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Hey, você! Dá pra focar aqui?!

Foi mal já começar assim, mas ultimamente é tanta coisa surgindo de tudo que é lado – algumas até bem apelativas – que fica difícil ter um pouco de atenção, ainda mais quando se é mero coadjuvante de uma forma até meio arcaica de transmissão de informação.

Não sei como tão as coisas aí onde cê tá, mas aqui tá maior zona, tanto que nem tô conseguindo escutar meus próprios pensamentos, a galera espalhada ali na sala de estar diz que tá estudando, mas me convenceram muito não – estudar com toda essa zoeira?

A propósito, sou o Narrador – sempre esqueço de me apresentar, afinal, isso é a última das últimas coisas que um leitor se interessa saber – embora sem a gente tem história nenhuma! #fikdik

Tá ligado quem dá cores, sabores e sensações ao que você lê, descrevendo tudo em detalhes tão envolventes, quanto essenciais? Prazer, esse cara, sou eu!

Gosto de me definir como um condutor que leva você em viagens da hora e venho de uma tradicional família de eloquentes narradores, que não são de colar comigo – eles não curtem o jeito que faço as coisas, dizem que sou muito envolvente e moderninho demais.

O que acontece é que curto pakas falar como a geral, também acho mó barato essa parada de quebrar a quarta parede, mas pode deixar que a partir daqui vô ficar mais na minha – ou não, vai saber, né!?

Na mesa, no meio de toda agitação se encontrava uma galerinha bem distraída, nem eram tantos assim pra tanto barulho, até onde contei, fora Jean, o bonitão que mais fazia bagunça e também o anfitrião, tinha mais quatro, Kylie, Raphael, Earvin e Allan – cada um com uma beleza única, lindos a sua maneira.

Entre os pés deles tava Yakut, a gatinha da casa – acho que de tanto a tratarem como membro da família ela acabou acreditando nisso – ela sempre ficava agitada quando tinha gente de fora, andando de um pro outro, em busca de mimos e colos, que sempre conseguia mesmo a geral tando ocupada.

— Hey! – Quando Kylie percebeu Yakut já tava no seu colo.

— Tá vendo só!? Por isso disse pra não dar moral pra ela! – Jean riu. – Cê foi deixar uma vez, agora sempre que ele te ver vai querer subir no teu colo.

— Ah! Tudo bem, né, Yakut?

— Miau! – Ela respondeu, dizendo que era só pra quem podia.

— Essa Yakut é mesmo um abuso só!

Tá vendo como é difícil? Quando não é barulho, é alguém interrompendo – não sei você, mas se tem algo que aumenta o nível do meu ranço é ser interrompido.

Se ali já tava maior algazarra sem tá o bonde todo, imagina se tivesse completo? Ninguém ia conseguir ficar por perto – juntos eles ficavam agitados demais e até insuportáveis, caso cê não tivesse misturado.

“Não existem coincidências, apenas ocasiões certas que nos pegam de surpresa.”

Pode até ser que eu tivesse ali no meio – ou não – isso é algo que cê talvez descubra se continuar lendo até o último episódio da minissérie.

Até que toda aquela agitação se justificava, afinal, quem em plena tarde de sábado, quando tava maior solão bonito lá fora ia querer saber de estudar?

Apesar disso, o dia tava agradável, o sol brilhava na temperatura certa pra passear por algum parque ou qualquer lugar ao ar livre, sem destino pra voltar enquanto se aproveita o tempo bom – shopping e cinema nem pensar, a não ser que cê quisesse perder o dia maravilhoso lá fora. Caso não dê pra ir longe e onde cê mora for cheio de árvores, igual aqui, então umas voltinhas pelo barreiro já tá valendo!

Tudo bem que o segundo semestre tava encerrando, daí que a carga de trabalhos da facu disparava feito coelho, multiplicando-se numa velocidade absurda, somando isso a maior dificuldade de tirar nota na B2, além dos professores exigir mais, só se empenhando bastante mesmo.

A geral ali tirava boas notas, mas pelo esforço que por mérito do quociente de inteligência, por isso estudavam pras provas antes mesmo delas ser anunciadas, enquanto conciliavam o tempo pra finalizar as entregas dos trabalhos, daí que tinham de ser criativos pra aturar uma longa maratona – espantando a chatice que só CDF deve gostar.

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Então seguiam fazendo piadas e bolando charada pro conteúdo pra ficar divertido, além de ajudar fixar melhor, já que associar novas informações as pré-armazenadas, faz o processo posterior de recuperá-as mais fácil que criar conexões.

