folder Arquivado em Cronicário
O feitiço entre borboletas e mariposas
Habitando o dia ou a escuridão, o encontro com esses seres alados nos fascina e pode até mesmo provocar terror
Por Mishael Mendes access_time 12 min. de leitura

Desde que a humanidade percebeu borboletas a flutuar pelo céu ou pousando em flores, ela exerce fascínio sobre nós – os fósseis mais antigos encontrados, datam de 40 a 50 milhões de anos atrás, conforme um estudo publicado na Royal Society of London, em 2004. Sendo um dos insetos mais abundantes e reconhecíveis, se encontram presentes em todos os continentes e climas, com exceção da Antártida, habitando regiões que vão do deserto à floresta tropical, até pastagens e planaltos montanhosos. Elas chamam atenção por onde passam com uma beleza que as diferenciam dos demais insetos, como se estivessem num patamar superior, como um ser mítico, feito uma fada, ou pássaro, como sugere o norueguês sommerfugl, “pássaro de verão”, ou ainda, fazendo parte da realeza, como o nome dado a borboleta-monarca, no século XIX, pelo entomologista Samuel Scudder, por considerá-la “uma das maiores borboletas, a governar um vasto domínio”. Suas cores vivas e formatos servem pra espantar predadores e os diferentes desenhos das asas lhe permitir ser confundida com outros insetos ou se misturar com facilidade na natureza. Borboletas ainda encantam pela sua metamorfose que as transforma de uma criatura – de beleza questionável – num ser alado com voo gracioso.

Tamanho é essa admiração que alguns estados norte-americanos têm uma borboleta oficial, além de mexer com a imaginação de nossos antepassados. Como pode ser percebida no próprio nome do inseto, borboleta vem de belbellita, que parece ter sofrido influência espanhola, já que é formada através da duplicação do latim bellus, “bem, bonito, belo, encantador”, com o sufixo “ita”, usado pro diminutivo na língua hispânica; no século XVI, surgiu a variação berbereta, que acabou por se transformar em borboleta. Ela possui outro sinônimo, embora não tão conhecido, “panapaná” ou “panapanã”, do tupi panapa’ná, duplicação de pa’nã (ba’nã), redução de pa’nama, borboleta; assim, panapaná seria um agrupamento de borboletas, “muitas borboletas juntas“, que chegam a formar nuvens. Então, além de sinônimo, panapaná também é usada como coletivo de borboletas.

Bateu asas e voou

Em outros idiomas, a borboleta tem nomes curiosos, pros franceses é papillon, os italianos a chamam farfalla, ambas descentes do latim papilione, do indo-europeu *pal-, “sentir, tocar, sacudir”. Sofrendo influência do francês antigo “parpalhos, parpaja”, a forma italiana acabou divergindo do original. Os anglo-saxônicos usavam “butterfloege”, de butter, “manteiga” e floege, “mosca”, devido à cor das borboletas encontradas na Inglaterra serem de tonalidade parecida com a da manteiga; esse nome influenciou o inglês butterfly, “mosca da manteiga”.

Sua delicadeza quase transcendente, a fez ser associada ao sobrenatural, em gaélico escocês é chamada seilleann-dé, “abelha de D-s”, e dealan-dè, “relampado de D-s”. Os gregos antigos a relacionavam a materialização da essência, por isso a chamavam psȳchē, “alma, fôlego, respiração” – ou “mente” no conceito atual. Esse nome era dado porque se acreditava serem a alma – como os balubas e os luluas do Kasai, do Zaire central – que escapava pela boca, por isso na “Ilíada” (“Iliás”, do século VIII a.C.), Homero diz que uma vez que a alma passe a barreira dos dentes não pode mais retornar. No grego moderno, ela é chamada petaloudia, “pétala, folha; se espalhando”.

De acordo com Lafcadio Hearn, em “Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things” (“Kaidan” | em livre pt-BR: “Histórias de fantasmas”, de 1904), a borboleta é a personificação da alma de um familiar morrendo ou já falecido que retornava pra um último adeus; segundo a lenda japonesa o problema era se apareciam de bonde, porque traziam mau agouro, prenunciando a morte de alguém. Além de serem vistas como espíritos viajantes, borboletas simbolizam as gueixas, representando a feminilidade devido a sua leveza e graciosidade; também é um símbolo matrimonial, representado por duas borboletas, uma pra cada sexo, mostrando união.

