela barra – mesmo sem saber o que ainda teria de enfrentar pela frente.

Mesmo exausto, devido o assédio dos repórteres, o casal não consegue ir pra casa, então resolve se hospedar num hotel ali perto, o que torna a visita ao filho mais fácil, mas Lourdes descobre que talvez não esteja pronta pra saber o que o médico e o marido vinham escondendo de si.

Ósculos e amplexos,

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