Nesse clima de descontração eles seguiram, enquanto no corredor, o relógio corria tresloucado, sem o menor pudor, sem se importar se estava ou não sendo observado.

— Caraca! Já passou das seis e nada da Ellis e do Timonthy chegar. – Jean só se deu conta ao olhar pela janela e ver o céu começando escurecer.

O comentário fez a geral olhar pra fora, o céu tava quase que totalmente tomado de nuvens de um cinza meio azulado, enquanto os espaços sem nuvens contrastavam em azul-claro, num tom mais brilhante, que eles se perderam no saudosismo que a época de fim de ano costumava evocar.

— Que será que aconteceu? – Kylie cortou o clima de contemplação com seu jeitinho agitado e os sonoros “esses” que se acentuavam quando ela falava.

— No grupo eles mandaram nada! – Phael confirmou após olhar o iPhone.

— Vâmo descobrir agora. – Allan foi enviando mensagem no grupo citando os dois.

Quase meia hora depois Timmy respondeu que não conseguiu ir porque precisou ajudar o pai na loja, como era feriado prolongado o movimento dobrou, então ele ficou pra conseguir atender a alta demanda de clientes, pouco tempo depois foi a vez de Ellis.

— Mals aí, galera! É que o Danny tava de folga hoje, daí, sá-comé? Saí pra aproveitar com ele.

Earvin avisou que eles iam ter que correr depois pra acompanhar e os dois concordaram.

A Ellis é vacilona, cê não acha? Mesmo sabendo que tinha trabalho pra fazer, além de uma pá de conteúdo pra revisar, preferiu ficar de rolê com o namorado – puta falta de sacanagem, né, não!?

Pode ser que sim, pode ser que não – pelo menos ninguém ali no grupo estressou com isso. É que como o namorado dela era militar, tinha poucas saídas, daí quando ele tava de dispensa ela aproveitava esses momentos ao lado dele.

— Tudo bem, galerinha! – A geral tava distraída, mas foi só ouvir a voz de Catie, Catherinne a mãe de Jean, pra parar tudo e ter ainda mais motivos pra sorrir.

— Melhor agora! – Eles responderam.

— RROOONNNKKK!

— Que isso, produção? – Jean riu do efeito sonoro.

— Tem um leão na sala? – Kylie também riu.

— Mals aí, meu bucho lembrou que tá na maior larica! – Allan riu. – Que cê fez de bom pra gente, tia?

— Hoje nada, Allan.

— Sério? É que chegou um cheiro tão bom quando cê abriu a porta da cozinha.

— Estou terminando uma encomenda de doces pra um casamento.

— Poxa! – Allan não conseguiu esconder o descontentamento.

Ninguém ficou muito contente de ouvir isso, mas Allan era o mais descarado, ainda mais depois que a sala foi tomada por um cheiro de biscoito amanteigado com toques de chocolate – garanto que não tem perfume mais sedutor que esse – ainda mais depois de usar tanto estudo.

Apesar do cérebro representar menos de 2% do peso corporal, ele gasta até 20% da energia gerada, sendo que a maior parte da glicose é consumida pelos neurônios e pra gerar neurotransmissores. Daí, quando o cheiro de açúcar espalhou no ar, o cérebro se agitou – a glicose pode ser obtida através dos alimentos ingeridos, principalmente dos carboidratos, ou mesmo ser sintetizada pelo organismo – como fazia tempo que eles estavam concentrados, sem nem lembrar de comer, a necessidade de suprir o intenso uso dos neurônios tinha aumentado.

— DING-DONG! – A campainha interrompeu o silêncio causado pela decepção.

— Deixa que atendo! – Catie se direcionou pra porta, antes de alguém tomar a iniciativa, embora ninguém tivesse demonstrado o menor interesse de fazer isso.

Sem ter outra opção a não ser voltar aos estudos, foi o que a geral fez, mas não como o mesmo empenho de antes, já que o cansaço encostou.

A galera costumava se reunir aos sábados quando se aproximava o fim dos semestres, na maioria das vezes os encontros eram na goma de Jean e, quando ele não oferecia a casa, eles ficavam esperando o parça fazer isso. É que além do espaço amplo, sem ninguém pra atrapalhar, quando estavam lá Catie insistia em fazer algo pra eles e, como ela era pâtissière de mão-cheia, eles se acabavam.

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Só que dessa vez parece que deu ruim, a ideia de ir pra lá não foi boa e agora tava todo mundo com fome, mas tinha que estudar assim mesmo…

— Aqui! – Catie colocou uma sacolinha do Uber Eats em cima da mesa. – Como estou ocupada, pedi uns cupcakes pra vocês, espero que gostem. – Ela piscou.