Quem também acreditava que elas se tratam de almas retornadas dos mortos, são os maoris, da Nova Zelândia, bem como os iranianos e alguns povos turcos da Ásia central, pra quem podiam aparecer a noite, já pros maias a espécie responsável pela metamorfose eram as monarcas. Nas Ilhas Salomão, o moribundo que pode escolher sobre o que se tornar após a morte, muitas vezes opta pela borboleta. Enquanto na mitologia irlandesa, elas representam a alma dos mortos esperando passar pelo purgatório, representando transformação e renovo; já pro sufismo islâmico, a borboleta que se queima nas chamas – como na fábula de Leonardo da Vinci – é a alma que se perde no fogo divino. Pros astecas, elas serviam de guia pros guerreiros, mortos em campo de batalha, e mulheres, que não resistiram a um parto difícil, os conduzindo ao lugar de repouso. Embora de vida curta, ainda representam a longevidade, no mundo sino-vietnamita, estando associada ao crisântemo que reflete o outono, ou a renovação, já que nessa estação ocorre a queda de suas folhas.

Fecha no close, Maria

Borboletas e mariposas pertencem à ordem lepidóptera, do grego lepís, de lepídos “escama”, e pterón, “asa” – que possui cerca de 180.000 espécies, divididas em 126 famílias e 46 superfamílias, representando 10% de todas as espécies de organismos vivos. Mesmo com um parentesco próximo, enquanto borboletas costumam estar associada a coisas boas, devido a seus hábitos noturno, mariposas possuem uma aura de mistério e mal agouro, que a associa às trevas e à morte, principalmente as de cores escuras.

Apesar do nome mariposa diferenciar as borboletas noturnas, no espanhol – de onde descende – a palavra sempre foi usada pra borboletas; a mariposa deles é chamada polilla. Segundo Joan Coromines e José Antonio Pascual, em “Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico” (“Dicionário crítico etimológico castelhano e hispânico”, finalizado na década de 1970 e publicado em cinco volumes no início da década de 1980), mariposa vem da expressão “Maria, posa(te)” (em livre pt-BR: “Sossega, Maria”), proveniente de alguma cantiga infantil ou de “la Santa Maria posa” (em livre pt-BR: “A Virgem Maria desce ou descansa”); uma construção parecida é encontrada na versão sardenha de borboleta, mariavolavola, “voa, voa, Maria”. Inclusive, a prática de dar nomes pessoais é comum em línguas românicas, como mariquita, “joaninha”, do espanhol mari-quita, “se manda maria” ou sua versão catalã, marieta; o catalão guilla, “raposa”, que vem do apelido Wilhelmina e o francês renard, “raposa”, descende de Reginhard.

O ciclo de vida de ambas consiste em quatro fases: ovo, lagarta, pupa ou crisálida e imago, que seria a borboleta ou mariposa, de fato. Além de hábitos diferentes, onde a maioria das borboletas são diurnas e as mariposas noturnas, outras coisas que as diferencia são: a posição das asas, mariposas costumam deixá-las abertas, já borboletas fazem o oposto; e as antenas, a das mariposas possuem cerdas sensoriais que servem para captar feromônios do sexo oposto, fazendo-as parecer plumas, a das borboletas, são fininhas com a ponta dilatada.

É hora de morfar

Pelas borboletas possuírem estágios de mutação tão diferentes dos outros insetos, acabam por representar a transformação física – como na Malásia, onde simboliza transgêneros – também de mudança espiritual, como os cristãos que aplicam seus estágios a vida, morte e ressurreição; inclusive em algumas culturas, caracteriza a nova vida em Cristo. Já pra nova era, borboleta se trata da evolução interior, pautada em seus princípios, trazendo renovação, renascimento, ressurreição, transformação e as potencialidades que serão atingidas ao alcançar a liberdade.

Esse poder de mutação as fez ser imaginadas não apenas como seres que se transformam, mas como resultado da mutação de outras entidades. Certa lenda indígena conta de um grupo que migrava pro México, em meio ao frio intenso e pra terem chance de chegar ao destino, acabaram deixando crianças e velhos pra trás, e pra que eles pudessem acompanhar seus familiares acabaram transformadas em borboletas-monarcas. Em mitos asteca, maia e da cultura pré-hispânica, os deuses são retratados como borboletas e cada espécie associada a uma divindade diferente, conforme a cor e os hábitos dos insetos. No condado de Pima, existe a crença que no início o criador assumiu a forma de borboleta e sobrevoou o mundo atrás de um lugar adequado pra humanidade. Conforme a “Encyclopedia of Religion” (em livre pt-BR: “Enciclopédia da Religião”, de 1986) de Mircea Eliade, em Madagascar e entre os nāga de Manipur, alguns afirmam possuir ancestralidade de borboletas.