Dessa vez ninguém conseguiu esconder as emoções, a cara da geral se encheu de felicidade.

— Tia, cê é pesada memo! – Allan agarrou o pescoço de Catie, lhe beijando o rosto.

— Que isso, menino Allan! – Ela olhou pra galera. – Por acaso, vocês não acharam que eu ia deixar minhas crianças com fome, né!?

— Valeu, mãe linda! – Jean também agarrou a mãe, fazendo o mesmo.

Logo a geral tava pendurada no pescoço de Catie.

— Está bem crianças, calma, desse jeito vocês vão me derrubar! – Ela ria, toda mãezona. – Agora preciso voltar pros doces, aproveitem!

— Agradece, Catie! – A geral disse já de boca cheia.

— ‘Nada, crianças! – E ela voltou, toda contente, pra cozinha.

— Meu, a Catie é phodástica! – Earvin disse com um pedação de cupcake de baunilha na boca.

— Mãe, que fala, né!? – Jean concordou, enquanto devorava um de chocolate com menta.

Apesar de ter vários cupcakes, de laranja, chocolate, baunilha, cenoura, menta com chocolate, com gotas de chocolate, de creme, chocolate branco e vários outros sabores tão gostosos e com um visu atraente, não duraram mais que alguns minutos.

Bem alimentados, com a cota de felicidade preenchida – a ponto de ficar estampada na cara – eles voltaram aos estudos, não sem antes Allan mandar foto no grupo, pra fazer vontade.

Por volta das oito, cada um foi se retirando, até restar apenas Kylie e Jean que estudavam um pouco mais afundo signo, significado e significante.

Quando Kylie deu uma pausa pra atender o chamado da natureza – pra fazer o número 1 ou o 2, podia ser também o 3, que inclui os dois primeiros, certeza mesmo é algo que não tá tendo e nem vai ter, aliás, que papo de merda é esse mesmo?

Enfim, enquanto ela se retirou, Jean também resolveu parar um pouco e sem ideia do que fazer pegou o Mi Note e abriu a galeria de fotos. Ele era viciado em tirar fotos, mas com a correria da facu mal conseguiu fazer isso, tanto que a galera do Insta até enviou direct pra saber se tava acontecendo algo – se ele tinha sido raptado ou coisa do gênero.

Apesar da pausa pra focar nos estudos, ele tava decidido a fazer curso de fotografia, pra aprender algumas técnicas e, quem sabe, seguir na área, assim que terminasse o bacharel em comunicação. Nisso, começou a brisar no mochilão que ia fazer quando terminasse o curso.

A ideia de viajar pelos lugares mais fantásticos que descobriu – ele tinha uma pá deles salvos nas notas do celular, com todas informações necessárias – era antiga já e unindo o desejo com as possibilidades da fotografia, só potencializou o fascínio exercido sobre ele.

“Há momentos em que o que importa, é não se importar.”

Talvez até criasse um canal de vlog, afinal, os locais não serem tão conhecidos, mas rendiam momentos prazerosos e imagens espetaculares. Ele queria algo na pegada do Matt Komo – com aqueles cortes, transições de câmera e efeitos de fades incríveis, tomadas de tirar o fôlego, além de criativas, fotografia linda de lugares maravilhosos e uma ótima edição com trilha sonora marcante.

— Su memo que vô fazer! – Foi então que se deparou com umas fotos de Kylie.

Jean não lembrava de ter tirado foto nenhuma, pelo menos, não aquelas. Olhando melhor, viu que a maioria se tratava de selfies, daí lembrou que outro dia, precisou fazer algo – que já tinha esquecido completamente – na facu e pediu pra ela segurar o Mi Note.

— Por isso a Kylie tava daquele jeito quando devolveu o celular! – Na hora ele ficou sem entender, agora tava explicado o sorriso dela.

Engraçado que isso já tinha algumas semanas e só agora é que ele foi ver, era mesmo coincidência demais, pelo menos foi o que Jean pensou, sem saber que não existem coincidências, apenas ocasiões certas que nos pegam de surpresa.

Ele riu ao recordar que Kylie tinha mesmo essa mania de tirar fotos de si mesma e de quem estivesse por perto com o celular de algum desavisado que fosse parar na mira dela.

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— Essa Kylie não existe! – Ele pensou alto, sorrindo.

O que o deixou mesmo admirado foi ver como ela tava bonita, ostentando fotogenia em cada foto – enquanto ele costumava tirar umas trinta pra salvar umas três ou algo nessa proporção, sem falar nos filtros – as de Kylie estavam perfeitas, mesmo sem qualquer edição de imagem.

De todas as fotos, a mais espontânea e fofa que ele achou foi a dela fazendo a metade de um coração pra câmera. Tinha alguma coisa naquela foto, que Jean não soube dizer, mas o fez sentir uma sensação diferente dentro de si, um calor que foi subindo abdômen acima.

Existia em Kylie algo que o atraía, como não sabia dizer o que, Jean definia aquilo como admiração.

“Su memo! É nada de mais.” – Ele disse a si mesmo, mas havia certa ansiedade pra estar ao lado dela, tanto que ele se pegava contando o tempo restante pra isso acontecer, mas ao ver as fotos, especialmente a da metade do coração, a coisa a qual não sabia definir pareceu intensificar.

— Cê tá fazendo aí com essa cara de bobo? – Kylie surgiu de repente, dando um baita susto nele.

Ela chegou bem na hora que ele completou o coração da foto, instantaneamente o calor que tinha chegado ao peito subiu pras bochechas que ficaram vermelhas e ele baixou a mão, bloqueando o celular.

— Ah… nada demais! Bora terminar? Tá ficando tarde pra mocinha voltar pra casa. – Ele desconversou.

— Tá bem, pai! Té porque não guento mais estudar.

Os dois riram e voltaram as pesquisas e anotações, tudo tava tão interessantes que quando se tocaram, já passava das dez, daí resolveram encerrar os estudos.

Como manda a educação – e as segundas intenções… Cof! Não nesse caso, né!? O garoto mal sabia ainda o que tava sentido pela cremosa – Jean acompanhou Kylie até o ponto de ônibus e ficou esperando com ela.

— Curti as fotos, Kylie. – Ele tentou puxar assunto, de repente falar com ela qualquer coisa que não envolvesse matéria da facu parecia difícil.

— Que fotos? – Ela não fazia a menor ideia do que ele tava falando.

— As que cê tirou no meu celular.

— Que tirei? – Kylie puxou na memória, daí lembrou que tinha feito isso, junto também veio o flash da cara de bobo de Jean olhando o celular. – Tô ligada! – Ela deu uma risadinha que o deixou envergonhado. – Sério? Elas ficaram tão básicas.

— Nada! Tão topzeira. – Ele tentou se recompor, embora as bochechas ainda tivessem vermelhas.

Toda vergonha nem era tanto por ela ter percebido o motivo da felicidade dele, mas, porque desde que viu as fotos uma ideia ficou martelando na cabeça, sem sair de lá e cada vez que voltava Jean sentia um misto de ansiedade, com nervosismo, euforia, calor e uma espécie de torpor que o impulsionavam em direção ao que queria, ao mesmo tempo que o paralisavam ante o pavor de se expor.

Podia ser que Kylie o achasse atrevido, mas talvez valesse a pena correr o risco.

— Kylie!?

— Oi?

— Será que cê podia…

— Meu coletivo! – Ela lhe beijou o rosto. – Vô nessa! Agradece, tchau!

— Ah… tchau! – Jean ficou ainda mais sem jeito.

Das outras vezes aquele seria apenas um beijo de despedida, mas daquela pareceu diferente, quando ele colocou a mão no rosto, sentiu arder exatamente onde os macios lábios de Kylie haviam tocado.

Jean ficou ali, estático, com a mão no rosto, enquanto o busão saía, de dentro dele Kylie o viu daquele jeito e sorriu.

— Peraê! – Ele correu, tentando acompanhar o coletivo. – Não te falei o que queria… – O motorista se quer o viu ou escutou ele, então Jean ficou parado, enquanto o ônibus sumia noite adentro.

Se ele não tivesse pensado tanto, talvez tivesse conseguido falar – há momentos em que o que importa, é não se importar – e agora como ele ia fazer?


#proximoepisodio

Jean ficou bem impressionado – pra não dizer embasbacado total – com as fotos de Kylie, tanto que perdeu a noção do tempo, indo dormir tarde, ele não conseguiu evitar ficar assim e isso acabou gerando maior climão com o pai dele.

Na segunda, ao ver Kylie na aula, ele só ficou mais nervoso, ainda sem saber o motivo de tudo isso, só que ele precisa se controlar pra dizer a ela o que tanto o incomoda. Será que dessa vez vai?

Ósculos e amplexes,

mishael mendes sign, assinatura

Mishael Mendes

Um cara totalmente apaixonado por música, se deixar ele não quer fazer nada sem uma boa trilha sonora. Amante de fotografia, livros, animais e comida boa – principalmente a da mãezona. Criou o blog e o canal pra compartilhar sua visão inversível da vida.
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