A borboleta ainda é associada a luz de fogo cintilante e aos atributos de Xochipilli, o deus das flores e da vegetação, na mitologia asteca e maia. Mas essa cultura envolvendo essas divindades também tinha seu lado macabro, representado por Itzpapalotl, a deusa da borboleta obsidiana, cujas vítimas eram imoladas com uma faca lâmina sacrificial de obsidiana, porque se acreditava que a alma era livre como a borboleta e pra poder capturá-la se fazia necessário o uso da pedra. Seu companheiro era Itzpapalotl, o deus Tezcatlipoca do Espelho fumegante – onde “tezcat”, é “faca obsidiana”.

A realidade da bruxa

Com todas essas mutações, não é de se estranhar que borboletas ou mariposas acabaram associadas ao mal devido ao pigmento escuro de suas asas e percebidas como representação de um ser maligno e tão antigo quanto a própria humanidade, capaz de se metamorfosear nelas: a bruxa. Apesar de incerta, acredita-se que a palavra bruxa do latim antigo broscia, relacionada com o frâncico brosser, “correr pelo mato ralo’ ou de brusiare, “queimar”, do italiano brucia, “queima”, do verbo bruciare, “queimar”, relacionado a prática de produzir suas poções ao cozinhá-las. Que pode ter recebido influência do espanhol “bruja”, do catalão latino “bruixa” ou do românico, occitano “bruèissa”. Também pode ter relação com o céltico bruxtia, alteração do gaulês brixtia, “magia, feitiço”, vindo do nome da deusa gaulesa Bricta. Essa origem pode ter relação com os vocábulos proto-celtas, brixto e brixtu, ambos com significados envolvendo magia ou feitiço, cujas palavras mais antigas, presentes nas línguas célticas, como o irlandês antigo bricht (brichtu), “feitiço, encantamento, fórmula mágica” e do bretão antigo brith (brithron), “varinha de condão, bruxaria, magia”, se referem aos bryxs, “bardos” ou “aedos”, os iniciados nas artes da magia que haviam memorizados encantamentos secretos.

Independentemente de qual seja sua origem – obscurecida pelo tempo devido à quantidade de eras em que surgiu – bruxa é um ser antigo representado por seu aspecto velho e deformado, que costuma ter forma feminina devido ao seu poder de sedução, capaz de todo tipo de maldades, inclusive utilizar feitiços pra assumir as mais variadas formas pra fazer isso e escapar impune, ela escolhe propositalmente seres versáteis assumindo sua forma, as mais comuns são aves, como a coruja, saci, etc., e a de borboletas e mariposas negras, cuja presença acaba por assustar por trazer mal agouro e representar o mal que podem conter.

O próprio nome alemão da borboleta carrega isso, schmetten, de schmetterling, significa “creme, nata”, que apesar de ter relação com produtos lácteos, como a versão inglesa, surgiu baseado na crença que borboletas roubavam leite e nata, algo que acontecia devido a bruxas transformadas nos seres voadores. Sua aptidão em se metamorfosear também está registrada no russo babochka, “borboleta”, um diminutivo de baba ou babka, “velha, avó, por extensão, bruxa”, dando origem a Baba Yaga – o terrível ser sobrenatural que voa num caldeirão em busca de presas.

Assim, a mariposa ascalapha odorata, acabou associada a esse ser maléfico, devido a seu hábito noturno e as cores sombrias de suas asas, a ponto de ser conhecida popularmente como bruxa – associação essa que vem antes mesmo de Colombo atracar na América, em 1492. Nos EUA, a mariposa é chamada de black witch, “bruxa preta”, no México é a mariposa de la muerte, “mariposa da morte” e na Jamaica de duppy bat, “morcego fantasma”. E essa transformação acontece pra poder realizar seu ato de maior maldade: sugar sangue de bebês. Segundo Ivan G. Americano do Brasil, em “Lendas e Encantamentos do Sertão”, de 1938, reza a lenda que a bruxa surge após o nascimento da sétima filha, após as crianças anteriores também serem do sexo feminino, cuja maldição só pode ser quebrada se ela for batizada pela irmã mais velha; caso isso não aconteça, nas noites de sextas da Quaresma, ela se transforma no ser maligno pra sugar o sangue de inocentes com até sete dias de vida. Assumindo a forma de mariposa, entra pelo telhado, janela ou alguma brecha, que após beber o sangue enche a cara com a bebida que encontrar, abandona a casa, soltando uma gargalhada medonha – que pode ser confundida com um pio – cujo som ecoa à distância.

Ósculos e amplexos,

Mishael Mendes Assinatura

acredite se quiser borboleta negra borboletas borboletas noturnas bruxa bruxaria crendices desfazendo mitos encanto fake news fascinação fascínio folclore hoax ignorância lenda mariposa bruxa mariposas mitologia mitos morte de inocentes natureza natureza selvagem soundtrack